terça-feira, 15 de abril de 2014

Cálculos ucranianos (V),por Caio Blinder

A credibilidade de Vladimir Putin é um farrapo. Eu não tenho motivos para acreditar nas suas palavras quando garante não ter planos de invadir, anexar parte da Ucrânia ou desmembrar o país. Mas, quem sabe, não haja uma meticulosa estratégia de longo prazo. A crise é volátil, oportunidades se apresentam, assim como os perigos. Dizem que o Afeganistão foi o Vietnã dos soviéticos no final dos anos 70, enquanto a Ucrânia pode ser agora o Iraque dos russos. Ocupação é um cenário penoso. Nem na sua suprema fantasia, Putin acredita que os tanques serão recebidos apenas com flores.
O custo de ocupação é muito alto. Nem dá para comparar com o que aconteceu na Crimeia, que realmente foi um passeio para os russos. Portanto, ocupar o leste da Ucrânia não é plano C, pois não irão se repetir as condições da Crimeia e está ausente o fator surpresa. Pode ser o B? Sim, desde que Putin não consiga garantir alguns interesses estratégicos básicos, como manter a Ucrânia fraca, dividida e incapaz de pender definitivamente para o lado ocidental (aliás, por si, o país consegue esta façanha). Não interessa ao Kremlin uma degringolada ucraniana ou uma guerra civil. Aliás, a quem interessa? Apenas a grupos ultranacionalistas ucranianos ou russos.
Algo mais plausível é uma intervenção militar cirúrgica para conseguir objetivos limitados, como dar um recado, testar o Ocidente ou assegurar os setores mais inquietos da minoria étnica russa no país. A possiblidade desta intervenção ganhou um senso de urgência com o anúncio das autoridades interinas ucranianas nesta terça-feira do início de operações militares contra militantes pró-russos que ocuparam edifícios públicos e delegacias policiais em cidades do leste do país. Até onde for possível, os russos irão operar em uma área cinzenta de intervenção, permitindo ao Ocidente, especialmente a relutante União Europeia, se eximir de uma resposta vigorosa.
Para Moscou melhor concretizar os objetivos com uma campanha de desestabilização, embora seja hilário os russos tentarem convencer o mundo de que não estão envolvidos diretamente na agitação e tomada de edifícios públicos em cidades do leste ucraniano, como Putin fez na segunda-feira em mais uma conversa telefônica com Barack Obama.
O essencial para Putin é influenciar o processo antes das eleições gerais de 26 de maio, tendo poder de veto sobre alguns desfechos ou condições de dissuadir politicos, como a veterana e ladina candidata Yulia Tymoshenko, a ter uma postura mais palatável aos interesses do Kremlin. A ocupação de setores urbanos no leste do país empreendida por ativistas pró-russos, que podemos chamar de informal, embora orquestrada por Moscou, aumenta o poder de barganha de Putin com qualquer governo que emergir em Kiev das eleições de maio (e esperamos que haja este governo).
A ideia de mais autonomia para o leste ucraniano (assim como para o sul) em tese é razoável diante da complexidade étnica do país e a profunda afinidade da região com a Rússia. O problema é se esta dinâmica não é conduzida pelo governo central em Kiev. Não cabe a Moscou ditar regras sobre a “federalização” do país vizinho. A situação é tão frágil e desesperadora para as autoridades de Kiev que o presidente interino Oleksandr Turchynov jogou um balão de ensaio para um referendo nacional sobre maior autonomia regional.
A ironia é que Putin fala agora em projeto de federalização na Ucrânia, mas sua gestão tem sido marcada pelo tarefa ferrenha de desmantelar a estrutura federal russa para centralizar o poder em Moscou. Desde que assumiu o comando há 14 anos, Putin canalizou a arrecadação tributária para Moscou, limitou a autoridade local ao escolher candidatos para governos  regionais e recorreu a métodos brutais para conter rebeliões separatistas no Cáucaso.
Para Putin, o que é bom para a Ucrânia não é bom para a Rússia.

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