quarta-feira, 7 de maio de 2014

Caio Blinder- A África do Sul no pós pós-apartheid

Há exatamente 20 anos, em maio de 1994, a Africa do Sul teve um momento sublime de dignidade com a primeira eleição livre na história do país que fora submetido ao apartheid. A votação na “nação arco-íris”, que decepcionou os catastrofistas que previam um banho de sangue, resultou no triunfo do Congresso Nacional Africano (CNA) de Nelson Mandela.
Nesta quarta-feira, os sul-africanos estão votando pela quinta vez desde o fim do apartheid. Nada sublime, são tempos menos dignos. Não existem dúvidas que o CNA irá manter sua hegemonia política. O suspense é se o partido do presidente Jacob Zuma (que busca um segundo mandato de cinco anos) ficará abaixo da marca simbólica dos 60% dos votos, o que seria caracterizado como uma espécie de derrota.
O CNA fez a jornada familiar de movimento de libertação nacional para máquina política no poder, lubrificada por clientelismo e corrupção. O legado Mandela e programas ao estilo bolsa-família preservam a força eleitoral do CNA, neutralizando uma pilha de problemas. Há indignação com a persistência ou agravamento de desigualdades sociais nas duas décadas pós-apartheid. Existem protestos quase diários contra a qualidade dos serviços públcos, mas a fúria é direcionada contra autoridades locais. Greves são constantes, a economia empacou e o desemprego, incluindo aqueles que desistiram de buscar trabalho, superou a marca de 35%. E existe cinismo com escândalos flagrantes, como o uso de dinheiro público por Zuma para reformar sua residência privada ao custo de US$ 23 milhões.
No entanto, o CNA é uma espécie de ditadura da falta de alternativas. Existe uma irresponsável oposição à esquerda liderada pelo ex-líder da ala jovem do CNA, Julius Malema, que prega a nacionalização das fazendas e minas dos brancos, além do pagamento da previdência social em dobro. Mas, o seu partido, o Economic Freedom Fighters, tem apenas 4% dos votos nas pesquisas. Com um capital eleitoral e administrativo mais maduro e crescente está a Aliança Democrática, o grande foco de oposição ao CNA nas últimas duas décadas, mas ainda vista como um bastião de brancos liberais, apesar dos esforços de inclusão multirracial.
A longa luta contra o apartheid garantiu direitos básicos a todos os sul-africanos. Ironicamente, a chamada geração “born free”, muito jovem para lembrar a ignomínia do apartheid, não exerce os seus direitos eleitorais. Pelas pesquisas, apenas 23% dos jovens com 18 e 19 anos pretendem votar nesta quarta-feira e 55% daqueles com idade entre 20 e 29 anos estão registrados para votar. Outra ironia nas pesquisas: 68% dos jovens são contra a reeleição de Zuma. Esta geração prefere formas diretas de protestos, o que pode gerar instabilidade em um país que desde o fim do apartheid se mostrou mais sólido do que muitos imaginavam.
E quais são os cenários adiante? Frans Cronje, do Instituto de Relações Raciais da Africa do Sul (SAIRR, na sigla em inglês), traça quatro possíveis caminhos para os próximos dez anos:
1) No caminho mais otimista, o CNA mantém uma sociedade aberta, respeita a democracia, combate com vigor a corrupção e realiza as necessárias reformas para a economia voltar a ganhar pique.
2) As reformas são realizadas, mas ao estilo autoritário. A sociedade aceita este preço.
3) Com o fim da complacência nacional, o CNA perde as eleições de 2024 para a Aliança Democrática, que, no entanto, irá sofrer com a herança maldita e suar muito para revitalizar o país.
4) O CNA continua causando danos e se torna repressivo, repetindo a fórmula atroz do vizinho Zimbábue.
Os fatos indiscutíveis são que Nelson Mandela merece descansar em paz, arco-íris é uma imagem fugaz no horizonte e o CNA de Jacob Zuma vencerá as eleições desta quarta-feira.

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