terça-feira, 3 de junho de 2014

Caio Blinder- Na Síria de Assad, a escolha de Sofia, entre o bad e o mad

Existe o argumento de que Bashar Assad venceria até eleições livres e transparentes na Síria. O argumento é acadêmico. Assad é um ditador genocida e as eleições que se realizam nesta terça-feira são uma farsa grotesca. A Síria é uma nação destruída pela guerra civil, um estado falido. Teve lugar a profecia auto-realizável de Assad de sectarismo e selvageria. Com sua repressão genocida a protestos que irromperam há três anos, ele gerou uma resistência igualmente desumana encabeçada por jihadistas.
A eleição desta terça-feira é um exercício político para Assad tentar criar um fato consumado: eu estou aqui e não vou embora. Desta forma, Assad fecha as portas para uma solução negociada e foi a sua decisão de convocar estas eleições que enterrou a diplomacia em Genebra, entre o regime e a oposição moderada, que, aliás, nunca fora promissora. O ditador filho de ditador quer colocar os sírios diante de uma escolha de Sofia: ele ou os jihadistas. E para muitos sírios, existe o caminho relutante de volta ao seio do regime, não por apoio a Assad, mas pela sensação de que ele representa uma aparência de normalidade.
Claro que tudo isto é surrealista. Não podemos, é verdade, negar que Assad desafiou as expectativas (e pela enésima vez, eu reconheço que inclusive as minhas) ao não cair como mais um dominó na Primavera Árabe. Aliás, o velho tabuleiro está se recompondo, como no Egito do presidente eleito Sisi, que triunfou com apenas 93% dos votos, em meio a um comparecimento sofrível às urnas.
No caso da Síria, não existem sequer condições logísticas para o comparecimento às urnas. Na tradição familiar, Assad irá  fabricar a legitimidade. Em 1999, Hafez, seu papai ditador, teve 99.98% dos votos (o filho pegou o trono no ano seguinte com a morte do ditador que reinara por 30 anos). Bashar foi reeleito para o segundo mandato de sete anos em 2007, sem competição, com 97.6% dos votos. Desta vez, o regime inventou dois oponentes simbólicos.
Além de crimes de guerra e contra a humanidade cometidos para ficar no poder, como usar a arma da fome contra a população civil, Assad tem uma maciça m áquina de agitação e propaganda para destacar as barbaridades (são verdadeiras) praticadas por jihadistas. O movimento Estado Islâmico do Iraque e do Levante foi renegado até pela rede Al Qaeda. E uma oposição caótica não ajuda muito na resistência. Países ocidentais vacilam em dar ajuda aos rebeldes, temerosos que as armas caiam nas mãos de decepadores e crucificadores. Há sinais, no entanto, de que virá ajuda mais substancial a alguns setores dos rebeldes, pois os EUA também temem que a guerra penda demais para o lado do regime.
A oposição armada, embora dividida, não foi derrotada. E a fantasia política da eleição não vai alterar o impasse militar Ademais, o principal fator para a preservação de Bashar Assad no poder é o apoio do Irã, Hezbollah e Rússia (nos dois primeiros casos inclusive com tropas). O jornalFinancial Times lembra que um dia o ditador poderá ser vítima da aproximação entre Irã e EUA. Uma transição para uma genuína normalidade na Síria mais adiante vai exigir o enxotamento do clã Assad.
E existe outro aspecto inquietante (o que não é na Síria?): o espetáculo eleitoral irá enfurecer ainda mais a Arábia Saudita, disposta a prolongar a política de terra arrasada na Síria, com seu apoio a rebeldes, para se livrar de Assad. Diante da escolha de Sofia, os sírios podem terminar, para variar, no pior dos mundos: com mais Assad e mais jihadistas.
Por ora, hoje, é esta farsa eleitoral. Aryn Baker tem uma ampla reportagem esta semana na revista Time com o título “Será que Assad ganhou? O final da reportagem tem uma frase lapidar e eu vou deixar parte em inglês para não estragar: muitos sírios estão desesperados para tudo acabar o mais cedo possível, na medida em que eles foram pegos entre uma “revolution gone bad and a regime gone mad”.

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