terça-feira, 15 de abril de 2014

O mais impopular é a esquerda que diz seu nome

A marca registrada da esquerda o leitor já conhece: inverter tudo. Foi o que fez Vladimir Lênin, digo, Safatle em sua coluna de hoje na Folha. Ao ler essa verdadeira peça de ficção, o leitor sai convencido de que a enorme taxa de rejeição ao socialista Hollande na França se deve à sua migração para a direita. O rabo é que balança o cachorro!
Hollande não é o mais impopular de todos porque seu governo é medíocre em resultados, pois ignorou o bom senso da austeridade, resolveu sobretaxar os ricos, nada disso; é porque ele é “transformista” ideológico, fez como um tocador de violino: pegou o poder com a esquerda e tocou com a direita. Ou assim quer Safatle que seus leitores pensem. Diz o membro do PSOL:
Suas políticas econômicas não têm nada, mas absolutamente nada a oferecer de diferente em relação às receitas vigentes de “austeridade”. A mesma ladainha a respeito da diminuição do “custo do trabalho” e dos “gastos públicos” (ou seja, precarização do trabalho, menores salários e bancos com lucros recordes).
É mesmo? Nenhuma menção ao imposto de 75% sobre os mais ricos, responsável pela fuga de capitais e gente da França, com resultados terríveis para o país? Que austeridade é essa se Hollande veio com aumento de gastos e do papel do estado?
O discurso atual, que prega mais austeridade, é justamente conseqüência do fracasso das bandeiras de esquerda. Isso já aconteceu com Mitterrand no passado. A história se repete, ou rima muito. A esquerda, com um mapa de voo totalmente equivocado, faz um monte de besteira e depois precisa fazer concessões à realidade, com reformas mais liberais. Podemos pensar no PT tendo de privatizar…
Safatle conclui, invertendo uma vez mais tudo na equação cronológica:
Qual dos dois é o nosso Vlad?
Qual dos dois é o nosso Vlad?
Prova disso é a nomeação de seu novo primeiro-ministro, o senhor Manuel Valls, alguém que como ministro do Interior era exímio patrocinador das milenares tradições da caça aos ciganos, um verdadeiro marco do Iluminismo. Seu discurso securitário, exaltador dos “valores nacionais” e brutalizado fez dele alguém muito mais popular entre os eleitores de direita do que aqueles de esquerda. Foi a ele que Hollande recorreu depois de ter levado uma das maiores surras eleitorais na eleição municipal de semanas atrás.
Com esse mimetismo ideológico e essa prova de ausência completa de ideário próprio, os eleitores franceses se perguntam por que não entrar logo com os dois pés na direita do tipo Front National (frente nacional, em francês), não por acaso o partido que mais cresce atualmente. Tudo isso demonstra que nada pior do que uma esquerda que tem medo de dizer seu nome. 
É o contrário. O socialista precisou apelar para alguém menos radical de seu partido justamente porque o povo cansou do socialismo. A extrema-direita de Le Pen cresce sem parar justamente por causa das burradas que a esquerda tem feito, com péssimos resultados. É o cachorro que balança o rabo, Safatle…
Se a esquerda radical que o próprio Safatle defende não tivesse medo de dizer seu nome (“revolução”, “socialismo”), aí mesmo é que seria mais impopular ainda! Parte do relativo sucesso eleitoral dessa esquerda tem sido exatamente esconder seu nome, suas intenções, sua ideologia totalmente anticapitalista. Mostrando a cara, teria ainda menos voto.
Como o PSOL aqui no Brasil, que já percebeu isso e vem trabalhando na maquiagem e na falsa embalagem justamente para ocultar seu nome e deixar de ser um partido nanico…
Rodrigo Constantino

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