terça-feira, 15 de abril de 2014

Em Putingrado,1984 em 2014,por Caio Blinder

A Rússia deu ao mundo Leon Tolstoy, do romance épico Guerra e Paz. Deu ao mundo também os Vladimirs (Lênin e Putin). E existe ainda Vladimir Tolstoy, tataraneto do escritor e assessor cultural do Kremlin cada vez mais orwelliano que converte o estado autoritário do pós-comunismo no estado totalitário do putinismo. A novilíngua do épico 1984 diz presente em 2014.
Na narrativa azeitada pelo rolo compressor de propaganda, desinformação e mentiras que é a televisão russa, guerra é paz. Os separatistas russos são vítimas de cerco na Ucrânia e haverá uma carnificina se os ucranianos atacarem as vítimas que apenas desejam liberdade. São estas vítimas que, armadas, mascaradas e em uma ação orquestrada, tomaram edifícios públicos no leste do país. A responsabilidade por uma banho de sangue será do governo ilegítimo de Kiev, sustentado pelo Ocidente decadente e devasso. A Rússia tem tropas na fronteira. Ataque é defesa.
Parece paródia, mas Sergei Lavrov, ministro das Relações Exteriores russo (ministro da Verdade?), emitiu um comunicado no domingo advertindo que “agora é responsabilidade do Ocidente impedir uma guerra civil na Ucrânia”. O mesmo tom foi emitido horas mais tarde por Vitaly Churkin, embaixador russo nas Nações Unidas, em pronunciamento feito na reunião de emergência do Conselho de Segurança. Churkin eximiu seu país de qualquer responsabilidade na crise, simplesmente ignorou as ações orquestradas por setores pró-russos no leste ucraniano e denunciou a “russofobia grotesca” no Parlamento em Kiev.
No relato do New York Times, no pós-comunismo russo são dias de um sinistro jingoísmo, exacerbado pela invasão e anexação da região ucraniana da Crimeia. Existem os alertas de um país atacado de fora e por dentro por fascistas e traidores. Cuidado com a quinta coluna. Mas, haverá resistência, como na Segunda Guerra Mundial: Putingrado.
Na nova política cultural do estado, este Tolstoy,  o Vladimir, está encarregado de rechaçar os conceitos de tolerância e de multiculturalismo. A ênfase é o caráter singular da civilização russa. Rússia não é Europa. Existe o triunfo do kitsch com bandeiras soviéticas sendo desfraldadas e a nostalgia sinistra da foice e o martelo, que trouxe coletivização forçada, os filhos que delatavam os pais, o Gulag e o ritual de tanques rolando pela Europa Oriental para proteger as democracias populares.
A xenofobia russa em 2014 é acompanhada de uma operação-arrastão com prisão e amordaçamento de dissidentes. Boris Nemtsov, um dos líderes da oposição, que é denunciado nominalmente como um traidor na propaganda oficial, escreveu no Facebook que a situação parece pior do que na Guerra Fria. “Na minha opinião, nem na União Soviética era assim”, disse Nemtsov. Exagero aqui, oposição também tem a sua novilíngua.
Mas, nem de longe a diatribe de Nemtsov se compara à novilíngua do governo (regime, na verdade) russo. O ataque é insidioso. O Grande Irmão precisa ficar vigilante. O novo filme do Capitão América explodiu nas bilheterias russas. Abaixo a tolerância e o multiculturalismo. Foice e martelo contra os fascistas ucranianos e a quinta coluna doméstica. Putingrado resistirá!
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