quinta-feira, 22 de maio de 2014

Caio Binder- Enquanto isso na Tailândia…(II)

Foi a crônica de um golpe anunciado. Na terça-feira, os militares tailandeses impuseram a lei marcial e também um diálogo na base da ponta do fuzil entre facções políticas rivais que há um bom tempo ameaçavam levar o país para a guerra civil. Dois dias de reuniões não resolveram a parada política (alguma surpresa?) e os militares, como são militares, então marcharam nesta quinta-feira para assumir o pleno poder, com as habituais promessas de restaurar a ordem e implementar reformas.
O material didático publicado inicialmente no dia da decretação da lei marcial não tem sua validade expirada. Portanto, dei apenas uma atualizada com este parágrafo. Sobre o último parágrafo do texto original, vale o contraponto que esta intervenção militar pode ser um tiro pela culatra, embora eu insista com resignação que a coreografia dos generais talvez seja necessária para desatar os nós políticos da Tailândia.
***
A gente conhece o jargão: militares decretam lei marcial, dizem que não se trata de um golpe e que as coisas serão normalizadas assim que for possível. No entanto, no caso da Tailândia nem dá para ser muito cínico com a situação. De fato, a única instituição que consegue ser árbitro do poder são as Forças Armadas diante do ambiente político tóxico e polarizado. O Instituto Blinder & Blainder não é chegado em quarteladas, mas admite sua resignação com o que está acontecendo no país do sudeste asiático. A lei marcial parece ser a única alternativa viável. Resta saber se a jogada militar irá forçar os atores políticos a negociarem.
O objetivo desta coluneta é ser telegraficamente didática sobre um país tão distante. Trata-se do mais direto envolvimento militar na crise crônica na Tailândia desde 2006 quando um golpe (aqui podemos usar o termo sem pudor) removeu do poder o bilionário populista Thaksin Shinawatra. Em maio, foi a vez da irmã do bilionário e fantoche político, Yingluck Shinawatra, ser destituída pela Justi ça da chefia do governo, acusada de abuso de poder.
A Tailândia não segue o paradigma atual de protestos globais: o maior ativismo no país tem lugar para que haja menos democracia. No esquema polarizado, temos o movimento dos camisas amarelas (velhas elites, classe média urbana, funcionários públicos e setores monarquistas) que se insurgiu de uma década para cá contra os irmãos Shinawatra, apoiados pelo movimento dos camisas vermelhas, gente mais rural que recentemente se mobilizou para votar de forma acelerada. Em 30 anos, o comparecimento às urnas saltou de 45% para 78%. Logo, os camisas amarelas não gostam de democracia eleitoral e acusam a dupla Shinawatra de recorrer a todos os truques populistas para faturar votos, desde sua mera compra a subsídios para os mais pobres..
No entanto, a instabilidade política não é recente. Falta solidez democrática na Tailândia desde que foi justamente instalada a monarquia constitucional em 1932. Desde então, a média é de um golpe a cada dez anos. Nao é à toa que o período desde 1932 é conhecido como “estação de golpe”. Sendo mais preciso, entre golpes consumados e tentativas, foram 18 em 82 anos.
A economia tailandesa é mais sólida do que a sua política. O país se recuperou da crise cambial asiática de 1997, do tsunami de 2004 e das enchentes de 2011. A intervenção militar de agora talvez impeça a Tailândia de afundar na guerra civil.

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