segunda-feira, 26 de maio de 2014

De Carlos Lacerda para Letícia Spiller



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A atriz Letícia Spiller já é velha conhecida dos leitores deste blog. Afinal, foi uma carta a ela a publicação recordista de audiência por aqui, com mais de um milhão de visualizações e quase 300 mil curtidas. Falei para a atriz, que chegou a dizer que foi idiota no passado ao usar camisa com a bandeira americana em vez de Che Guevara, usar o recente assalto que sofreu para refletir sobre as ideias equivocadas que disseminava.
notícia publicada ontem no Ego, portanto, de que a atriz resolveu passar as férias com os filhos na… Disney, não irá surpreender tantos assim. Por que Disney? Por que não Cuba? Esse pessoal adora adorar Cuba de longe, e odiar o “imperialismo ianque” bem de perto, divertindo-se com aquilo que só os americanos capitalistas sabem oferecer bem.
Incoerência. Hipocrisia. Essas são as palavras que definem a atitude desses artistas. Letícia elogia Cuba e vai para os Estados Unidos, onde pode usar a sua camisa do Che Guevera em paz, ao lado do Mickey e do Pateta (quem é o pateta nessa história?). Se fosse o contrário, se elogiasse os Estados Unidos e fosse para Cuba com a camisa do Tio Sam, seria expulsa, presa ou fuzilada. Isso prova o abismo intransponível entre ambos os regimes, e também nos fala muito sobre a hipocrisia da esquerda caviar.
Nada disso é novo. Nelson Rodrigues já pegava no pé da “festiva” na década de 1960. Roberto Campos já havia resumido bem o fenômeno quando disse: “É divertidíssima a esquizofrenia de nossos artistas e intelectuais de esquerda: admiram o socialismo de Fidel Castro, mas adoram também três coisas que só o capitalismo sabe dar – bons cachês em moeda forte, ausência de censura e consumismo burguês; trata-se de filhos de Marx numa transa adúltera com a Coca-Cola…”
Outro que percebeu a hipocrisia dos nossos artistas engajados de esquerda, usando como exemplo o maior ícone deles, foi Carlos Lacerda, não por acaso odiado pelos socialistas tupiniquins. Eis o que ele escreveu no livro Depoimento, no ano em que nasci, 1976:
“Eu nunca fui, em outras palavras, da esquerda festiva. Essa glória eu tenho, nunca pertenci à esquerda festiva, que inclusive é um fenômeno relativamente novo. Eu nunca seria capaz de fazer o papel do Chico Buarque de Holanda, cuja música eu aprecio muito e cujo caráter não aprecio nada. Estou falando dele, mas não especialmente dele. Só citando um exemplo. Digo isso porque é uma esquerda festiva, que é contra um regime do qual ele vive, no qual se instala, do qual participa lindamente, maravilhosamente, etc. Eu não conheço nenhum sacrifício que ele tenha feito senão a censura em suas músicas por suas ideias. Agora, acho que se ele tem essas ideias, então seja coerente, viva essas ideias, viva de acordo com elas. Isso não é nenhum caso particular com Chico… Estou apenas dando um exemplo. Enfim, tenho horror à esquerda festiva, porque acho que é uma forma parasitária de declarar guerra a uma sociedade da qual se beneficia e participa integralmente.”
Nada mudou. Ou uma coisa ao menos mudou: hoje em dia eles continuam esfregando toda essa hipocrisia em nossas caras, mas há forte reação! Como a esquerda vem finalmente perdendo a hegemonia cultural no país, agora já temos sites, blogs, jornalistas e milhares de indivíduos nas redes sociais se manifestando, condenando, criticando e cobrando um mínimo de coerência dessa turma.
Não são mais uns poucos corajosos isolados em uma coluna de jornal, mas um monte de gente que contesta a falta de coerência dos artistas que cospem no capitalismo somente da boca para fora. O preço da hipocrisia será cada vez mais alto para eles, o que pode representar um freio em tanta cara de pau…
PS: Assim como a esquerda caviar, eu também vou à Disney, mas ao contrário dela, eu elogio suas qualidades e até chego a afirmar que ela é muito melhor do que Foucault!
Rodrigo Constantino

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