sexta-feira, 2 de maio de 2014

Caio Blinder- O que há de novo na frente ucraniana?

O interino, precário e ineficaz governo ucraniano já reconheceu o óbvio: perdeu o controle de regiões no leste do país para  movimento separatista pró-russo que não atua de forma separada de Moscou, embora o governo Putin não reconheça esta obviedade. Com a ampliação deste descontrole nas províncias de Donetsk e Luhansk fica cada vez mais clara a estratégia do presidente russo de subverter o que cada vez menos pode ser chamado de vida normal no país, assegurar que os militantes pró-russos realizem a farsa de um referendo separatista em 11 de maio e impedir que a Ucrânia tenha a sua eleição presidencial duas semanas mais tarde.
A ordem de Putin é para que seja criado o caos. Com cara de pau, ele exigiu, em conversa com a primeira-ministra alemã Angela Merkel, na quinta-feira, que os ucranianos retirem suas tropas do leste ucraniano para resolver a crise, sem mencionar a atuação e a ocupação de edifícios públicos por bandoleiros pró-russos. Putin alerta para que não seja usada violência contra estes bandoleiros, pois haverá uma intervenção neste caso. Ameaça de bandoleiro.
O dilema do governo ucraniano é patético: não tem condições de conter os bandoleiros, assim permitindo que ocupem cada vez mais espaço físico e político, e, caso se atreva a tomar uma atitude, tomará bordoada de Moscou. Os confrontos mais sérios iniciados nesta sexta-feira entre forças governamentais e militantes separatistas em Sloviansk podem engatilhar uma guerra civil e ser o sinal para uma incursão russa em larga escala. Com cara de pau, o governo russo advertiu que assim não vale: o governo ucraniano não pode agir contra arruaceiros armados orquestrados por Moscou que ocupam edifícios públicos, capturam até observadores militares e jornalistas estrangeiros, além de espancar ucranianos.
O Kremlin ainda não assumiu publicamente o desejo de anexar o leste ucraniano, mas, como na Crimeia há dois meses, o referendo dá uma fachada de legitimidade para uma intervenção política ou militar em nome dos russos étnicos. Pesquisas na região indicam que não mais de 20% da população apoiam a separação e posterior reunificação com a Rússia, mas números absolutos são irrelevantes. O que conta na farsa é quem vai aparecer para votar, o que para Moscou será uma expressão da vontade popular nas “república populares” de Donetsk e Luhansk
E o que fará Putin em seguida? O plano maior é  impedir que a Ucrânia assuma uma identidade ocidental ao se tornar integrante da União Europeia e da Otan. Tropas russas talvez sejam necessárias para proteger os habitantes destas “repúblicas populares” de forma indefinida. Pequenas parcelas de países como Geórgia e Moldávia estão ocupadas pelos russos, mas Moscou não define o status destes enclaves como parte do seu território.
O Ocidente esbravejou, mas aceitou tacitamente a anexação da Crimeia, mas fixou uma linha vermelha para o resto do país. Resta saber se esta linha é flexível ou se haverá algo de novo na frente ucraniana.
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