quinta-feira, 1 de maio de 2014

VIDA EM CUBA-Raúl Castro: um homem só na multidão, por Yoani Sánchez

Raúl Castro: um homem só na multidão

Raúl Castro durante un acto público
Os gritos, os cartazes, as palavras de ordem num coro de milhares de vozes lhe fazem despertar sensações dormentes e extintas. Olha o mar de gente que passa em frente à tribuna e uma pulsação diferente bate no seu peito. O rosto vermelho, as pupilas dilatadas, a pele eriçada e a mandíbula tensionada. São os primeiros sintomas da excitação que as multidões provocam nos caudilhos. Um ritual de que precisam lançar mão de quando em quando para escapar da solidão do poder.
Os autocratas inventam marchas, imensas procissões e desfiles faustosos – “os maiores do mundo”- nos quais se regozijam da sua própria autoridade. Sabem que eles, e só eles, podem obrigar milhões de pessoas a sair da cama – em plena madrugada – subi-las num ônibus, anotar o nome de cada participante e pô-los a perambular numa grande praça. Para deixar claro quem manda, enviam a mensagem através de uma multidão que grita seu nome em coro, os venera e lhes agradecem. Uma “massa” a que jamais se atreveriam misturar, com a qual não se encontram, temem e que – no fundo – desprezam.
Hoje, na praça da Revolução, um ancião com óculos de sol presidirá o ato do primeiro de maio. Dias antes mandou investigar cada terraço próximo ao lugar, instalou guardas nos pontos mais altos da cidade e calculou a vulnerabilidade da tribuna a um tiro. Seu próprio neto se manterá próximo para protegê-lo e uma flotilha de automóveis o esperará “caso algo corra errado” e deva escapar. Não confia na própria multidão que reúne.
O autocrata tem medo da sua própria gente. Medo e receio. O sentimento é mútuo. Sabe que as centenas de milhares de cabecinhas que vê do alto estão ali porque o temem e não porque querem.
Tradução por Humberto Sisley

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