segunda-feira, 14 de abril de 2014

Caio Blinder- Cálculos ucranianos IV

“Eu farei uma oferta que ele não poderá recusar” (Don Vito Corleone)

Palavra final na coluna no final da semana sobre a crise ucraniana não cabe a Julia Ioffe, destacada no sábado. No domingão, cabe à novilíngua com sotaque mafioso do ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov. Ele advertiu as autoridades do governo interino ucraniano para se comportarem e assim não minarem os esforços de paz no país. Paz no caso é divisão, o fim da Ucrânia como país unido.
O alerta de Lavrov foi feito em meio às reações de forças de segurança ucranianas contra separatistas pró-russos, armados e coordenados, que tomaram edifícios governamentais e delegacias policiais no leste da Ucrânia (existem as acusações de que forças especiais russas estão na verdade engajadas nas operações). Na sua linguagem orwelliana, Lavrov acusou o governo de Kiev de ser incapaz de decidir o destino ucraniano. Com isto, ele quer dizer que os termos de Moscou não são aceitos por um país supostamente soberano.
Sei que não adianta ficar exasperado com a novilíngua, desfaçatez e atitude mafiosa do governo russo. O jogo é perigoso, como ficou flagrante neste domingo. As forças de segurança ucranianas foram à carga neste drama que tem muito de uma encenação teatral. Há um fogo cruzado de palavras sobre o grau de envolvimento direto de Moscou nesta fase da crise.
O governo ucraniano diz que tudo está sendo orquestrado por Moscou, o que é negado pelos russos. Do lado do governo Putin, sempre paira a ameaça de uma intervenção na Ucrânia para “proteger” os setores pró-russos. Conversa mafiosa de oferta de proteção. O poderoso chefão de Moscou irá agir caso haja ataques contra seus “soldados” no leste ucraniano
Está aí a montagem (no sentido de farsa) do cenário semelhante ao da anexação da Crimeia no mês passado. Irrompem manifestações no leste da Ucrânia, com exigências de referendo e de independência. A situação fica tensa e a Rússia é forçada a intervir. Até 6 de abril, as coisas estavam relativamente mais calmas, com os comícios separatistas perdendo o vigor, mas aí ocorreu a revitalização do clamor separatista com estes vários focos de agitação, provocação armada e confronto.
Como na Crimeia antes da anexação e do referendo, estão em ação no leste ucraniano homens fortemente armados, de formação militar, mas sem insígnias. No entanto, não há indicações de apoio em larga escala por separação no leste (e sim por mais autonomia da parte da população pró-russa). Alerta novilíngua: é fácil manipular os sentimentos populares.
O que quer o governo de Moscou? Pela lógica, fomentar a instabilidade e ameaçar com intervenção militar têm o objetivo de forçar a “federalização” da Ucrânia, o que também é novilíngua russa. Em última instância, “federalização” significa a partilha da Ucrânia. Por este cálculo, é o menor dos males. O maior seria a guerra civil, com intervenção russa. Imagino que em Washington e nas capitais europeias, estejam feitos cálculos sobre as ofertas mafiosas de Moscou.
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