segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

“Uma boa dose de cultura é vacina contra charlatães.” (Filosofeno)

“Sou um passarinho que deu azar e nasceu gente.” (Mim)

“Sou um homem de muitas posses... Posses de banha.” (Fofucho)

“Dilma é o símbolo humano do apagão.” (Mim)

“Quem é bom no que faz não teme aviso-prévio.” (Mim)

“Medo do diabo? Confesso que não sou corajoso, mas como ter medo de um cara vermelho, com chifres e rabo e que ainda por cima solta fogo pela bunda?” (Climério)

“Quem dorme em palheiro não fuma.” (Pafúncio)

“Do céu só espero sol, chuva e cocô de passarinho.” (Climério)

“Deus não consiste na força, mas na verdade... Qual verdade? Nada mais mentiroso.” (Filosofeno)

DECEPÇÃO

DECEPÇÃO

Às vezes você não se sente um estranho no seu próprio país?
Será que eu penso tão diferente dos demais, será que sou parte de uma minoria tão minoria assim?
Cada vez mais me convenço que os oportunistas e safados estão vencendo o jogo. Os que gostam de levar vantagem em tudo estão por cima, certo?
A sociedade como um todo não me dá respostas, ou me dá respostas podres. Mas será que o errado nessa história não sou eu?  
Não estarei esperando demais de um povo que consegue dar mandato para tanta coisinha ruim?
Não serão essas coisinhas reflexos da nossa própria imundície em que vivemos todos os dias?
Eu tenho, tu tens, não importa como.
Pensemos.


JORGE OLIVEIRA- ESCOLAS ESPECIAIS PARA OS FILHOS DOS CORRUPTOS

Rio – Li esta semana em um jornal que um corrupto se chateou porque seu filho foi admoestado numa escola onde estudava na Zona Sul do Rio. De fato, não é fácil ser filho de corrupto, mesmo sabendo que a neurociência ainda não chegou a conclusão da pesquisa para provar que  nem sempre “filho de peixe peixinho é” . O máximo a que os estudos alcançaram de verdade até agora é a comprovação da mudança de comportamento do filho do corrupto. Normalmente, ele leva uma vida acanhada, envergonhada e se torna uma pessoa isolada, introvertida. Nas reuniões, na escola e nas festinhas, por exemplo, é o último a chegar e o primeiro a desaparecer para não ser notado.

Discute-se no meio acadêmico no momento se não seria melhor isolar o filho do corrupto da garotada, digamos, normal, aquela que preserva os princípios da honestidade. Assim se evitaria que as crianças traumatizadas pelos antecedentes dos pais passem por constrangimentos nas escolas.  A outra proposta é de que o governo deveria criar escolas de amparo aos filhos dos corruptos. Ali, em um ambiente isolado, aqueles que nasceram com o gênese dos pais, seriam acolhidos em horário integral para aprender como fraudar e roubar no Brasil.

O currículo seria discutido nos presídios pelos Ph.D.s na matéria ou mesmo dentro dos ministérios onde muitos desses corruptos continuam na prática ensinando aos seus subordinados novas técnicas de roubar o dinheiro público já que de mil flagrados apenas um ou dois ficam mais de uma semana na cadeia, sinal de que há uma evolução no modus operandi da gatunagem de não deixar pistas. Do Ministério do Trabalho, por exemplo, onde a Polícia Federal prendeu dezenas deles acusados do desvio de 200 milhões de reais,  poderiam ser convocados alguns para falar sobre “como roubar e não ser condenado: métodos do bem-viver”, como uma disciplina extracurricular.

Encontrar locais especializados para os neocorruptos evitaria que os pais passassem pelo vexame de ver seus filhos discriminados pelos colegas nas escolas comuns. À esses garotos, acostumados à polícia na porta de casa, estariam reservados currículos específicos e aulas teóricas e práticas do desvio de recursos. Juntariam-se a eles também os filhos de banqueiros e de empreiteiros flagrados no comércio da propina e do suborno. Uma das disciplinas indispensáveis ao currículo seria licitação pública: “Como adulterar e viciar as licitações públicas em conluio com funcionários públicos”. Essas aulas seriam ministradas nas escolas e dentro dos próprios ministérios, onde os estudantes assistiriam ao vivo e a cores a conversa entre empreiteiros e burocratas, sobre os métodos de suborno e os truques para o dinheiro roubado chegar ao paraíso fiscal.

