sexta-feira, 13 de junho de 2014

Caio Blinder- A guerra em Siraque

Com suas operações de fusões e aquisições (sem esquecer as decapitações e crucificações), o grupo jihadista Estado Islâmico do Iraque e da Síria se consolidou como uma Internacional Terrorista, inspirada pela rede Al Qaeda, que investe no projeto sem fronteiras de um califado. O grupo prospera na porosa fronteira Síria/Iraque, que virtualmente desapareceu nos últimos meses, na avaliação de analistas como Andrew Tabler, do Washington Institute for Near East Policy.
Os militantes jihadistas realizaram um dos seus ataques mais audaciosos na terça-feira com a ocupação da estratégica Mosul, a segunda cidade do Iraque, o que compensa algumas perdas na frente síria, especialmente em confrontos com outras facções rebeldes (tanto moderadas como rivais islâmicos).
Na Síria, existe uma guerra civil dentro da guerra civil e o regime Assad “modera” seus ataques contra os mais radicais entretidos em combates contra grupos financiados e armados por países árabes como a Arábia Saudita e o Ocidente. Já no Iraque, foi um vexame para o governo de Nouri al-Maliki, o xiita que é próximo tanto de Assad como do regime iraniano, sofrer esta perda em Mosul para insurgentes sunitas. As tropas governamentais debandaram de Mosul e, nesta quarta-feira, os dados eram de mais de 500 mil refugiados.
Onze anos depois da invasão do Iraque por George W. Bush e dois anos e meio da retirada das tropas americanas, o conflito teve uma mutação. Temos a guerra em Siraque, devido ao contágio da guerra civil síria no Iraque. É provável que os militantes do Estado Islâmico do Iraque e  Síria não consigam controlar a estratégica Mosul por muito tempo (embora seja bom lembrar que as tropas iraquianas ainda não conseguiram retomar outras cidades importantes ocupadas como Fallujah e Ramadi). A vitória psicológica é escancarada e o golpe político contra o governo Maliki é imenso.
E está claro como foi precipitado decretar o sucesso da contra-insurgência americana no Iraque, uma alegação que facilitou a retirada das tropas do país. O negócio é decretar vitória e cair fora. Nem pensar em regressar. Em 2007, o comandante de uma brigada americana, o coronel Stephen Twitty, disse a o jornalistas que “nós realmente vemos Mosul como um modelo para todo o Iraque”, ou seja, o modelo de contra-insurgência de atuação conjunta de tropas regulares com tribos azeitadas com dinheiro para combater a insurgência sunita. No entanto, o que vemos hoje é o controle de partes de Falluja e Ramadi pelos jihadistas.
O Estado Islâmico do Iraque e da Síria tem uma área de influência que se estende do leste da Síria ao oeste do Iraque. Seu comando é composto de veteranos de uma década de insurgência contra as tropas americanas no Iraque e também contra os xiitas. Seus militantes vieram de todas as partes do mundo árabe, assim como da Europa Ocidental, Cáucaso  e sul/sudeste da Ásia, delirando e matando em nome deste califado no fértil terreno da guerra civil síria, especialmente quando os grupos rebeldes mais moderados não conseguiram virar o jogo no começo do conflito. Em termos concretos, existe um enclave militante binacional e, em termos estratégicos, os jihadistas querem enfraquecer o já frágil estado iraquiano e expandir o teatro de operações na Síria.
Os jihadistas deverão saquear o que puderem em Mosul, além de cobrar por “proteção (são terroristas mafiosos), em lances que deverão vitaminar o grupo na Síria. A guerra civil no país apenas parcialmente controlado por Assad está longe de fim e o Iraque é palco de uma escalada de sectarismo. Na Síria, os americanos vacilam em armar rebeldes que combatem Assad, que, por sua vez,  é municiado convictamente por russos, iranianos e conta com tropas do Hezbollah, o movimento terrorista xita no Líbano. Já no Iraque, os americanos fornecem armamento pesado para o governo Maliki. O poder de gente como o genocida Assad e o sectário Maliki alimenta os insurgentes sunitas nos dois países e mobiliza militantes multinacionais no planeta Jihadistão.
A invasão americana guindou os xiitas ao poder no Iraque e vitaminou o regime iraniano. O Ocidente sente azia do regime Assad e teme os jihadistas sem fronteiras. Não ajudou quem deveria ter ajudado lá atrás, conforme salienta agora o ex-embaixador americano na Síria, Robert Ford, um defensor da assistência a grupos mais moderados e que após renunciar ao cargo governamental está à vontade para criticar a política oficial.
Neste quadro poroso na Síria e no Iraque, hoje quem é amigo? Quem é o maior inimigo? Siraque não é para amadores.

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