terça-feira, 22 de abril de 2014

QUEM PODE CONTAR A PIADA?

Janer Cristaldo
"O riso é tão importante para nossa vida quanto a inteligência ou a criatividade. Rir nos torna mais inteligentes, criativos e saudáveis”, diz o neurocientista cognitivo Scott Weems, em entrevista para o site de Veja. Quando um neurocientista fala, já fico com um pé atrás, tantas foram os despautérios que ouvi destes senhores. Mas vamos adiante. 

Em suas pesquisas, Weems descobriu que o humor é o segredo de pessoas inteligentes e criativas para suas associações rápidas e inesperadas. No livro, reúne suas conclusões a outros estudos e traça um mapa que busca compreender o papel das risadas em nossa vida. Começa mostrando como a dopamina, o neurotransmissor ligado ao prazer e o responsável pela alegria, nos fez o que somos: seres em busca de emoção e de novas maneiras de melhorar a vida. Rindo, se possível.

Não sou neurocientista, nem mesmo cientista, mas me custa admitir que uma substância seja responsável pelo riso, da mesma forma como não concebo que homossexualismo possa ser reduzido a uma questão genética. Mas como homem que ri – ou que riu um dia – me permito um pitaco sobre o que sinto. 

A meu ver, o riso é uma questão cultural, em pelo menos dois sentidos da palavra. Primeiro, o de cultura como aquele ambiente em que nos educamos. Você já viu índio rindo? Eu nunca vi um índio de perto, mas fotos deles é o que não nos falta na imprensa. É como se índio não tivesse senso de humor. E talvez não tenha mesmo. Pois senso de humor exige certa cultura, em um segundo sentido, o acervo de conhecimentos que acumulamos.

Don Giovanni, de Mozart, ou o Quixote, fazem rir a um homem culto. Mas não provocariam reação alguma em um bugre. Ele não tem os conhecimentos necessários para entender o humor ou a piada. Que são gêneros completamente distintos. No Brasil, os piadistas baratos de televisão – e mesmo de jornais – proclamam-se humoristas. Ora, humor é coisa rara no Brasil. Podemos encontrá-lo tanto em Machado como em Nelson Rodrigues, em Campos de Carvalho ou Millôr Fernandes. E o resto é piada. O que não quer dizer que não haja piadas excelentes.

Suponho também que seja coisa de idade. Ri muito em minha juventude, e mesmo em idade madura. Hoje, há muito não rio. No máximo um sorriso diante do humor. 

Houve três filmes que cheguei a vê três ou quatro vezes, e sempre ri às pampas: O Incrível Exército de BrancaleoneA Vida de Brian e M.A.S.H. Em Brancaleone, eu já começava a rir com a musiquinha introdutória do filme: Branca, Branca, Branca, Leone, Leone, Leone. Há uns dez anos, revi o filme. Não achei graça alguma. Brian agora só me faz sorrir. Quanto a M.A.S.H, precisaria rever. Mas suponho que não me faria rir como já fez.

O mesmo aconteceu com O Grande Ditador, do Chaplin. Se desopilou meu fígado na juventude, hoje nele não acho graça alguma. Aliás, nem mesmo nas gags do Chaplin, que hoje vejo como piadas circenses. Mas ainda permaneço sensível ao humor. Cervantes e Swift, Voltaire ou Ambrose Bierce, continuam me fazendo sorrir. 

Aliás, Weems se contradiz, quando afirma que o humor é o segredo de pessoas inteligentes e criativas para suas associações rápidas e inesperadas. Até aí, de acordo. Mas logo adiante o neurocientista apela à dopamina. Será que os selvagens são desprovidos de dopamina? Ou eu a perdi com a idade? Repasso a pergunta aos leitores de minha faixa etária: você que hoje tem 60 ou mais, consegue rir com a mesma facilidade que ria quando jovem? 

Você já deve ter notado a profusão de flatulências nas comédias americanas. É um cinema feito para os jovens, que são tão bestas a ponto de rir de uma função biológica. “E as mulheres tendem a rir menos quando ficam mais velhas, ao contrário dos homens”, diz o cientista. Não é o que vejo. O velho, seja lá de que sexo for, tende mais a sorrir que rir. 

