quarta-feira, 23 de abril de 2014

ODORES DO ORIENTE, por Janer Cristaldo

ODORES DO ORIENTE 


Seguidamente alguém me pergunta: e a Índia nunca te interessou? Jamais. Gosto de viajar só – isto é, com uma companheira – e seria muito difícil orientar-me naquelas bandas fora de uma excursão. Passo. Sou ocidental ferrenho e não abro. Se tinha alguma veleidade de um dia chegar lá, um escritor francês a pôs por terra.

Nasci junto a uma geração que foi ensinada a gostar do Oriente, a partir de um dos mestres de então, Herman Hesse. Outro deles foi Aldous Huxley. Em seu último romance, A Ilha (1962), tenta uma fusão cultural do Ocidente e do Oriente na busca de uma convivência pacífica entre os homens. Vê o Oriente como um espelho do Ocidente. Ao invés da atitude predadora do consumo ocidental frente à mansidão oriental, o inverso acontece: o pensamento milenar tem como objetivo restaurar os resultados da inconseqüência gerada pelo avanço tecnológico.

Em meus dias de Paris, recebi em meu apartamento gaúchas que vinham de Poona, onde haviam ido buscar paz e sabedoria nos ahsrams de Bhagwan Shree Rajneesh, aquele guru que após ter sua biografia mais suja que pau de galinheiro, preferiu trocar seu nome para Osho. O guru, que se se dizia Deus, fez fortuna enganando jovens e provocou um escândalo internacional com suas cerimônias tântricas, em verdade alegres orgias sexuais. Possuía terrenos, hotéis, uma rede de casa de massagens na Europa - isto é, prostituição - e uma frota de 91 Rolls-Royces. Acusado de perversão, realização de lavagem cerebral e sonegação de impostos, expulso de 21 países, foi deportado dos Estados Unidos para a Índia, onde morreu de Aids.

Outras notícias tive da Índia através de um amigo dos dias de Paris, o fotógrafo colombiano Hernando Guerrero. Em uma exposição de fotos de uma viagem sua ao país, vi mendigos monstruosos que haviam sido deformados na infância para pedir esmolas nas ruas de Bombaim ou Nova Delhi, Benares ou Calcutá. Uma delas era particularmente repulsiva. A criança havia tido sua perna direita levantada na vertical com o pé escorado na parte interna do cotovelo. O conjunto formava um perfeito quadrado de ossos, junto ao qual estava colado um corpo esquelético, com uma perna e um braço pendurados do outro lado.

Ainda em Paris, conheci o escritor cubano Severo Sarduy, que me exibiu orgulhoso suas fotos tomando banho no Ganges, no qual boiavam cadáveres de animais e gentes. Confesso que lhe apertei a mão com um misto de temor e asco. Durante muitas décadas, intelectuais do Ocidente viram uma fonte de sabedoria em um país onde os párias morrem de fome nas ruas enquanto ratos são alimentados com pires de leite nos templos budistas.

Mesmo assim, sempre me restou um certo xodó pela Índia, particularmente por seus templos, onde o erotismo se mescla à espiritualidade. Sem falar que é uma civilização milenar, e sempre me agradaram as civilizações milenares. Assim sendo, comprei o livro Índia – Crenças, costumes e a sabedoria de uma das mais antigas civilizações do mundo – do escritor, ator, diretor e roteirista francês Jean-Claude Carrière. O autor, homem fascinado pela Índia, foi roteirista dos melhores filmes de Buñuel – como Belle du JourO Discreto Charme da BurguesiaO Fantasma da Liberdade – e também do épico Mahabharata, filme de cinco horas (nove horas, em outra versão) dirigido por Peter Brook. Carrière é também o co-autor de Meu último suspiro, um longo depoimento de Luis Buñuel sobre sua vida e obra. Recomendo. 

Carrière fez mais de trinta viagens à Índia e conhece o país e sua cultura com a palma de sua mão – se é que é possível conhecer algo da cultura de um país onde existem tantos deuses quanto devotos. O livro é uma viagem fascinante pelos seus templos e religiões, ritos e costumes. Também recomendo. É a melhor viagem que se pode fazer à Índia. Não tente outra. Porque, lá pelas tantas, nos conta Carrière:

- De manhã, às sete ou oito horas, vemos os homens defecarem, uns ao lado dos outros, à beira da estrada, ou ao longo da via férrea, sem nenhum constrangimento. Vemos a mesma coisa nos campos, sempre de manhã, e também em Varanasi, bem perto do Gânges. O excremento humano é visível. Ele tem um cheiro, como em todos os lugares. Antigamente, os viajantes diziam que este cheiro pairava sobre toda a Índia. Hoje, parece que ele se atenuou. Ou então eu me habituei.

Pelo jeito, o escritor se habituou. Há quatro anos, as autoridades de um distrito da região indiana de Jaipur decidiram colocar guardas "armados" com apitos e tambores para perseguir todos que urinarem ou defecarem em público. A iniciativa foi posta em prática em 34 municípios do distrito de Jhunjhunu, com uma população de cerca de 300 mil habitantes, e teve o objetivo de refrear os hábitos higiênicos de cerca da metade da população do país.

Voluntários se encarregaram de tocar música pelas cidades perto dos que fazem suas necessidades em público, os identificando, para depois anunciar em público seus nomes. O governo iniciou há anos vários programas com o objetivo de erradicar a defecação ao ar livre, mas cerca da metade dos 1,21 bilhões de habitantes do país, sobretudo em zonas rurais, continuam tendo este hábito.

"Somos a capital mundial da defecação ao ar livre. É um assunto que gera preocupação, angústia e raiva", disse na época o ministro de Desenvolvimento Rural indiano, Jairam Ramesh, que detalhou que 60% dessas ações no mundo acontecem na Índia. 

Depois deste relato de Carrière, Índia nem pensar. Mas pelo jeito a campanha de pouco ou nada adiantou. Leio no The Independent que um boneco batizado de Mr. Poo (Senhor Cocô, em inglês), que representa um monte de fezes, é o representante da mais recente campanha de saúde pública do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) lançada na Índia. 

Um vídeo, lançado no início deste ano, mostra um homem perseguido pelas ruas de uma cidade indiana por uma multidão de montinhos de fezes. Calcula-se que mais de 620 milhões de pessoas continuam defecando nas ruas -- o maior número no mundo.

Mais de três Brasis. E ainda há quem sonhe em viajar à Índia. Melhor ler Carrière.

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