Outra matéria importantíssima: “Como desviar dinheiro destinado às calamidades”. As aulas também seriam práticas e rápidas. Consistiriam em ver como a grana sai do ministério para os flagelados e, como, num passe de mágica, desaparece no meio do caminho. O que chega ao destino normalmente é dividido entre os prefeitos e seus assessores, como ocorreu no Rio. Para os miseráveis apenas os donativos que depois da tragédia normalmente é jogado fora por falta da logística de distribuição.

Para  que o aluno ingresse na Universidade da Corrupção não precisa de vestibular. Exige-se apenas a apresentação da folha corrida do pai com os antecedentes criminais. Quanto mais suja melhor. O mestrado e o doutorado inevitavelmente serão feitos dentro dos próprios ministérios que garantem inclusive o estágio já no primeiro ano do curso. Afinal de contas, o Brasil não pode desperdiçar a experiências e a prática diária de seus corruptos para não desativar a Polícia Federal que trabalha hoje exclusivamente para prender os comissionados do governo.

Sem essas escolas, corre-se o risco de um Brasil vazio, sem grandes emoções.

PEDRO LUIZ RODRIGUES- PRIVATIZAÇÕES ESTÃO DANDO CERTO

Quem diria, de uma hora para a outra, a privatização deixou de ser artimanha malévola – praticada por entreguistas sem nenhum patriotismo –  para se transformar em motivo de orgulho do mesmo Partido dos Trabalhadores (PT) que antes a criticava e agora a exalta, a ponto de o tema vir a ser tornar a principal bandeira eleitoral do governo nas eleições de outubro próximo.
Perdeu mesmo foi o Brasil com essa demora de o partido no poder reconhecer o óbvio, de que o governo não conta com a capacidade de investir para dotar o país da infraestrutura necessária para manter o crescimento econômico, precisando, portando, do investimento privado.
Como já disse Roberto Freire – presidente do Partido Popular Socialista (cujas raízes remontam ao Partido Comunista Brasileiro), “esse diagnóstico tardio nos custou dez anos de investimentos não realizados”.
Quando fala do assunto, o PT, obviamente, sabe que está pisando em ovos. Em vez de dar a cara à tapa, reconhecer que no passado erraram, mas que hoje buscam corrigir o erro, perdem tempo com contorções semânticas, tentando convencer a patuleia que concessão não é privatização.
No final do ano passado, o líder do partido na Câmara, o deputado cearense José Guimarães (o mesmo que teve o dissabor de ter um assessor apanhado em Congonhas com cem mil dólares na cueca e mais 209 mil reais numa maleta) fez análise do papel do Estado e o novo modelo de desenvolvimento adotado pelo governo federal, no qual deixou claro que “o PT e seu governo não se renderam à ideologia neoliberal e nem às privatizações. O que se busca (com as concessões) é ampliar o leque de investimentos, visando a superar os gargalos na infraestrutura do país”.
Para o líder comunista Roberto Freire, autor de artigos sobre o assunto, o entendimento é outro: envergonhados do tamanho do erro histórico que cometeram, os petistas “ainda relutam em admitir o óbvio: transfererência de prestação de serviços públicos para a iniciativa privada são privatizações. Concessão é apenas o nome técnico-administrativo”.
Bom, o importante da história, é a notícia de que o governo federal conseguiu que o setor privado investisse R$ 80,3 bilhões pelos próximos 35 anos em concessões de rodovias, aeroportos, terminais portuários de uso privado, blocos de petróleo e gás natural e geração e transmissão de energia elétrica. Quem botou essa informação em relatório foi o novo secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, Pablo Fonseca.
Em 2014, as privatizações – ou concessões – deveram ser estendidas a duas áreas chaves: ferrovias e portos.

ANDREA FAGGION- O que significa o direito de ser livre?

