sexta-feira, 6 de junho de 2014

Caio Blinder- República Popular da Amnésia

O título desta coluna é o título do livro de Louisa Lim, a veterana correspondente na China da indispensável National Public Radio (dos EUA). Falar do livro é meu presente aos leitores no vigésimo quinto aniversário do massacre dos manifestantes pró-democracia na Praça da Paz Celestial, em Pequim, para que jamais esqueçamos o que aconteceu, ao contrário do que acontece com os chineses (pelo menos em Hong-Kong foi possível lembrar, com dezenas de mihares de pessoas presentes a uma vigília, a destacar estudantes que nem tinham nascido em 1989).
No ano passado, Louisa Lim realizou um experimento sobre o que ela qualifica de “grande esquecimento”. A jornalista confrontou estudantes de quatro importantes universidades de Pequim com uma das fotos icônicas da história da humanidade: o homem solitário e anônimo que confronta uma coluna de tanques no dia seguinte ao massacre dos manifestantes. Apenas 15 dos 100 estudantes souberam identificar a foto. Um estudante de doutorado em marketing perguntou se era na Coreia do Sul. Outro, um estudante de astronomia, se era em Kosovo. Dezenove estudantes especularam que se tratava de uma parada militar.
Suprimir o protesto foi apenas um ato da ditadura chinesa. Um outro foi e ainda é tentar suprimir a memória coletiva como parte de um pacto do regime com a população: sinal verde para buscar a fortuna econômica, mas não a fortuna política da liberdade. A repressão é vista como imprescindível para a fórmula de decolagem econômica.
Um proeminente novo-rico, Jack Ma, fundador do gigante do comércio eletrônico Alibaba, disse que a decisão de Deng Xiaoping de soltar os soldados contra os manifestantes foi “cruel, mas necessária”. Um líder estudantil na Universidade de Pequim que se alinhou com o regime, contra as manifestações, foi recompensado. Xiao Jianhua ganhou as devidas conexões com o aparelho partidário (passaporte para a riqueza) e hoje é empresário bilionário (em dólares).
Louisa Lim escreve que esquecer o que aconteceu em 1989 é um mecanismo de sobrevivência do regime e anda de mãos dadas com o revisionismo histórico de aceitar que o declínio chinês entre 1840 e 1949 (ano da revolução comunista) foi culpa do imperialismo estrangeiro, que os comunistas lutaram sozinhos contra os japoneses, que uma borracha deve ser passada na fome que matou 40 milhões de chineses no Grande Salto para Frente e que Mao foi “70% bom e 30% ruim”.
Esquecer é preciso, assim como novas formas de mobilização diante da falência do projeto ideológico comunista. Não é à toa que os maiores protestos na China desde 1989 aconteceram em 2012 nas marchas antijaponesas que tiveram lugar em 80 cidades com o aval das autoridades. Como diz Louisa Lim, melhor canalizar a fúria para fora do país, não para dentro.
A própria Praça da Paz Celestial foi reabilitada de um local de vergonha nacional para um de orgulho, de celebração da identidade nacional. Milhares de pessoas se congregam diariamente na praça e tiram fotos dos guardas que adentram com passo de ganso.
Até hoje não existem cifras oficiais sobre o número de vítimas. Morreram centenas, talvez milhares, de manifestantes há 25 anos. A Argentina da ditadura militar teve as Mães da Pra ça de Maio. A China tem as M ães da Praça da Paz Celestial. Seus filhos morreram em 3 e 4 de junho de 1989. Elas esperam os meros fatos, justiça e a abolição da república popular da amnésia.
E quem sabe, daqui a 25 anos, no cinquentenário do massacre, possamos escrever sobre o momento em que a coluna de tanques não resistiu ao avanço de pedestres anônimos, porém não solitários.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Seguidores

Arquivo do blog

LIBERDADE COMO NOSSO DOM MAIOR

Ser livre para ir e vir!Pela liberdade de expressão.Pela humanidade contra os pregadores da escuridão que assolam nosso mundo moderno.Democracia verdadeira sempre,não aquela de fachada que persegue quem não compartilha de suas idéias.