terça-feira, 20 de maio de 2014

Caio Blinder- Os oligarcas ucranianos contra-atacam

Influentes e com agendas nebulosas, oligarcas econômicos (alguns bilionários) se mostram atores indispensáveis no cenário ucraniano. Aliás, eles ajudaram a montar este sórdido cenário na Ucrânia pós-independência, em um padrão semelhante ao russo. Chegamos a um ponto tão melancólico que alguns dos oligarcas são a alternativa mais tolerável ao caos, gangsterismo e inoperância do país, tudo isto instigado pela Rússia de Vladimir Putin, que não pode permitir que funcione uma Ucrânia alinhada com o Ocidente; Putin, que preside um país em que oligarcas locais se mostram um pouco inquietos com uma aventura ucraniana que foi longe demais. E vamos admitir que mesmo sem a campanha de desestabilização de Putin, a Ucrânia ainda estaria muito longe de ser um país funcional.
No entanto, vamos falar de algumas coisas que funcionam. As indicações são de que a resistência de alguns poderosos oligarcas, mas com realismo para aceitarem a necessidade de convivência (e negócios) com o vizinho que sempre estará lá, levou Putin a moderar sua posição na crise nas últimas semanas. Na segunda-feira, o presidente russo anunciou mais uma vez a retirada de tropas da fronteira. A questão não é confiar na palavra de Putin (nyet!), mas admitir que o anúncio é consistente com uma linha mais suave do Kremlin dias antes das eleições presidenciais ucranianas de domingo. A agitprop russa é menos estridente agora para denunciar a ilegitimidade destas eleições, convocadas por uma junta fascista.
Seria um sinal de que Moscou vai transacionar com o legítimo oligarca Petro Poroshenko, que tem chances inclusive de vencer no primeiro turno. Poroshenko, um bilionário conhecido com “rei do chocolate” por seus negócios no setor, tem 48 anos, mas é um veterano das batalhas na arena política que tanto contribuíram para desacreditar a elite ucraniana. Ele foi inclusive ministro de diversos governos desde a independência em 1991. Seu chocolate é enlameado.
Poroshenko não tem uma ideologia clara (naquelas bandas ninguém vira oligarca bilionário por firmeza nas ideias), mas ele assumiu um posicionamento a favor do Ocidente, da unidade ucraniana e contra os bandoleiros separatistas que atuam no leste ucraniano, embora sem a retórica explosiva contra a Rússia de outros setores da sociedade ucraniana. Poroshenko também mantém distância do governo interino em Kiev, o que ajuda a dar a impressão de ser um “outsider”, embora seja figura familiar no mar de lama. São bons cálculos eleitorais.
Putin tamb ém parece ter refeito os cálculos diante dos limites para ir adiante com a pantomina das “repúblicas populares” pró-Rússia no leste ucraniano com o chega pra lá de Rinat Akhmetov, o homem mais rico do pais, que mobilizou suas brigadas de trabalhadores contra os bandoleiros separatistas, muitos dos quais são desempregados, aposentados ou trabalham a serviço do submundo e da inteligência russa. Oligarcas nomeados governadores pelo governo interino de Kiev, em escalas diferentes, também estão segurando as pontas no leste ucraniano.
Para os oligarcas (e a imensa maioria dos ucranianos), não interessa um país que descambe para o mero banditismo separatista ou que seja manipulado de forma brutal por Moscou. Eles, ao que tudo indica, estão tentando salvar a Ucrânia, que não vai se safar do seu mar de lama, porém agora tem uma chance de não afundar ou ser desmembrada por nosso homem em Moscou. A Ucrânia terá uma vitória com gente duvidosa na eleição e Putin não estará entre os vencedores.
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