Costumo dizer a meus alunos que há duas maneiras (não excludentes) de criticarmos um argumento. Podemos aceitar as premissas do adversário, ao passo que procuramos mostrar que a inferência feita a partir delas é logicamente inválida. Nesse caso, procuramos mostrar que as premissas não bastam para justificar a alegação feita pelo nosso oponente, de modo que a conclusão ainda poderia ser falsa, mesmo que as premissas fossem verdadeiras. Mas também podemos aceitar a validade do raciocínio do nosso oponente, negando então que o ponto de partida (a premissa) seja aceitável. Tenho notado que, via de regra, os colegas com quem discuto minhas posições libertárias Brasil afora tendem mais a recusar minha premissa, no caso, a redução de todo o direito a um direito irrestrito à liberdade não agressiva, do que a tentar invalidar meus argumentos anti-estatistas construídos a partir dessa premissa.

Para que compreendam melhor o ponto, saibam que eu entendo o famoso princípio libertário de não agressão como um princípio de não coerção. Coerção, por sua vez, eu entendo como todo uso da força, ou ameaça de uso da força, pelo qual se procura evitar que um agente escolha um determinado curso de ação, a princípio, disponível para ele. Em outras palavras, coerção é uma restrição que um agente impõe pela força ao arbítrio de outro. Já o direito à liberdade, eu entendo como um direito à ausência de coerção.

É verdade que circunstâncias também podem restringir o arbítrio de um agente, mas eu argumento que esse fato é absolutamente irrelevante do ponto de vista jurídico, de tal forma que não faria sentido algum falarmos em violações de direitos no contexto de restrições impostas por circunstâncias. 

Considere o seguinte. Você está fazendo uma trilha desconhecida no meio de uma mata fechada. De repente, você sofre uma queda, fratura a perna e não consegue mais retomar a caminhada. Você está preso na mata. Agora, em outro cenário, você está fazendo a mesma trilha, mas, em vez de meramente sofrer uma queda, você cai em uma armadilha montada por um sociopata caçador de seres humanos. Ele o impede de retomar a caminhada. Nos dois casos, a restrição à sua liberdade é a mesma. Porém, você há de convir que, apenas no segundo caso, faz sentido dizer que um direito seu foi violado, não é mesmo? E por que é assim? Porque apenas no segundo caso a sua liberdade foi tolhida pela força de um outro agente, quer dizer, por outro arbítrio, e não pela natureza ou pelo contexto.

Assim, como bem definiu Kant, a liberdade que consiste em um direito moral não diz respeito à independência de constrangimento das circunstâncias, mas sim, justamente, à independência de restrições ao nosso arbítrio impostas à força pelo arbítrio de outro agente. 

Naturalmente, dado que um direito, em sentido moral, além de corresponder a um dever, deve ainda ter validade recíproca, a independência de coerção do arbítrio de outro a que temos direito não pode valer incondicionalmente. Há uma condição para o exercício de nosso direito à liberdade assim concebida. Todavia, trata-se de uma condição que brota internamente da própria ideia de um direito universal à independência de coerção por parte do arbítrio de outro. Essa condição é apenas que nossa própria ação não seja ela mesma, primeiramente, uma coerção para o arbítrio de um outro. Em suma, não podemos reclamar o direito de não sofrermos coerção apenas quando nós mesmos, primeiramente, estamos usando nossa liberdade de modo coercivo. É assim que falo em um direito irrestrito ao uso não agressivo (não coercivo) da liberdade.

Muito bem, é claro que eu preciso justificar essa premissa, antes de extrair conclusões anti-estatistas dela. Ela mesma consiste em uma alegação considerável para a qual eu assumo o ônus da prova. Entretanto, curiosamente, meus oponentes não se interessam tanto em desafiar minhas razões para reclamar esse direito. Eles preferem, em vez disso, constatar um caráter algo anêmico nessa minha premissa. Ela simplesmente pecaria por ser fraca demais, ou reducionista demais, na medida em que eu reduziria todo o direito a um simples direito de não ser forçado a nada por outro. Falam então em um conceito maior, mais forte, mais rico... da liberdade a que teríamos direito. Isso me dá a entender que eles pensam que o conceito de liberdade deles engloba o meu e o estende. Bom, eu acredito que não seja bem assim.

