terça-feira, 13 de maio de 2014

Os macacos da vaidade e o marketing do comportamento

coluna de João Pereira Coutinho na Folha hoje está fantástica, como de costume. Trata de tema muito sério – o racismo -, mas com suas imperdíveis tiradas de humor. No mais, sua análise está, em minha opinião, perfeita: vaidade, tudo é vaidade! A febre que tomou conta das redes sociais após o episódio com Daniel Alves, com várias “celebridades” posando com uma banana, demonstra como somos dominados por aquilo que Luiz Felipe Pondé chama de “marketing do comportamento”.
Coutinho começa assumindo com sinceridade que todos temos nossos preconceitos, não apenas no bom sentido (sim, ele existe, são os valores e costumes adquiridos antes do filtro racional, mas ainda assim de extrema importância, tradições que resistiram aos “testes do tempo” por alguma função útil), mas também no sentido mais “rasteiro”.
Ele passa então a descrever alguns dos seus, dos quais compartilho (a parte de manter distância de adolescentes não tenho como colocar em prática, pois sou pai de uma, mas entendo perfeitamente que os outros não precisam achar “lindos” os nossos filhos nessa fase de erupções vulcânicas dos hormônios e profunda necessidade de autoafirmação). Cada um com seus preconceitos. Mas racial?
O que a cor da pele mais morena ou mais clara tem a ver com moral? Sim, Coutinho conhece as explicações antropológicas, de que tribos adquiriram sentimentos atávicos de “nós” contra “eles”, e que “o outro” representava uma ameaça em potencial, ou seja, o “diferente” pode ser um risco. Mas sua incompreensão continua, e Coutinho diz: “imaginar que a pigmentação da pele tem importância moral ou epistemológica é um sintoma de primitivismo brutal”.
Tudo certo até aqui. Mas nem por isso devemos aplaudir a “macaquice viral” das fotos de “celebridades” com bananas nas mãos. O que incomoda nisso, segundo Coutinho, é a vaidade presente no ato. Não se trata apenas de um gesto de solidariedade para com o jogador, e sim uma propaganda pessoal para os outros, para mostrar todos os seus “bons sentimentos”. O “circo” foi armado para expor a grande “tolerância” dos famosos (ou candidatos à fama). É algo bastante artificial.
A hipocrisia, enfim. O tema me interessa muito, a ponto de ser a essência do meu último livro, que fala justamente sobre isso. Pensemos em Luciano Huck, um dos primeiros a postar foto com banana e talvez o maior ícone desse “marketing do comportamento”, o Mr. Bondade: como deve ser cansativo para ele manter a pose o tempo todo! Penso na personagem de Judie Foster em “O Deus da Carnificina”, de Polanski, quando ela admite que tudo aquilo (a pose de boa moça tolerante) era extremamente cansativo.
O mestre em dissecar tal hipocrisia é Tom Wolfe, autor de Radical Chic Fogueira das Vaidades. Estou lendo seu novo livro, Sangue nas Veias, que se passa aqui em Miami, onde estou. É justamente sobre raças. E é excelente, pois uma vez mais o escritor desnuda seus alvos, expondo o que jaz por trás das máscaras. Eis a alfinetada que ele dá logo no prólogo:
Do nada, uma frase surge na sua cabeça: “Todos… precisam de sangue nas veias! A religião está morrendo… mas todo mundo continua precisando acreditar em algo. Seria intolerável… ninguém aguentaria… finalmente ser obrigado a dizer a si mesmo: ‘Para que continuar fingindo? Eu não passo de um átomo aleatório dentro de um superacelerador conhecido como universo.’ Só que acreditar em, por definição, significa cegamenteirracionalmente, não é? Portanto, meu povo, isso deixa apenas nosso sangue, as linhas sanguíneas que correm pelo nosso próprio corpo, para nos unir. ‘La Raza!‘, como bradam os porto-riquenhos. ‘A Raça!‘, exclama o mundo inteiro. Todos, em toda parte, têm apenas uma última coisa na cabeça… Sangue nas veias!” Todos, em toda parte, vocês só têm uma escolha… Sangue nas veias!
Tratar brancos, negros, amarelos e pardos “com o mesmo respeito daltônico”, como recomenda Coutinho, eis a arma que pode combater o racismo com o tempo. “Cotidianamente. E, sobretudo, anonimamente. Sem fazer propaganda”. Caso contrário, fica difícil engolir a genuinidade do ato. Fica parecendo que tudo não passa de um alimento para a própria vaidade. Muito melhor simplesmente comer a banana sem fazer alarde.
Rodrigo Constantino

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