segunda-feira, 5 de maio de 2014

Caio Blinder- No caos ucraniano, o crime organizado

A Rússia empreende uma guerra assimétrica para desestabilizar a Ucrânia e gerar o caos de um estado disfuncional. Eu ainda não acredito que interesse a Vladimir Putin ordenar uma invasão convencional do país vizinho (e se isto acontecer precisará ser antes das eleições gerais de 25 de maio e depois da farsa de referendos nas “repúblicas populares” de Donetsk e Luhansk no leste) na próxima sexta-feira.
Por ora, é melhor esta guerra assimétrica com o uso de forças especiais (Spetsnaz), agentes de inteligência, uma descarada campanha de propaganda veiculada pela mídia russa (manifestantes pacíficos pró-russos x fascistas ucranianos), manipulação das ansiedades da população local e o mero uso do crime organizado.
Este material da publicação Foreign Policy ilustra com detalhes como Putin é, de fato, o poderoso chefão em ação na Ucrânia. Ele recorre a gangsters locais (pequenos e grandes), que na guerra assimétrica proporcionam desde aliados políticos a capangas para as brigas de rua. Este cenário é fruto da endêmica criminalização do estado ucraniano sob líderes sucessivos (pró-russos ou não).
Como a Rússia, com o fim da URSS, a Ucrânia vivenciou um boom do crime organizado nos anos 90 (na URSS, o estado era o crime institucionalizado), quando uma nova dinâmica política e econômica foi criada em tempos de um devastador e fraco controle estatal. Gangsterismo nas ruas foi acompanhado pela ascensão de uma nova elite que misturava negócios criminosos, econômicos e políticos. Daí surgiram oligarcas bilionários com poder político. Na Rússia, sob Putin após o caos da era Yeltsin, o estado reafirmou o seu primado. Basicamente, Putin se tornou o poderoso chefão. Ele se desfez de oligarcas inconvenientes e passou a proteger outros. O crime ficou mais organizado.
Na guerra assimétrica, o Kremlin tem condições de conectar gangues ucranianas (intimamente vinculadas a oligarcas e autoridades corruptas) às redes do crime organizado russo. Um exemplo é o uso político agora das conexões da mais poderosa “família” do crime organizado russo, Solntsevo, com o “clã Donetsk”, uma rede que atua tanto no crime como na política na cidade do leste ucraniano e um dos focos do clamor separatista (inclusive com a proclamação de uma “república popular” que irá organizar um referendo sobre independência no próximo dia 11).
Donetsk é a base do deposto presidente pró-russo Viktor Yanukovich (e seu filho é bem ativo no gangsterismo que mistura política com o crime comum). É esta gente fina que aderiu com entusiasmo à causa separatista, enquanto outras redes criminosas estão engajadas na preservação de uma Ucrânia unificada ou agindo com duplicidade. O crime compensa na Ucrânia, especialmente quando organizado por Vladimir Putin.

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