Note que, juridicamente, quando falamos em um direito, estamos, automaticamente, postulando obrigações que podem ser impostas pelo uso da força. Alegar um direito é sempre alegar o direito de exigir seu respeito por parte dos demais agentes. Eu penso dispensá-los de sua obrigação de respeitar meu direito. Mas isso cabe a mim. A rigor, um Robinson Cruzoe não teria direito algum, porque ele não teria ninguém a quem opor direitos. Dito isso, fica claro que o conceito de uma coerção legítima, uma autorização para o uso da força, é, como dizia Kant, sinônimo do conceito de direito.

Decorre dos esclarecimentos do último parágrafo que só não é contraditório dizermos que temos direito à liberdade (entendida como ausência de coerção), portanto, que estamos autorizados a usar a força em nome dessa liberdade (para protegê-la como direito), quando (e somente quando) estamos exercendo coerção contra uma coerção prévia. Como Kant diz em um de seus momentos mais brilhantes, a resistência que se opõe a uma resistência à liberdade colabora com ela. Em síntese, coerção de uma coerção é um favorecimento da liberdade, do mesmo jeito que, matemática e logicamente, a negação de uma negação equivale a uma afirmação.

Quero com isso dizer que, sempre que uma coerção for praticada para além da supressão de uma coerção prévia, teremos a pura e simples coerção de um arbítrio por parte de outro, o que viola o suposto direito, alegado por mim, à liberdade como independência da coerção do arbítrio de outro. Por consequência, - é aqui onde eu queria chegar - meu oponente não pode dizer que tem um conceito de liberdade como direito que é mais amplo, rico... do que o meu. Na verdade, ele tem um conceito de direito à liberdade oposto ao meu, pois, sempre que ele fizer valer pela força o direito mais amplo que ele alega ter, ele necessariamente violará o direito minimalista que eu alego ter. 

Muito bem, o meu oponente tem um conceito de direito à liberdade, de acordo com o qual posso ser coagida a fazer x ou a deixar de fazer x, mesmo quando, ao não fazer x ou ao não deixar de fazer x, eu não coajo ninguém. Em nome de sua concepção de direito à liberdade, o meu oponente me faz fazer à força aquilo com o que eu não consinto. Será então que, realmente, faz sentido que ele se apresente como um defensor da liberdade, assim como eu, apenas tendo um conceito mais "rico" dela? Particularmente, acho muito curioso esse conceito de liberdade que permite que uma arma seja apontada para mim para que eu faça o que não quero fazer. Será que não seria mais honesto - e mais produtivo para o debate - que o meu oponente assumisse que, para ele, há valores superiores à liberdade, em nome dos quais podemos violar o direito à liberdade sempre que for preciso, como o combate à fome, por exemplo?

Sabe, há momentos na filosofia em que precisamos "morder a bala" [bite the bullet], como dizem os anglófonos. Em outras palavras, nós precisamos aceitar que, ao defendermos determinados valores, podemos estar nos comprometendo com consequências indesejáveis. No meu caso, morder a bala significa aceitar que, como defendo o direito irrestrito à liberdade não agressiva, não posso, ao mesmo tempo, defender que uma pessoa rica seja forçada a amparar um miserável. No caso do meu adversário, como ele defende que os miseráveis sejam amparados pelo Estado com recursos públicos, ele precisa aceitar que ele defende a iniciativa de violência em nome de determinados fins. Não se pode ter o melhor de dois mundos!

