segunda-feira, 26 de maio de 2014

Caio Blinder- Rabiscos eleitorais (Ucrânia)

A eleição ucraniana deu em chocolate. Com tudo tão melado no país que vive uma situação de guerra civil de baixa intensidade devido à desestabilização russa no leste, até que as coisas foram bem no domingo. Era crucial uma vitória categórica do favorito Petro Poroshenko, conhecido como o “Rei do chocolate” por suas indústrias no setor. O czar Vladimir Putin faz o que pode para a Ucrânia “melar” e acabar em pizza, mas parece se acomodar minimamente à realidade. Afinal, ele é perdedor nesta eleição. Paga pelos erros de cálculo por seu aventureirismo ucraniano.
E esta realidade é um presidente achocolatado que terá um mandato legítimo e incontestável, especialmente com sua vitória já no primeiro turno. Era fundamental encurtar o período de incerteza eleitoral, algo que daria vantagem para os separatistas pró-russos e aumentaria a margem de manobra de Putin. A agitprop russa bombardeia que fascistas deram um golpe que resultou na queda do governo de Viktor Yanukovich em fevereiro. No entanto, aí está o governo interino que convocou as eleições que devem dar legitimidade ao novo governo. E os fascistas fabricados pela agitprop russa? Pois bem, a extrema direita teve 1% dos votos na Ucrânia, enquanto nas eleições para o Parlamento europeu no domingo, em alguns países, como a França, ela conseguiu mais de 25% dos votos.
Porém, não vamos exagerar na nobreza política ucraniana. O país é mal servido por sua elite política desde a independência em 1991, o que ajuda a explicar o desastre nacional, acelerado pelo pendor russo de querer ditar os rumos do vizinho. Poroshenko é mais um oligarca bilionário e foi ministro de governos anteriores, mas ao menos foi à praça Maidan, em Kiev, em fevereiro, dar apoio ao povo revoltado contra o governo corrupto, venal e pró-russo de Yanukovich. Outros oligarcas fazem jogo duplo ou esperam as coisas se assentarem para tomar partido.
Poroshenko obviamente não é nenhum anjo. Foi ministro das Relações Exteriores do primeiro Viktor (Yushchenko), o herói da Revolução Laranja de 2004, que trouxe tanta desilusão, mas também serviu como ministro da Economia do segundo Viktor (Yanukovich), que trouxe para lá de desilusão. O jogo corporal do “Rei do chocolate” dá uma medida de como tudo é embolado e embolorado no país.
Poroshenko, porém, expressa convicção sobre a necessidade de uma Ucrânia unida e pró-Ocidente, embora descarte adesão à Otan. Ele descarta também reconhecer a ilegal anexação da Crimeia por Putin, mas, com realismo, acena para o vizinho russo (que estará lá para sempre). Os laços econômicos, políticos e culturais com a Rússia não podem ser simplesmente eliminados. E isto nem é do interesse do Ocidente. Putin sinalizou disposição para transacionar com Poroshenko, mas vamos ver como isto vai funcionar na prática.
O presidente russo mantém uma alavanca perigosa e destrutiva no leste ucraniano, com os bandoleiros separatistas, que contam com pouco apoio popular, mas têm condições de desestabilizar a situação. No leste, não existe entusiasmo com Kiev e mesmo na capital há muito ceticismo popular sobre oligarcas como Poroshenko, embora com habilidade na campanha eleitoral ele tenha se distanciado da classe política desacreditada e enfatizado sua capacidade gerencial.
A situação continua muito salgada na Ucrânia, mas o chocolate meio amargo de Poroshenko é digerível.

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