quarta-feira, 14 de maio de 2014

CAIO BLINDER- A Alemanha precisa crescer

Há dois anos, Radek Sikorski, o ministro das Relações Exterior da Polônia, fez uma observação muito arguta. Ele disse que temia mais a inatividade alemã do que o seu poder. Hoje a própria Alemanha parece temer sua inatividade e se mostra muito ativa na crise ucraniana. Na expressão clássica que define (ou definia) a Alemanha moderna, não dá mais para ser uma superpotência econômica e uma anã política.
Os fantasmas da Segunda Guerra Mundial não devem desaparecer, mas a Alemanha acertou de forma decente suas contas com o passado e precisa enfrentar os demônios do presente e os desafios do futuro. Uma boa reportagem do jornal espanhol El Pais ressalta que a Alemanhaassume um papel de liderança sem complexos. E eu arremato que ela faz isto por necessidade e ainda não chegou lá.
A Alemanha não pode ver as coisas degringolarem na Europa. E seu ativismo mescla uma ofensiva diplomática através de um diálogo entre os atores ucranianos com ameaças de sanções mais vigorosas contra a Rússia se Vladimir Putin passar da conta na sua intromissão na crise ucraniana (já não passou?).
A primeira-ministra democrata-cristã Angela Merkel insiste que não existe solução militar para o conflito. Por este motivo, seu governo investe grandes esforços diplomáticos, mas brandindo o porrete das sanções, que até agora não assustou os russos. Merkel age em consonância com seus aliados europeus e também com os americanos, mas mantendo uma certa distância de Barack Obama, que cobra atitudes mais vigorosas.
Nesta ofensiva, o lugar-tenente de Merkel é o ministro das Relações Exteriores, o social-democrata Franz-Walter Steinmeier (os democrata-cristãos e os social-democratas integram a chamada grande coalizão de governo). Steinmeier esteve na terça-feira na Ucrânia para uma maratona diplomática para aproximar o governo central e líderes regionais (mas não os bandoleiros separatistas) com vistas a um “diálogo nacional”. E ecoou o alerta de Angela Merkel de que a chave para a estabilização ucraniana é a plena realização das eleições gerais de 25 de maio. E os russos vão encarar sanções mais severas caso desestabilizem a votação. De novo, o objetivo essencial de Vladimir Putin é neutralizar uma Ucrânia forte e alinhada com o Ocidente.
Existem obstáculos imensos dentro de casa para o ativismo de Merkel e Steinmeier, a destacar a propensão da opinião pública para o país não se engajar na crise ucraniana (na ilusão de que os alemães possam preservar o seu conforto dentro de uma bolha) e o lobby empresarial empenhado em impedir sanções contra a Rússia que prejudiquem seus negócios. Parte ativa deste lobby é o venal ex-primeiro-ministro social-democrata Gerhard Schroeder (de quem Steinmeier já foi muito próximo), a serviço e amigão de Vladimir Putin, com uma desenvoltura na Europa que apenas se compara a de Silvio Berlusconi.
Obstáculos imensos dentro de casa e uma corrida contra o tempo (e Putin) na Ucrânia para impedir uma guerra civil. Angela Merkel irá crescer se superar estes obstáculos e impedir o pior na mais grave crise na Europa desde o final da Guerra Fria.

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