segunda-feira, 19 de maio de 2014

Caio Blinder- O Japão é OK

A Índia em uma encruzilhada histórica com a espetacular vitória do Partido Bharatiya Janata, de Narendra Modi; a China economia número 1 do mundo já em 2014 e o Japão estagnado. Estagnado? Poucos jornalistas ocidentais estão tão bem equipados como David Pilling para tratar de temas destas magnitude e questionar a estagnação japonesa. Pilling já foi correspondente do jornal Financial Times em Tóquio e Pequim. Hoje é seu editor de Ásia e escreve uma coluna sobre o continente que para mim é leitura obrigatória. Aliás, suas colunas antecipando o triunfo de Narendra Modi alertavam a respeito das expectativas sobre um líder do nacionalismo hindu que promete dinamizar a economia, mas tem um controvertido passado sectário.
Pilling acaba de publicar um livro sobre o Japão, justamente para mostrar a perseverança do país dado como estagnado. O nome é Bending Adversity ( Dobrando Adversidade). Gosto do subtítuloJapão e a Arte da Sobrevivência. Pilling já estava no seu posto em Pequim em 2011 quando o Japão foi vítima do terremoto, tsunami e desastre no reator nuclear de Fukushima. Ele retornou ao Japão para cobrir o desastre e nas reportagens relatou a disciplina e a tenacidade do país diante de mais uma adversidade. O livro é fruto de sua ambição para “criar o retrato de uma nação teimosamente resistente com uma história de superação de sucessivas ondas de adversidade”.
Aqui não vou me deter no passado mais distante da história do Japão para abraçar e hostilizar influências estrangeiras. Quero apenas destacar a objeção que Pilling faz à visão comum de estagnação japonesa nas últimas duas décadas. Afinal, o país é rico, confortável e continua sendo uma superpotência tecnológica, embora já tenha sido superado pela China em medidas quantitativas de economia. Um amigo japonês do jornalista do Financial Times observa que “todos falam sobre o declínio do Japão, mas aqui não há buracos nas ruas, há carros de boa qualidade, não há violência e o ar é limpo. O Japão é OK”.
Pilling observa o inquietante ressurgimento do nacionalismo japonês sob o primeiro-ministro Shinzo Abe (nem tudo é OK ou já foi OK com o país), mas lembra que uma fonte a longo prazo de tensão com a China é a bombástica propaganda da ditadura chinesa para desviar a atenção dos problemas internos.
Há uma sacada muito boa de Pilling (que se estende à superpotência distante, mas muito presente, na região da Ásia/Pacífico, os EUA). Ele diz que EUA, China e Japão têm economias mais  robustas e modernas do que seus sistemas políticos. No caso americano, eu esclareço que se trata da disfunção em Washington. No caso japonês, é a ausência de um epicentro político que assuma responsabilidades pelas decisões. O sistema tem o seu curso e quando acontecem falhas ou fracassos existe uma anódina culpa coletiva.
A conclusão de Pilling é uma boa provocação quando tanto se fala sobre o triunfo chinês, algo no estilo de que o século 21 será da China. Ele arremata que, “apesar de duas décadas perdidas e tantos problemas, as notícias sobre o fim do Japão são exageradas”. Esta aí um país que não se dobra à adversidade.

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