sábado, 19 de abril de 2014

‘Vou atuar’, por Roberto Pompeu de Toledo

Publicado na edição impressa de VEJA
ROBERTO POMPEU DE TOLEDO
Quando o amigo doleiro Alberto Youssef desabafou, exasperado e súplice, “Tô no limite. Preciso captar”, segundo diálogos registrados pela Polícia Federal e revelados pela última VEJA, o deputado André Vargas respondeu, resoluto: “Vou atuar”. André Vargas, do PT do Paraná, até a semana passada vice-presidente da Câmara dos Deputados, já se celebrizara pelo gesto de levantar o braço, como provocação ao presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, sentado a seu lado. Ao gesto agora acrescentava uma divisa, na forma de uma sentença tão curta quanto prenhe de pesporrência (bela palavra; o colunista agradece ao deputado a oportunidade de usá-la): “Vou atuar”.
André Vargas é exemplo acabado da mutação genética do espécime chamado “petista”. Ele nasceu em Assaí, perto de Londrina, no Paraná, um mês antes do golpe de 1964. Tem 50 anos, portanto, e entrou no PT aos 26, em 1990. Gloriosos tempos esses. O PT era a estrela que apontava para uma sociedade mais justa e costumes renovados na política brasileira. Quando se tornou poderoso, o PT passou a qualificar de “udenistas” os adversários que o atacam com a arma da moral e dos bons costumes. Naquele tempo a UDN ressurreta era o PT. Seu empenho foi decisivo para a derrubada do presidente Collor, em 1992. Nada mais atraente para um jovem idealista do que um partido como esse. (Suponhamos que André Vargas tenha sido um idealista; é o que de melhor podemos fazer por ele.) Sua ascensão foi rápida. Em 1991, já era membro do diretório municipal de Londrina. Em 1997, deixou-o para instalar-se em Brasília, como chefe de gabinete do deputado Nedson Micheleti.
Quando se dá a mutação de um jovem idealista para um “Vou atuar”? Os fenômenos da evolução são infelizmente infensos a respostas com o grau desejável de precisão. No caso, Brasília talvez tenha contado. Com certeza poder e dinheiro contam. Em 1998, Vargas trabalhou na campanha dos candidatos Paulo Bernardo, do PT, a deputado federal, e Antônio Carlos Belinati, do PSB, a esta­dual. Era uma estranha dobradinha. O parceiro de Paulo Bernardo, o atual ministro das Comunicações, era filho de Antônio Belinati, três vezes prefeito de Londrina, o qual em tantas se meteu que teve o mandato cassado, em 2000, e chegou a ser preso. Na campanha envolveu-se o agora famoso Youssef, e foi nessa ocasião, segundo o jornal O Globo, que Vargas o conheceu. A campanha resultou em escândalo; para alimentar a do filho, segundo investigações, papai Belinati desviou dinheiro da prefeitura.
O dinheiro começava a passar por perto do nosso suposto jovem idealista. Não por acaso, era uma época em que o PT começava a acumular poder. Em 2000 ganhou a prefeitura de São Paulo, com Marta Suplicy, e a de Londrina, com Nedson Micheleti, o deputado do qual Vargas fora chefe de gabinete. No ABC paulista, o mais antigo feudo petista, Celso Daniel foi eleito pela terceira vez. O caldo de cultura que transforma o idealismo em “Vou atuar” estava formado. Celso Daniel foi morto dois anos depois. Nedson Micheleti, ao fim de dois mandatos de prefeito, seria condenado por improbidade administrativa. André Vargas, enquanto isso, empreendia a irresistível ascensão que o levou de vereador em Londrina a deputado estadual e, em 2006, a federal. Distinguiu-se, nessa qualidade, pelas posições ultrapetistas de defesa dos mensaleiros e do controle da imprensa. Essa era sua face pública. Nos bastidores, atuava. As entranhas de seu mundo começaram a vir a público no fatídico dia em que Youssef lhe forneceu um jatinho para viajar com a família para João Pessoa.
Que quer dizer “vou atuar”? O diálogo em questão sugere que seja em favor de gestão junto ao Ministério da Saúde para a conclusão de falcatrua envolvendo um laboratório de propriedade do doleiro. É razoável supor que essa seja uma de muitas atuações. E André Vargas não está sozinho. O caso Petrobras, como último e culminante de uma série, revela quantos outros atuam. O espécime petista, tal qual conformado pela mutação sofrida, em simbiose com uma base aliada que no geral nem precisou mudar ─ já nasceu assim ─, fez do Estado brasileiro um mar nunca dantes visto de atuações. Pobre Dilma. Seu governo está bichado. A corrupção generalizou-se a ponto de ser parte sem a qual o sistema não sobrevive. E ainda tem a economia. E ainda tem a incompetência. Seu governo faliu.

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