quinta-feira, 10 de abril de 2014

Caio Blinder- Cálculos ucranianos

Empresas de análises de risco como Eurasia e Teneo estimam que a probabilidade de uma invasão russa do leste da Ucrânia seja abaixo de 50%. O departamento de cálculos & análises de risco do Instituto Blinder & Blainder sai pelo tangente. Não coloca números e ainda considera improvável (como achava, é verdade, uma anexação tão rápida e indecente da Crimeia) este ataque frontal. Não soa plausível.
Vladimir Putin carece de apoio popular esmagador na região e presença militar direta, como na Crimeia (lá a maioria da população é russa e há a base da frota russa no Mar Negro). Qualquer operação militar ao longo de uma fronteira de 1.700 quilômetros será muito mais custosa do que na Crimeia. Putin prefere abocanhar nacos territoriais facilmente digeríveis, como em 2008, ao patrocinar  a independência dos enclaves da Ossétia Sul e Abkazia, depois de uma guerra de cinco dias contra a Geórgia.
No leste e no sul ucranianos, a presença russa é significativa, mas as demarcações populacionais não são claras e não existe o ardor pela secessão. Basta ver que as provocações de um punhado de agitadores pró-russos, na tomada de edifícios governamentais e exigência de um referendo sobre independência não mobilizaram até agora a população, como na Crimeia.
Oligarcas locais tampouco se alinham com Vladimir Putin e o homem mais rico da Ucrânia, o bilionário, Rinat Akhmetov, que é de Donetsk, uma das três cidades em estado de agitação, tenta acalmar todo mundo.
A opção preferencial de Putin é pela desestabilização. Uma Ucrânia pró-Europa não deve dar certo. Este é imperativo do Kremlin, embora mesmo os setores pró-Europa façam o possível para não reagir às provocações  e insistam com realismo que o país sempre terá laços íntimos com a Rússia. No que puder, Putin vai gerar instabilidade política e estrangular a economia ucraniana até as eleições gerais de 25 de maio.
Estes são os cálculos de Putin,  mas muita coisa pode fugir ao controle. Antes de tudo, ele coloca lenha na fogueira por ser o paladino das frustrações de russos na Ucrânia. O que fará Putin, popular dentro de casa por botar para quebrar, se os agitadores pró-russos no leste ucraniano forem suprimidos?
E existem os cálculos do outro lado. As autoridades ucranianas e em particular os setores nacionalistas mais exaltados não podem agora lidar com as provocações pró-russas como fatos consumados, como ocorreu na Crimeia. E de todos os lados não faltam provocadores e gente com sangue quente e punhos prontos para a briga, como ficou patente no espetáculo de pugilismo no Parlamento ucraniano na segunda-feira.
Mark Almond, um professor de Oxford, na Grã-Bretanha, observa que atores domésticos (ultranacionalistas ucranianos e ativistas pró-russos) não são meros marionetes. Com isto, a situação é mais perigosa. Até as eleições de maio, não faltarão oportunidades para provocações. Setores pró-russos não querem uma eleição bem-sucedida e ultranacionalistas ucranianos querem um cenário bem tenso para mobilizar eleitores a seu favor.
Cada um com seus cálculos.

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