domingo, 25 de maio de 2014

Quem ainda consegue defender Cuba?



Duas colunas de hoje na Folha falam sobre Cuba. Uma delas é a do sociólogo Demétrio Magnoli, a outraé a do cubano Leonardo Padura. Ambas apontam para a falta de liberdade na ilha, uma no caso da imprensa, a outra no caso do comércio. Poderiam ser escritas várias outras colunas sobre a ilha caribenha, todas apontando para a liberdade asfixiada em diferentes setores. Afinal, falta liberdade em Cuba, ponto.
Comecemos por Demétrio, que cita o caso da blogueira Yoani Sánchez, que lançou um jornal virtual esta semana, mas já foi bloqueada, boicotada, pois em Cuba é crime discordar do governo. Ele diz:
“Deem-me a liberdade de conhecer, de pronunciar e de debater livremente, de acordo com minha consciência, acima de todas as liberdades”, escreveu John Milton em 1644 no “Areopagitica”, que solicitava ao Parlamento inglês a anulação da exigência de licença oficial para imprimir. O panfleto de Milton está na origem da liberdade de imprensa e da aventura histórica do jornalismo. Seu argumento é que, ao longo do tempo, a obra coletiva de incontáveis autores individuais produziria um saber valioso, muito superior ao saber circunstancial dos censores a serviço do governo. Esse tema, tão antigo, conserva evidente atualidade na nossa era digital. O lançamento de 14ymedio reativa a polêmica deflagrada em meio à Guerra Civil Inglesa do século 17: a liberdade do jornal produzido no 14º andar de um edifício do centro de Havana não é um mero “problema cubano”.
“Estou preso e sou feliz, pois me sinto mais livre que muitos que estão nas ruas ou na União de Escritores e Artistas de Cuba”, respondeu Ángel Santiesteban, em entrevista publicada na edição inaugural de 14ymedio. Santiesteban já foi agraciado com o Prêmio Casa das Américas, principal distinção literária concedida pelo regime cubano. Há 13 meses cumpre pena por delito de opinião.Cuba é um teste político e moral para os intelectuais de esquerda. No Brasil, até agora e com honrosas exceções, eles foram reprovados. Não se viu um manifesto pela libertação de Santiesteban. Duvido que solicitem a liberdade para o 14ymedio. Eles acham que a liberdade deve ser um privilégio de usufruto restrito aos que concordam com eles. 
Já a coluna do escritor cubano fala daqueles que saíram do país em busca de liberdade, foram considerados traidores e apátridas, e agora podem, por desespero do regime falido, voltar a investir na ilha, em busca de lucros. Paduro contrasta tal “privilégio” com a situação daqueles que ficaram, sofreram todas as agruras de uma ditadura, da miséria, mas não gozam do mesmo direito. Ele diz:
A lei de investimento estrangeiro aprovada pelo Legislativo cubano decretou que cidadãos de origem cubana residentes no exterior podem vir a Cuba para investir, fazer negócios e obter lucros. Os apátridas podem comprar partes da pátria que eles ou seus pais abandonaram. A condição fundamental para fazê-lo é que tenham triunfado em alguma parte do mundo e disponham de capital suficiente.
Essa lei, como o nome adverte, só contempla a possibilidade de realizar investimentos em Cuba para empresários estrangeiros, entre os quais cubanos que tenham deixado o país. A lei, assim, não dá espaço aos cubanos que permaneceram apegados à sua terra e resistiram a todas as adversidades em seu país.
O máximo a que podem aspirar os cubanos de Cuba é ter um restaurante, um táxi ou uma oficina de conserto de celulares. 
Reparem que estamos falando do básico do básico: poder ter um simples jornal virtual para emitir opiniões ou abrir um pequeno negócio em seu próprio país. Tudo proibido em Cuba, país tratado como fazenda particular dos Castro, os senhores escravocratas donos de 11 milhões de seres bovinos, que vivem na completa pobreza e sem liberdade.
Com isso em mente, resta perguntar: quem ainda consegue defender o modelo cubano? Sim, porque ao contrário do que certos “humoristas” dizem, ainda há muita gente que faz exatamente isso, enaltecendo as “conquistas sociais” da ilha-presídio. Muitos desses estão inclusive no poder, fazem parte do governo, chegaram até ao posto máximo de presidente (ou “presidenta”) da República.
Repito, então: quem ainda consegue, ciente do que se passa em Cuba, defender esse regime, a mais longa e cruel ditadura do continente? Tento, com a maior boa vontade, procurando ser o mais obsequioso possível, justificar de alguma outra maneira, mas confesso ser incapaz. A resposta que encontro é sempre a mesma: só alguém totalmente desprovido de caráter, honestidade e empatia, pois a ignorância não pode mais explicar algo tão nefasto.
Rodrigo Constantino

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