sexta-feira, 6 de junho de 2014

Caio Blinder- O dia D e uma nova hora H para o Ocidente

Eu sou viciado na grandeza e no triunfo do longuíssimo filme O Mais Longo dos Dias (1962, 178 minutos), com seu elenco multinacional estrelado, entre outros, por John Wayne, Richard Burton, Bourvil e Curd Jurgens. É verdade que as cenas iniciais de O Resgate do Soldado Ryan (1998) foram mais fundo no inferno do desembarque em si.
E esta sexta-feira, 6 de junho, é dia de reencenar o mais longo dos dias. Ainda bem que que na hora H, Vladimir Putin não foi desconvidado da cerimônia para lembrar os 70 anos do Dia D, o desembarque dos aliados na Normandia na Segunda Guerra Fria. Nosso homem em Moscou faz coisas terríveis, como invadir a Ucrânia, mas história é história. Como disse o presidente francês François Hollande, “podemos ter nossas diferenças com Vladimir Putin, mas eu nunca esquecerei que o povo russo perdeu milhões de vidas na Segunda Guerra Mundial”.
Desconvidar o presidente russo seria uma desfeita e ele cultiva a mesma mistura de patriotismo e vitimização de Joseph Stálin, o líder soviético na “Grande Guerra Patriótica”, com quem Winston Churchill e Franklin Roosevelt cerraram fileiras contra Adolf Hitler. Sim, foi a guerra daquela que os americanos qualificam de “a maior geração”, mas não foi meramente o duelo entre liberdade e tirania. Era preciso ser aliado de Stálin, que enterrou gerações de seres humanos com sua barbárie.
Foto tirada por Robert Capa na praia Omaha
Foto tirada por Robert Capa na praia Omaha
Em junho de 1943, Stálin escreveu a Churchill que os soldados soviéticos estavam fazendo “sacrifícios colossais” em comparação ao fardo “modesto” dos aliados ocidentais. E o apelo do líder soviético por uma segunda frente foi respondido com o desembarque um ano mais tarde na Normandia, a maior operação anfíbia da história. A presença de Putin na praia Espada nesta sexta-feira é mais um reconhecimento da imensa e devastadora contribuição soviética na derrota do nazismo (ele já esteve lá pela primeira vez há dez anos).
No entanto, não devemos diminuir ou marginalizar a importância estratégica e política da segunda frente. E eu fico comovido, muito comovido, com as imagens de veteranos marchando em suas cadeiras de rodas ou com suas bengalas. Sem uma invasão bem sucedida na Normandia, Hitler poderia deslocar mais divisões para enfrentar o Exército Vermelho (a Wehrmacht já estava na sua longa retirada da frente leste em junho de 1944). Os nazistas também teriam mais tempo para construir suas modernas armas de terror, o V-2. A guerra poderia se arrastar por muitos anos.
O veterano britânico Pat Churchill de volta à praia Juno
O veterano britânico Pat Churchill de volta à praia Juno
A presença de Putin na Normandia, portanto, nos faz relembrar que a Segunda Guerra não foi travada apenas para defender a democracia. Porém, com a segunda frente no Atlântico e outras frentes no Mediterrâneo foi também possível demarcar o território e conter o avanço soviético na Europa. Os festejos na Normandia, que contam também com a presença da primeira-ministra Angela Merkel e de veteranos alemães realçam o espírito de reconciliação na Europa, que gente como a líder da extrema direita francesa Marine Le Pen faz o possível para estragar.
Estas datas redondas sobre guerra são choques de narrativas. Na televisão russa, controlada pelo Kremlin, Putin será mostrado como o líder patriótico do país que realizou os maiores sacrifícios na Segunda Guerra, mas existem outras narrativas: o Dia D foi o triunfo militar ocidental para a criação de um mundo em que países belicosos não podem engolir territórios dos seus vizinhos.
E a Europa 70 anos DDDD (depois do Dia D) é isso desde que Putin não estrague o cenário. No entanto, os aliados ocidentais não estão tão aliados para enfrentar Moscou em 2014.  A banda mais oriental cobra medidas mais duras (países como Polônia). Na Europa Ocidental, há vacilos e o líder do mundo livre, Barack Obama, realmente não vive sua “finest hour” churchilliana. Espero que quando chegar a hora H e se Putin aprontar coisas ainda mais pesadas na nova frente russa o Ocidente reencontre sua “finest hour”.
A conversa está muito solene. Vamos terminar com a diatribe no Twitter de Garry Kasparov, o campeão de xadrez e dissidente russo: “Putin foi convidado para o aniversário do Dia D na França com líderes ocidentais? Será que eles precisavam de um especialista em invasões?”
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