sexta-feira, 11 de abril de 2014

Recado aos alunos da Unicamp

Comentei aqui uma entrevista esdrúxula do professor Wilson Cano no Valor, em que ele demonstrava habitar um mundo diferente do meu, onde os males de nossa economia não seriam fruto do excesso de intervenção estatal, mas sim do “neoliberalismo” e da “retirada do estado” de cena. O título que dei foi “A Unicamp é de qual planeta?”
Isso gerou muita revolta, por conta da generalização. Confesso: forcei a barra. Claro que a declaração estapafúrdia de um professor não compromete uma universidade inteira. Mas tenho minhas justificativas, meus atenuantes. Não peguei um caso totalmente isolado para manchar a reputação de uma universidade; peguei um ícone, talvez mais caricato que a média, da mentalidade predominante no campo de economia da Unicamp.
Discordam? Então é bom lembrar que Aloizio Mercadante é mestre por lá, e defendeu sua tese de doutorado justamente no Instituto de Economia da Unicamp. É pouco? Tudo bem: Márcio Pochmann tem seu doutorado em Ciência Econômica pela Unicamp. Não basta? Maria de Conceição Tavares é professora-titular da Unicamp. Ainda querem mais? Luiz Gonzaga Belluzzo doutorou-se em Campinas e virou professor-titular dela em 1986.
Eu poderia continuar, mas o leitor já entendeu meu ponto: a Unicamp é conhecida, na área econômica, por sua linha “desenvolvimentista“, justamente esse modelo ultrapassado adotado pela presidente Dilma, cujos fracassos os seus defensores tentam, agora, jogar no colo do “neoliberalismo” (que piada!).
Portanto, fiz uma generalização sim, mas não foi nada absurda, tampouco foi com base em um caso isolado. Pelo visto, a carapuça serviu. Muitos doutrinados pelo “desenvolvimentismo” ficaram revoltados e partiram para ofensas pessoais. Entendo: é o que sabem fazer, já que lhes falta capacidade para argumentar e debater. Que caso de sucesso um desenvolvimentista tem para mostrar, afinal?
Nem todos ficaram revoltados. Alguns alunos reconheceram meu ponto e até o reforçaram, confirmando que sua universidade é tomada pelos “vermelhos”. Um deles escreveu:
Como ex-aluno da Unicamp, é com muito pesar que escrevo para te informar que “a Unicamp é vermelha”. Fui diretor do Centro Acadêmico Bernardo Sayão, o CABS, da Faculdade de Engenharia Elétrica e aquela frase é praticamente um mantra para todos os alunos que queiram se engajar nas atividades extra-curriculares. O DCE da Unicamp é completamente aparelhado pelo PSOL e pelo PT (eles andam de mãozinha dada lá) e nenhuma chapa de oposição ganha eleições por ali. Os Centros Acadêmicos se submetem à vontade política do DCE e só se envolvem em movimentações patrocinadas pela ideologia socialista, como greves e invasões de reitoria à revelia da vontade da maioria dos alunos, que é de estudar.
Outros, sem ter como contestar meu ponto, tentaram ao menos alegar que há pluralidade. Como exemplo, citaram a presença de José Serra na Unicamp! Isso mesmo, Serra, o mais esquerdista dos tucanos, o mais “desenvolvimentista” do PSDB. Será que pensam que Serra é um “neoliberal” também? Por Deus! Que país é esse?
Outras reações demonstram a pobreza intelectual do país e, principalmente, da própria Unicamp. Alguns, vítimas do que os psicanalistas chamam de “projeção”, afirmaram que critiquei a universidade porque sou frustrado, por ter tentado entrar em universidade pública sem sucesso. Quem tem apenas martelo acha que tudo é prego. Essa gente, que vive só para concursos públicos, acha que todos querem a mesma coisa na vida.
Não, meus caros doutrinados da Unicamp. Eu jamais fiz vestibular para universidade pública e nunca, em minha vida, prestei um só concurso para o estado. Fiz vestibular apenas para a PUC, seguro de que entraria, e desejava trabalhar no ambiente super-competitivo do mercado financeiro desde sempre. A PUC, caso não saibam, é aquela responsável em boa parte pelo Plano Real, que os “desenvolvimentistas” da Unicamp condenavam. Maria de Conceição Tavares, por outro lado, chorou de emoção na TV ao falar do Plano Cruzado…
Por fim, o maior retrato da falência intelectual da nossa Academia: o foco no currículo Lattes, nada mais. A cultura do diploma, que ataquei em meu ensaio sobre a educação. Um crítico veio, cheio de marra como se tivesse acabado de vez comigo, dizer que o currículo Lattes de Wilson Cano é muito extenso, e que procurou o meu, mas não encontrou nada. Uau! Santa humilhação, Batman!
Certa vez debati com um “desenvolvimentista” aqui do Rio, de uma universidade pública também, sobre cenário econômico. O homem era só elogios ao governo Dilma, e eu só críticas. Minha palestra pode ser vista aqui. Esse mesmo economista, que aplaudia a gestão de Dilma quando os problemas ainda não tinham aparecido, depois usou o mesmo Valor para acusar o “neoliberalismo” pelo fracasso do governo. É como agem.
Para piorar, soube que ele se recusou a participar de outro debate comigo depois, alegando que eu não tinha doutorado! Ou seja, pro inferno com os argumentos, pois o que vale é o maldito currículo! Nenhum “desenvolvimentista” da Unicamp, porém, por mais extenso que seja seu currículo Lattes, tem um vídeo desses para mostrar:
Link: 

Essa minha palestra foi proferida em 2010, no auge da euforia com o Brasil. Mas eu apontava para os pilares de areia, e alertava que em 3 ou 5 anos o país poderia cair em uma estagflação. A palestra foi vista mais de 240 mil vezes, mas arriscaria dizer que nenhuma delas foi pelos “desenvolvimentistas” que preferem ignorar os fatos para preservar a ideologia. Concluindo, sei que até na Unicamp deve haver um ou outro professor bom de economia. Mas minha generalização não foi absurda. Trata-se de uma escola, em linhas gerais, muito equivocada e ultrapassada. Aos alunos de economia que lá estudam, fica meu recado: leiam bons livros fora das aulas, do currículo oficial, e aprendam a contestar as falácias de seus professores (doutrinadores) com sólidos argumentos e fatos. Caso contrário, não restará muita opção no mercado de trabalho, e vocês terão de se contentar com algum cargo no governo, se o Brasil for atrasado o suficiente a ponto de manter no poder essa turma que vem destruindo nossa economia. 
 Rodrigo Constantino

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