terça-feira, 27 de maio de 2014

Caio Blinder- A tomada do poder e as tomadas de Sisi


Em dois dias de eleições (que terminam nesta terça-feira), os egípcios foram convocados para coroar o marechal-de-campo Abdel Fatah al-Sisi (agora fardado de civil) como presidente. Os militares, que nunca foram embora do poder, agora retornam formalmente para ele.
Ditadores, semiditadores e homens-fortes buscam alguma legitimidade através do voto. Não teremos no Egito uma farsa tão escandalosa e caricatural ao estilo norte-coreano ou sírio (de apoio ao vencedor em uma faixa de 99% a 102% dos votos), mas quando saírem os números finais será bom levar em conta uma pesquisa do sério Instituto Pew, feita em abril, mostrando como o Egito continua polarizado, com uma maioria de 54% assumindo uma visão favorável de Sisi e 45% desfavorável.
Para o dirigente a ser coroado, é vital garantir um alto comparecimento dos egípcios às urnas, algo estimulado pelo culto Sisi e uma imprensa que basicamente se tornou uma máquina de propaganda. Maior comparecimento significa mais legitimidade. As indicações são de diminuição de participação em comparação ao ciclo eleitoral anterior. Resta saber como os números serão embelezados. (atualização: em um sinal de pânico sobre baixo comparecimento e baixa legitimidade, na terça-feira as autoridades estenderam a votação até a quarta-feira).
Desde a queda de Hosni Mubarak em fevereiro de 2011, engendrada por Sisi e seus pares, a vida tem estado tumultuada no Egito. Homem do serviço de inteligência e ex-ministro da Defesa, Sisi também derrubou em julho passado o presidente Mohamed Mursi, da Irmandade Muçulmana, eleito nas primeiras eleições realmente democráticas da história do país. Existe um clamor por estabilidade e a mesma pesquisa Pew revela que a maioria dos egípcios hoje considera estabilidade mais importante do que democracia, algo que Sisi avisou que pode levar “um par de décadas” para florescer no Egito.
No entanto, é ilusão achar que alguém como Sisi seja capaz de proporcionar esta estabilidade ou prosperidade. Talvez ordem, devido à repressão em grande escala e ao sufocamento da sociedade civil. Desde o golpe de julho, que teve apoio popular, morreram mais de mil militantes da Irmandade Muçulmana e dezenas de milhares foram presos (inclusive Mursi). A operação-arrastão se estendeu a setores liberais, alguns dos quais tinham embarcado na salvação de pátria de Sisi, e esquerdistas. Nesta eleição, aliás, existe competição simbólica com a participação do veterano socialista Hamdeen Sabahi, que já havia concorrido no primeiro turno das eleições em 2012 e terminou em terceiro lugar).
Na expressão do jornal The New York Times, Sisi é o Papai Sabe Tudo. Além de tomada de poder, ele entende também de tomadas, pois uma das poucas luzes do seu programa econômico é a insistência para que todos os egípcios usem lâmpadas mais eficientes, que conservem energia. Está de volta o esquema do homem-forte paternalista, ao estilo de Nasser, Sadat e Mubarak.
Sisi trata sua filharada de forma condescendente. Merece o troco: já vimos este filme com estas figuras no poder. A história egípcia anda em círculos, com o país pouco iluminado pelas mesmas lâmpadas maravilhosas.

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