“Nada pior como um país feito de Sem-Terra, Sem-Teto, Sem-Cabeça e Sem-Vergonha.” (Mim)

“Grande parte das mulheres que conheço somente foram felizes quando ficaram viúvas. Estou esperando.” (Eulália)

“Meu mundo caiu faz tampo. Ainda estou debaixo dos escombros.” (Climério)

“Gosto muito de visitar cemitérios. Mas de ir em pé.” (Climério)

“Fumo, mas não sou viciado, deixo quando quiser. No ano passado, por exemplo, deixei de fumar 365 vezes.” (Limão)

“Melhor que sexo só mesmo pudim de pão.” (Pócrates)

“Estou preparando o meu testamento. Para quem deixarei minhas sandálias havaianas?” (Climério)

“Prostitutas são mais necessárias à sociedade que os clérigos.” (Pócrates, o filósofo dos pés sujos)

RODRIGO CONSTANTINO- As duas Américas Latinas, segundo o WSJ



Fonte: WSJ
Um ensaio publicado no WSJ retrata duas Américas Latinas distintas, uma que coloca todo o poder no estado, e outra que acredita mais no livre mercado.
O primeiro bloco seria representado pela Venezuela, Argentina, Bolívia, Equador e, sim, Brasil. São os países bolivarianos, que desconfiam da globalização e delegam ao estado enorme controle da economia. É o grupo do Atlântico.
Já o segundo grupo, voltado para o Pacífico, conta com México, Peru, Chile e Colômbia. Abraçam com mais naturalidade o livre comércio e a economia de mercado (nem tanto assim, mas em termos relativos, pode-se dizer que sim).
Como ambos os grupos compartilham aproximadamente da mesma geografia, cultura e história, tal divisão, segundo o autor do ensaio, representa algo similar a um experimento econômico controlado, algo raro nas ciências humanas.
Nos últimos anos, o boom de commodities acabou beneficiando os países do Atlântico, mas com o esgotamento desse modelo, fica claro o destaque relativo do grupo do Pacífico. O primeiro grupo está, agora, pagando o preço de seu protecionismo comercial e intervencionismo econômico.
Em 2014, por exemplo, o grupo do Pacífico deve crescer mais de 4%, mantendo inflação baixa. Já o grupo do Atlântico não deve crescer nem 2,5% (e o Brasil nem deve chegar a 2%), e com uma inflação fora de controle em alguns casos (Venezuela e Argentina) e bastante elevada no Brasil.
O boom das commodities, puxado pelo crescimento chinês, foi como uma loteria para esses países. Acontece que o primeiro grupo não fez o dever de casa, não se preparou para o fim do verão, continuou com impostos elevados, regras do jogo confusas e arbitrárias, baixo investimento em competitividade.
O Chile também depende bastante do cobre, mas nem por isso deixou de fazer, em parte, o dever de casa. Por isso consegue manter boa taxa de crescimento com baixa inflação, mesmo após o fim do ciclo das commodities. A estabilidade política e econômica ajuda, e muito.
É lastimável o fato de que o Brasil, que tinha tudo para liderar o segundo grupo, encontre-se cada vez mais perto do primeiro. Escolha política, apenas isso. O governo do PT sempre flertou com os regimes da Venezuela e da Argentina. Hoje, somos cada vez mais parecidos com esses países, e mais distantes do grupo do Pacífico.
Como um brasileiro citado no ensaio resumiu, o Brasil está se tornando a Argentina, a Argentina está se tornando a Venezuela, e a Venezuela está se tornando o Zimbábue. Triste destino para a região. O contraste com os demais países da América Latina, que seguem receitas opostas, será um divisor de águas cada vez mais claro para os eleitores.
O problema é que as péssimas ideias demoram a morrer, ainda mais em democracias frágeis com instituições republicanas esgarçadas, muita miséria e ignorância, e governos autoritários dispostos ao abuso da máquina estatal para se perpetuar no poder.
Ainda há tempo de o Brasil abandonar o primeiro grupo e se unir ao segundo. Mas é cada vez mais difícil reverter o estrago causado até agora. E para essa mudança de rumo, é necessário tirar o PT do poder, pois o partido já deixou bem claro qual modelo pretende seguir. Não é o que vem dando certo…

