segunda-feira, 21 de abril de 2014

Caio Blinder-De Moscou, para Paris ou para a Sibéria



Guriev (com o microfone), ao lado de Medvedev, nos tempos em que dava conselhos
Guriev (com o microfone), ao lado de Medvedev, nos tempos em que dava conselhos
Há um ano, Sergei Guriev, um dos mais respeitados economistas russos, renunciou ao cargo de diretor da Nova Escola de Economia, em Moscou, e fugiu para o exílio parisiense. Hoje, ele é professor do prestigiado Institut d’Études Politiques de Paris. Filosofou para um amigo que “Paris era melhor do que Krasnokamensk”, local de uma famosa prisão russa na Sibéria.
A vida teria sido tolerável para Guriev em Moscou se ele falasse apenas o que o imperador queria escutar. Conselheiro frequente de Vladimir Putin, no entanto, Guriev passou a dizer coisas desagradáveis, como a necessidade de reformas profundas no sistema econômico, baseado em exportações de petróleo e gás natural, além de benesses para os oligarcas amigos do rei. Desligaram o microfone do homem.
Por uns tempos, Guriev foi integrante do quixotesco setor liberal dentro do regime Putin, mas foi se distanciando do establishment. Ele apoiou protestos antigovernamentais em 2011/2012, quando Putin voltou à presidência após a farsa de Dmitry Medvedev na chefia, falou a favor do ex-oligarca Mikhail Khodorkovsky (libertado no final do ano passado após quase uma década na prisão, em Krasnokamensk) e endossou a cruzada anticorrupção do blogueiro Alexei Navalny, hoje em prisão domiciliar.
Nenhuma surpresa que com este espírito, primeiro independente e depois dissidente, Guriev passasse a ser submetido a interrogatórios, mandados de busca e intimidação na Rússia que faz a transição de autoritarismo para estado totalitário. Guriev se tornou um inconfidente russo. Então, é apropriado falar dele no Dia de Tiradentes. A perda para a Rússia de alguém como Guriev é priceless, mas um preço tolerável para o aparato de poder de Putin (o texto aqui dá o contexto do que aconteceu com Guriev e como a Rússia é reincidente na estupidez).
Guriev agora alerta sobre o esgotamento do modelo Putin baseado em exportações de commodities, corrupção, renacionalização e falta de transparência. Conselhos de cabeças sofisticadas e independentes como Guriev são fora de ordem no Kremlin. Para ele, a ocupação da Crimeia, as manobras de desestabilização na leste da Ucrânia e o hipernacionalismo são parte de diversionismo, que a curto prazo deve funcionar. Basta ver o salto da taxa de aprovação de Putin, hoje na faixa dos 80%. A longo prazo, porém, os lances deverão terminar em um beco sem saída ou no abismo.
Além da história pessoal de Guriev, tudo o que esta escrito acima não é uma novidade para quem acompanha a melancólica saga russo-ucraniana. No entanto, o que realmente me chamou a atenção nesta entrevista de Guriev à revista New Yorker, foi a tipologia abaixo.
Guriev diz que para os menos sofisticados, Putin recorre à lavagem cerebral. Para os mais sofisticados, mas menos honestos, são os subornos. Para as pessoas honestas e sofisticadas, é o uso da repressão. O melhor da Rússia vai acabar em Paris ou em Krasnokamensk.
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