segunda-feira, 5 de maio de 2014

Caio Blinder- No caos ucraniano, o crime organizado (III)

Os russos perfazem menos de 20% da população ucraniana, concentrados no leste e sul do país. Seria, portanto, desonesto escrever algumas colunas sobre crime organizado na Ucrânia, concentradas na frente pró-russa, sem enfatizar o óbvio: a corrupção, a venalidade e o oportunismo são marcas endêmicas que ironicamente unem o país ameaçado de desmembramento por instigação do nosso homem em Moscou. A Ucrânia teve uma revolução que culminou na deposição do venal presidente pró-russo Viktor Yanukovich em fevereiro. No entanto, o Parlamento ainda é o mesmo, conhecido por suas negociatas, fisiologismo e pugilato. E a lista dos candidatos às eleições presidenciais do próximo dia 25 (isto se a encrenca em curso permitir que sejam realizadas) é nebulosa.
Dos 23 candidatos, apenas dois estão com dois dígitos nas pesquisas e o favorito de longe é um dos oligarcas bilionários do país, Petro Poroshenko, seguido pela ex-primeira-ministra Yulia Tymoshenko. Como os demais candidatos, ambos têm laços profundos com a corrupção endêmica no país. Poroshenko tem negócios que vão de estaleiros à indústria de chocolate (é, por este motivo, foi alcunhado de “rei do chocolate”). Ele já teve cargos ministeriais e, usando um eufemismo, é conhecido por seu pragmatismo. Nem sempre se norteou pelas convicções pró-ocidentais do momento.
Yulia Tymoshenko foi musa da Revolução Laranja em 2004 e desiludiu a moçada idealista. Não é à toa que sua reaparição, após ser libertada da prisão, não cativou os ativistas desta nova revolução. Ela tem um histórico muito controvertido por envolvimento em contratos de energia. É, por este motivo, conhecida como a “princesa do gás”.
E o gás eleitoral destes dois candidatos dá uma boa medida de como pouca coisa mudou na política institucional ucraniana: o “rei do chocolate” x “a princesa do gás” (tudo é mais doce ou menos inflamável do que o czar russo). Tymoshenko já circulou pelo espectro. Dizem que Vladimir Putin a respeita, embora hoje ela seja destemida na postura contrária a Moscou. Na frase maldosa da musa da coluna, a jornalista Julia Yoffe, uma coisa é ser conhecida como uma “mulher de culhões” e a outra como o “Putin de tranças”.
Além de terem nomes que rimam, Poroshenko e Tymoshenko em comum não oferecem uma nova visão. Sem dúvida que a resistência contra os russos dá um sabor glorioso e devemos saudar as pesquisas mostrando que 85% dos ucranianos pretendem votar em 25 de maio, mas a jogatina política desta elite ucraniana nos alerta para o seu caráter inglório. Basta ver que o “rei do chocolate” quer adocicar a “princesa do gás” com o cargo de primeiro-ministro caso ela desista de concorrer.
O chocolate político ucraniano é muito amargo. No entanto, é melhor engolir Poroshenko na falta de opções melhores. Ele é o que a Ucrânia tem de mais tolerável no momento, especialmente por seu empenho para forjar laços mais fortes com a Europa, sem cortar o cordão umbilical que une o país à Rússia.
A vitória será do “rei do chocolate” se o czar russo não derreter as coisas até 25 de maio.

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