‘Aeroportos regionais’, editorial do Estadão

Numa bravata para impressionar investidores menos avisados, a presidente Dilma Rousseff, ao falar a uma plateia de empresários no seminário Brasil-França, Oportunidades de Investimento, realizado em Paris em dezembro de 2012, afirmou que pretendia construir 800 aeroportos regionais no país. Caindo das nuvens, a presidente não demorou a baixar o número para 270 aeroportos, que seriam construídos, reformados e modernizados, de acordo com um plano orçado em R$ 7,3 bilhões. O plano desafiava o bom senso, mas, mesmo assim, uma medida provisória (MP) foi enviada ao Congresso Nacional, convertida em lei em junho de 2013, prometendo revolucionar a aviação regional. Findo o ano, nenhum dos projetos de aviação regional saiu do papel. Todos ficaram para 2014, prometendo a Secretaria de Aviação Civil (SAC) que os primeiros editais serão publicados ainda no primeiro semestre ─ acredite quem quiser!
A SAC nem mesmo identificou as necessidades de investimentos dos campos de aviação planejados, e mais de 60% deles não recebem voos regulares. Para adaptá-los a voos comerciais, são necessários levantamentos aerofotogramétricos locais, análise de impacto ambiental e ─ só depois dessas etapas ─ a elaboração dos projetos de engenharia. O custo disso é estimado em R$ 292 milhões.
A SAC justifica-se dizendo que seis meses foram de trabalho no Congresso até a aprovação da MP. Concluída essa etapa, a Secretaria contratou o Banco do Brasil (BB) como gestor financeiro. O BB dividiu os 270 aeroportos em quatro lotes e abriu 25 licitações para a contratação de empresas para execução de projetos de engenharia.
Até o momento, 16 contratos foram assinados, não alcançando 6% do total. E não se sabe quando os estudos serão concluídos, dada a complexidade das questões técnicas e das negociações com Estados e municípios, que administram a maioria (229) dos aeroportos a serem adaptados. Sob a administração da Infraero são apenas 29. Nos 12 municípios restantes, não existe ao menos uma pista para aviões em condições de segurança, tendo tudo de começar praticamente do zero.
Os estudos técnicos e todo o planejamento, até agora, têm sido “um trabalho extenuante de bastidores”, como afirma Paulo De Lanna Barroso, assessor do ministro Moreira Franco. O problema é que os atrasos se refletem nas condições cada vez mais precárias em que se encontram os aeroportos do interior já servidos por companhias aéreas e que têm experimentado um “boom”, tanto no número de passageiros transportados como no volume de operações.
Levantamento do Estadão Dados mostrou que, nos últimos 12 anos, dos 21 aeroportos de médio e de grande portes que mais registraram aumento do número de conexões, nenhum está localizado em capital de Estado. Segundo a própria Anac, as empresas aéreas têm aumentado o uso de tais aeroportos para diminuir o afluxo de passageiros aos grandes centros e consequentes atrasos nas principais rotas aéreas do país.
Esses aeroportos já muito movimentados exigem investimentos urgentes e para eles não seria necessária a concessão de subsídios como o governo cogita em fazer para estimular o uso de campos de aviação que hoje só funcionam para atender à demanda de aviões executivos. Do lado das companhias aéreas, a melhoria dos aeroportos é condição necessária para elevar a oferta de voos para o interior, mas não suficiente, como disse Adalberto Febeliano, consultor da Associação Brasileira de Empresas Aéreas (Abear). É preciso, é claro, que exista demanda regular, como já se verifica em cidades em que empresas têm realizado investimentos de vulto ou naquelas ligadas à exploração de petróleo e gás.
Contudo, não se tem notícia de que a SAC tenha estabelecido uma escala de prioridades para tocar um programa tão vasto e com tantas particularidades. O programa dos 270 aeroportos do interior hoje não passa de uma enrascada a mais em que se meteu o governo.

