quinta-feira, 15 de maio de 2014

‘Começando a fazer o diabo’, editorial do Estadão

O Estado de S.Paulo
Costumam dar em nada os protestos e as ações da oposição junto à Justiça Eleitoral contra as manifestações públicas da presidente Dilma Rousseff que mal disfarçam sua condição de peças de campanha pelo segundo mandato. A mais recente e explícita delas foi a da véspera do Primeiro de Maio, quando a candidata declarada anunciou em rede nacional um aumento de 10% nos valores do Bolsa Família e correção de 4,5% da Tabela do Imposto de Renda. Além disso, prometeu manter a política de valorização do salário mínimo, só faltando acrescentar "se for reeleita".
Mas, apesar da transgressão impune das regras que demarcam o campo da propaganda a cada ciclo eleitoral e da resignação de muitos diante dessas recorrentes violações, não pode passar como "mais do mesmo" o que ocorreu na segunda-feira no município baiano de São Francisco do Conde, a 60 quilômetros de Salvador, em um evento do governo Dilma - a inauguração oficial do câmpus da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), uma instituição federal, em funcionamento desde fevereiro do ano passado.
Tanto que o Planalto estava representado pelos ministros da Educação, Henrique Paim, e da Igualdade Racial, Luiza Barros. Ao seu lado, como convidado com direito a discurso, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Até aqui, tudo bem. Ninguém lhe fará a injustiça de ignorar o seu empenho pela melhoria da qualidade de vida da população negra e a valorização dos vínculos históricos e culturais entre o Brasil e a África. Com a loquacidade que lhe é peculiar, ele poderia açambarcar a festividade inteira e mais o resto do dia falando disso.
Mas Lula preferia assegurar para a sua causa o apoio dos cerca de mil presentes - em meio aos quais se destacavam embandeirados militantes petistas e funcionários paramentados de vermelho. Mais ainda, queria as atenções do número incomparavelmente maior de cidadãos aos quais a mídia eletrônica e os jornais levariam as suas palavras. Daí, com um descaramento que desafia até mesmo os seus afamados padrões, ser toda outra a causa a que dedicaria o seu verbo - a reeleição de Dilma. Certa vez ela disse, como deve ter aprendido com o mentor, que "podemos fazer o diabo quando é hora de eleição". E nisso ele tornou a provar que ninguém o supera.
Quem o ouvisse, sem saber das circunstâncias de sua fala, poderia achar que já começara a temporada de sagração dos candidatos às eleições de outubro e que ele discursava na convenção do PT que homologaria o nome da presidente em busca de mais quatro anos de poder - formalizando dessa vez o que Lula mandou o partido fazer, primeiro em fevereiro de 2013, depois na semana atrasada, para calar os companheiros que sonhavam com a sua volta. O desavisado ouvinte também podia imaginar que a campanha já tinha começado e Lula estava no seu lugar preferido, entregue ao que mais o gratifica: um palanque e um comício.
"Nunca vi", arengou, recorrendo ao seu advérbio de estimação, "baterem tanto na presidente Dilma como estão batendo agora." Fundindo a disputa de 2010 com a deste ano, disparou que "batem na Dilma porque acham que não é possível este país eleger esta mulher e ainda mais reeleger esta mulher, para desgraça deles". Foi de caso pensado: o eleitorado feminino, à parte quaisquer outros fatores, tende a ser menos dilmista; daí a esperteza de apresentar os projetos políticos de sua afilhada como símbolo da ascensão da mulher no Brasil. Mas ele não perdeu tempo para assumir a paternidade de suas aspirações.
"A Dilma, além de ser uma mulher inteligente e competente", derramou-se, "é uma de nós." Caso alguém não tenha entendido o que isso significa, traduziu: "Ela está lá porque nós quisemos e vai ficar lá porque nós queremos". O plural majestático não foi uma figura de retórica. Além de reiterar a sua ascendência sobre a candidata, foi um aviso a aliados e adversários de que virá com tudo para reelegê-la. Fazer campanha em ato oficial será café-pequeno, como mostram suas declarações ao jornal A Tarde: "Tenho às vezes impressão de que tem gente querendo fazer caixa 2 fazendo denúncia contra a Petrobrás".

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