Aos 60, todas as piadas e suas variantes são nossas velhas conhecidas. Até aí, minhas discordâncias, como dizia, de homem que um dia riu, com o neurocientista. Mas o grave em sua entrevista é endossar o politicamente correto. Há mais de década venho afirmando que o politicamente correto está matando o humor. As viúvas do Kremlin – pois de censura stalinista se trata – já conseguiram em vários países, inclusive neste nosso, tipificar o humor como crime.

Como bom americano, Weems não consegue fugir ao gênero. Pergunta o repórter: 

- Em outras palavras, piadas sexistas, sobre negros ou deficientes apenas ampliam preconceitos?
- Essa questão é muito importante. Anedotas preconceituosas dão voz a nossas crenças, sejam elas latentes ou escancaradas. Uma pessoa sexista só terá seus preconceitos ampliados por essas piadas enquanto alguém que não adota essas crenças terá mais convicção contra o preconceito. O humor, porém, sempre veicula mensagens múltiplas. Tudo depende da intenção. 

- Como assim? 
- Alguém que não é machista pode contar uma piada machista com a intenção de caçoar dos homens machistas, não das mulheres. Ou um machista pode contar essa mesma piada com a simples intenção de ofender as mulheres.

- E onde está a diferença? 
- Na intenção e no alvo. Se o propósito é ofender, não há nada de engraçado nisso. Mas se o esquete é mais denso — como acontece quando o comediante negro Chris Rock satiriza o racismo — então devemos olhar essas anedotas em um nível mais profundo, porque sua intenção não é insultar e, sim, educar. 

No fundo, o que o neurocientista diz, é que negro pode fazer piada de negro, é pedagógico. Mas se branco fizer piada de branco, é ofensa. O caráter ofensivo ou pedagógico da piada não depende da piada, mas da cor da pele de quem a profere. 

Este episódio, contei há quatorze anos. Como ninguém deve lembrar mais, conto de novo. Almoçávamos em três, em um restaurante de Perdizes. Este gaúcho que vos escreve, mais dois amigos jornalistas, um judeu e outro negro. Como seria de esperar-se neste tipo de encontro, logo surgiram as piadas. Contei as que lembrava de gaúchos, de judeus e quando comecei as de negro, o afrodescendentão a meu lado protestou: 

- Vamos fazer uma coisa. Gaúcho conta piada de gaúcho, judeu de judeu e negro de negro.

Ali estava, a meu lado, o racista atroz. Contaminado pelo fanatismo dos movimentos negros americanos, ele pretendia regulamentar conversas em mesa de bar. Contar piadas de negro era politicamente incorreto, a menos que um negro as contasse. 

Ora, faz parte do humor - e particularmente do humor negro, sem trocadilhos - rir das desgraças alheias. Em boa parte das piadas, sempre há uma vítima. A vítima, de modo geral, é quem está por baixo. Antes ser rico e ter saúde, que ser pobre e doente. Difícil fazer piada com quem está por cima.

Ocorreu-me então uma piadinha que, espero, ainda não seja proibido contar. Três pessoas perambulavam perdidas no deserto, um judeu, um negro e um alemão. De repente, o alemão tropeça numa lâmpada. Pega, esfrega e dela salta um gênio, que se propõe a satisfazer três desejos, um de cada um dos três. Pergunta ao judeu o que ele quer.

- Bom, eu gostaria que você varresse da face da terra a raça negra.
- Muito bem - diz o gênio - E você? - pergunta ao negro.
- Quero que você extermine a raça infame dos judeus.
O gênio dirige-se ao alemão. O alemão pondera:
- Você vai mesmo atender os pedidos desses dois?
- Claro. Prometi, vou cumprir.
- Bom, então acho que vou pedir um cafezinho - respondeu o Fritz.

Dentro dos critérios de meu amigo negro, a quem caberia contar esta piada? Fui curto e rasteiro com ele: e tu vai pra puta que te pariu. Eu conto piada de gaúcho, de negro e de judeu e sobre quem me aprouver, e jamais vou proibir-me de contar piadas, seja sobre quem for.

Neste sentido, os gaúchos são campeões em rir de si mesmos. Vários volumes de piadas de gaúcho foram editadas em Porto Alegre, e nem sempre o personagem se sai bem nelas. Piada sem vítima não tem muita graça.

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