LUIZ FELIPE PONDÉ- Alma reptiliana em 2014

FOLHA
Por que, depois de tantas provas de que muitas religiões são uma farsa e alguns de seus ministros são uns picaretas, elas ainda dominam a vida da maioria dos seres humanos? Uma resposta possível está na Pré-História e em nossa "alma reptiliana".
Sou daquele tipo de pessoa que não acredita que mudamos muito nos últimos tempos; para dizer a verdade, acho que, quando pensamos na humanidade, a Pré-História deveria ser mais levada a sério do que surtos como a Revolução Francesa ou coisas passageiras como eleições democráticas.
Ou melhor, a Revolução Francesa deveria ser lida como mais um surto da violência natural que caracteriza toda manifestação de multidões desde o Paleolítico. Gostamos de matar e pronto. E a ideia de "um mundo melhor" é tão metafisica quanto os milenarismos medievais ou o monte Olimpo de Zeus.
Voltemos às religiões. Fenômeno mais essencial do que a política (aliás, só quando vira religião a política reúne multidões, como os fanáticos que creem na política como salvação), e, mais determinante, a religião deita raízes, como tudo mais de humano, na força que de fato nos forma, o desejo, que em nós é atávico como nosso cérebro réptil. E o réptil em nós goza no desejo.
Em nós, o desejo é metafísico, isto é, desejamos um mundo imaterial e eterno, no qual a força dos deuses é nossa, e nela não somos os miseráveis que somos. E para ter esse mundo nos fazemos ainda mais miseráveis, porque nosso pensamento e nossas ideias servem a esse desejo, e não o contrário. Por isso, seguimos picaretas de todos os tipos, que dizem representar os deuses, os santos, os espíritos que controlariam nossos destinos, fracassos e sucessos. No fundo, querem dinheiro, sempre dinheiro.
Não somos seres de razão, somos seres de desejo. É na Pré-História que encontramos a melhor compreensão de nossa "natureza", e não em teorias escritas em gabinetes sofisticados. Em cada um de nós vive um Australopithecus pronto a romper seu exílio em nossas maneiras afetadas de civilizados.
A religião, em grande parte, "organiza os delírios" de nossa mente animal e irracional. Em nós, a razão é superficial como espuma. Mas, diga-se, uma espuma que deve ser cultivada a todo custo.
Para além da chamada "escolha racional" (teoria muito comum hoje em estudos das religiões), teoria esta baseada no utilitarismo inglês que afirma que os seres humanos escolhem racionalmente buscando a redução do mal-estar e a otimização do bem-estar (por isso a religião, na sua hegemonia, seria um modo de escolha que diminui nosso mal-estar), a "inconsciência religiosa" se mantém, em grande parte, graças à estrutura mental pré-histórica.
É fácil imaginar nossos ancestrais apavorados sob o domínio de figuras xamânicas que cuspiam fogo enquanto afirmavam que pragas, doenças e guerras assolariam a vida do bando — o óbvio e ululante, claro. Ou, no caso de desejarem combater essas maldições, eles deveriam matar bichos, matar pessoas, comer comidas sagradas, entoar sons repetitivos, dançar ritmos extáticos, fazer sexo com o sacerdote. Enfim, há um risco de reptilização da fé.
Quando passo diante de um desses templos nos quais as pessoas erguem as mãos e gritam pelo Espírito Santo ou qualquer outra entidade suposta, ouço nossa ancestralidade berrando em plena luz do dia. Pensar que há algo de diferente entre o pré-histórico e nós nisso é confundir o cenário com a dramaturgia que na realidade define os personagens e sua ação.
Claro, hoje, afetados de todos os tipos se dizem contra sacrifícios animais e contra guerras, mas, em dois minutos, pulariam na jugular de quem fosse contra suas pautas de santidade. A verdade do homem não está no que ele diz, mas no que ele faz em nome do que ele diz.
As religiões evoluíram, como tudo mais em nós. Produziram grandes e belos sistemas teológicos e morais. Não nego. Mas o número de pessoas que se submetem a reptilização da fé é enorme, pouco importa o quão inteligentes sejam em outras áreas, ainda creem, em 2014, na capacidade de interpretação desses picaretas do mundo dos espíritos.
luiz felipe pondé
Luiz Felipe Pondé, pernambucano, filósofo, escritor e ensaísta, doutor pela USP, pós-doutorado em epistemologia pela Universidade de Tel Aviv, professor da PUC-SP e da Faap, discute temas como comportamento contemporâneo, religião, niilismo, ciência. Autor de vários títulos, entre eles, "Contra um mundo melhor" (Ed. LeYa). Escreve às segundas na versão impressa de "Ilustrada".

JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO- 2014 começou em 2007

José Roberto de Toledo - O Estado de S.Paulo

A imagem difundida pelas elites partidárias lembra o quadro clássico de Almeida Júnior: o brasileiro seria uma espécie de Jeca político. Fica sentado ao pé da porta picando fumo, e só se mexe de dois em dois anos para ir votar - isso porque o voto é obrigatório. Nada mais superado, para não dizer falso.

O estudo do Estadão Dados publicado ontem sobre as filiações partidárias mostra que essas elites precisam rever os seus conceitos, sob o risco de serem atropeladas pelos fatos - de novo. Em junho, os protestos da juventude urbana em busca de uma causa já passaram por cima do jequismo político de gabinete.

O Brasil tem 18 milhões de filiados a partidos políticos, e crescendo: 77% dessas filiações ocorreram a partir de 1995. Hoje, 11 em cada 100 eleitores são membros de uma agremiação. Pouco? É o triplo da proporção na Alemanha. Se estivesse na Europa, a taxa brasileira seria a terceira maior do continente.

De onde vem tanta partidarização? Das disputas pelo poder local.

Estudando 18 milhões de registros, o Estadão Dados descobriu que o ciclo eleitoral brasileiro tem sete anos de duração e começa sempre no ano anterior a um pleito municipal. É quando os pré-candidatos a prefeito e a vereador se mobilizam para filiar mais eleitores. Só assim eles se viabilizam no partido e na urna.

Quanto maior é a proporção de filiados a um partido numa cidade, maior a chance de aquela legenda lançar candidato a prefeito. Mais candidaturas, mais prefeituras ganhas. Quanto mais máquinas municipais, mais deputados federais a legenda tende a eleger dois anos depois. Mais deputados eleitos significa mais tempo de propaganda na TV. Sem minutos de TV não se elege um presidente.

Esse ciclo eleitoral de sete anos é um fato histórico. Foi a explosão de filiações ao PT em 2003 que permitiu ao partido aumentar o número de prefeitos eleitos em 2004, que, por sua vez, foram essenciais para formar a bancada petista na Câmara em 2006, o que garantiu tempo de propaganda necessário para Dilma Rousseff se eleger em 2010.

O ciclo se comprova quando analisado na ordem inversa. A candidatura presidencial de Eduardo Campos em 2014 só é possível porque o PSB cresceu em deputados federais em 2010 - e isso se deveu, em boa parte, ao aumento das prefeituras ganhas pelo partido em 2008, o que foi fruto da filiação em massa de 2007.

PT e PSB são os dois únicos partidos grandes que têm aumentado seu poder municipal. Os petistas se beneficiaram da conquista do poder federal e triplicaram seus prefeitos desde 2000. No caso do PSB, o crescimento só começou depois da retomada do controle do partido por Miguel Arraes e seu neto, em 2003. Desde então, o partido conquistou 232% mais prefeituras.

No sentido inverso, desde 2000 o PSDB tem cada vez menos prefeitos e influência na política local. Os tucanos se ressentem da perda da máquina federal para o PT e da falta de uma ação municipalista como a do PSB. Mantêm-se no jogo pela inércia, mas o embalo dos anos 90 está mais fraco a cada eleição. Caciques demais e índios de menos encolhem o partido.

O PMDB é campeão de filiados, e, por isso, de prefeitos. Mas é outro que vive das conquistas do passado. Perde prefeituras e, em seguida, deputados federais. Como confederação de caciques regionais, mantém a hegemonia no Congresso, e seu tempo de TV é o mais cobiçado nas eleições presidenciais. Tudo isso depende, porém, das filiações nos anos que antecedem as eleições municipais. Mas também aí o PMDB tem perdido força.
O próximo ciclo de poder começa logo após esta eleição: as siglas que filiarem mais gente, principalmente nas pequenas cidades, tendem a crescer nos sete anos seguintes. Os demais correm risco de encolher. Assim, 2014 definirá o próximo presidente, mas 2015 determinará quem vai mandar no longo prazo.

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