quinta-feira, 8 de maio de 2014

Caio Blinder- Realidade ucraniana derrota Putin

E, então, Vladimir Putin não está com esta bola toda. Nosso homem em Moscou não é um grande estrategista. Ele é desenvolto nos lances táticos, alguns espertos, especialmente quando se aproveita de espaços abertos ou de erros dos adversários. Perfil de quadro da KGB. Não devemos nos curvar com admiração ao recuo de estadista na crise ucraniana.
O “pedido” de Putin aos separatistas pró-russos para que adiem o referendo no leste ucraniano, marcado para este domingo (deveriam, isto sim, cancelar a pantomina) marca o primeiro grande gesto do presidente russo para baixar o fogo depois de colocar tanta lenha na fogueira. O incendiário é bombeiro. Agente duplo? Na expressão precisa do Wall Street Journal, não se trata de um compromisso, mas de uma mera aceitação da realidade.
Resta saber se bolsões de pró-separatistas vão aceitar a realidade. Putin criou seus monstrinhos. Podem fugir ao controle do tático do Kremlin. Putin, aliás, não “pediu” que os separatistas deponham as armas ou desocupem os edifícios tomados em várias cidades nas últimas semanas.
De qualquer forma, a perspectiva de realização de um referendo parece cada vez mais precária. Apesar da falta de cooperação de parte do aparato de segurança, o governo interino ucraniano empreende uma ofensiva contra as milícias pró-russas no leste. Com isto, ficou difícil para os separatistas consolidarem suas posições, embora não tenham sido desalojados. Neste cenário, não dá para imaginar a realização de um referendo.
Em termos políticos, Putin não conseguiu mobilizar a massa pró-russa na frente ucraniana para uma insurreição. Não existe apoio maciço para o desmembramento da Ucrânia. Várias pesquisas confirmam o desejo da maioria da populacao do leste para que o país permaneça unido, embora com mais autonomia regional. Existe uma escalada de tensão e de confrontos, mas nenhum incidente no leste até agora que sirva de pretexto para uma intervenção aberta de Putin para proteger a minoria pró-russa “dos fascistas ucranianos.
Aconteceu o incêndio na sexta-feira passada no edifício sindical em Odessa, no sul, onde morreram dezenas de separatistas, mas a responsabilidade sobre a tragédia é confusa e não há como as tropas russas marcharem para Odessa. E, finalmente, este recuo de Putin afasta a imposição imediata de novas sanções ocidentais.
Putin anunciou a retirada das tropas russas da fronteira ucraniana. A ver. Na quarta-feira, a Otan e o Pentágono disseram não ter evidências desta retirada. De qualquer forma, a resistência ucraniana tanto no leste como em Odessa deixou claro que qualquer intervenção militar russa no país vizinho não seria um passeio como na Crimeia anexada em março. Putin até expressa boa vontade agora com as eleições gerais ucranianas do próximo dia 25. Sua vontade é impedir que aconteçam. Querer nem sempre é poder, nem para Putin.
Em abril, um acordo firmado por EUA, União Europeia, Rússia e Ucrânia para conter a escalada da crise não decolou. Na verdade, serviu para os russos ganharem tempo e os separatistas avançarem no leste do país. O objetivo do presidente russo é desestabilizar a Ucrânia e impedir que o pais penda de forma decisiva para o lado ocidental. Aos trancos e barrancos, a Ucrânia parece caminhar para o lado que Putin não deseja. O Instituto Blinder & Blainder não vai se aventurar a relatórios definitivos sobre o crise, mas, até que tem acertado nos prognósticos. Por ora, o instituto pergunta: cadê o ganho estratégico para o nosso homem em Moscou?
Triunfo assegurado para ele será nesta sexta-feira, 9 de maio, nas celebrações russas da vitória sobre o nazismo na Segunda Guerra Mundial. O 9 de maio de tornou o epicentro da nova ideologia patriótica de Putin. Vamos ver quando tempo vai durar a euforia nacionalista centrada no nosso homem em Moscou.

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