quarta-feira, 11 de junho de 2014

Alexandre Garcia-Ganhando a copa

A moça e o rapaz, no topo de escadas, enfeitavam o teto do supermercado com fitinhas verde-e-amarelas. “Já, Semana da Pátria?” – perguntei, provocativo. Os dois ficaram surpresos com minha reação. Depois de um tempo, a moça explicou: “Semana da Copa”. Insisti: “ E como é que não vi a loja enfeitada assim para o Sete de Setembro?”. A verdade é que não tenho visto nos automóveis, nas ruas, nas casas, nas lojas, o país embandeirado de verde-e-amarelo para festejar a Pátria. Festeja-se, sim, um time profissional de futebol, num torneio comandando por uma empresa com sede na Suíça. Como o certame dá exposição quase mundial aos países anfitriões, a regra é que esses países têm aproveitado a oportunidade para projetarem e expandirem seu poder nacional. 

Nos últimos jogos de inverno, na Rússia, foi a ocasião para Putin. Barcelona se tornou ainda mais procurada depois dos jogos olímpicos; a Alemanha usou a Copa para o mundo relevar os crimes de Hitler; a África do Sul mostrou-se potência africana na Copa; e imagine os Estados Unidos reiterando competência ao sediar o campeonato mundial de um esporte que lá não é popular. O Japão aproveitou os jogos olímpicos de Tóquio para inaugurar o trem-bala, em 1964. Aqui, se tivéssemos nosso trem-bala circulando entre Rio e São Paulo, como prometido pelo governo, já seria uma vitória, embora meio século depois do Japão. 

Se tivéssemos resolvido a mobilidade urbana, sem congestionamentos e com transporte de massa eficiente, já seria uma vitória. Já imaginaram, os hospitais públicos totalmente equipados e sem espera? E se já pudéssemos andar nas ruas; ficar em casa, frequentar lojas – sem perigo de assaltos ou balas perdidas? - ainda que a pretexto da Copa? Que vitória! Jornalistas estrangeiros me contam que tiveram um choque ao perceberem a pobreza e as péssimas condições de vida nas periferias. É que a propaganda do governo, o marketing, fizeram crer no exterior que os pobres tinham virado classe média; que a pobreza havia acabado e as diferenças sociais eliminadas. 

O próprio governo que trouxe a Copa se torna vítima da exposição da realidade. Jornalistas estrangeiros desacostumados devem estranhar nos jornais brasileiros todos os dias notícias de homicídios e corrupção. Se tivéssemos usado a Copa para nos enquadrarmos no padrão FIFA de educação, saúde, segurança, organização das cidades, não nos importaríamos se nossa equipe de futebol perdesse todos os jogos. Já teríamos ganhado a Copa. 

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