segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

"Não desanimes! Pois mesmo que tu vivas mil anos jamais encontrarás políticos tão medonhos quantos os nossos. O pior já passou, pois agora já os conheces." (Mim)

Quem é progressista?

Denis Lerrer Rosenfield* - O Estado de S.Paulo
Já se tornou lugar-comum considerar progressista uma pessoa de esquerda, como se houvesse equivalência entre esses termos. Tais ideólogos se atribuem uma imagem que esperam ser acatada por todos, como se os cidadãos fossem tolos para aceitar outro embuste. E todos os que não aceitam esse dogma são considerados de "direita", conservadores e reacionários, como se compartilhar esse credo fosse uma premissa básica de qualquer discussão. Ou seja, os ditos progressistas exigem de seus oponentes a submissão prévia à sua crença, a aceitação de sua religiosidade política. Qualquer contestação desses fundamentos conduz ao opróbrio e à heresia.
Há uma espécie de reconforto moral que repousa na indigência intelectual. Basta a recusa do pensamento que se satisfaz com esse tipo de lugar-comum, que, por sua vez, se satisfaz com as invectivas contra o capitalismo e seus males, e daí surgem todas as diatribes contra o lucro e o egoísmo. Tomemos este último termo para melhor percebermos a perversão ideológica. O que é, na verdade, o egoísmo senão um nome que significa a satisfação dos desejos de cada um, de seus interesses particulares ou, mais genericamente, o amor que a pessoa tem por si mesmo? O que há de errado nisso? Pretendem que uma pessoa não realize seu desejo, não satisfaça seus interesses particulares, açoite-se para se exibir contra o egoísmo?
Marx já dizia que a verdade de uma ideia é a sua realização prática, sem o que teríamos utopias vazias e, pior, de concretização possível. Ora, só podemos julgar a validade do socialismo por sua realização na História. Se olharmos para a História, constataremos como realizações socialistas, "progressistas", a aniquilação da liberdade de escolha como a maior de suas façanhas, passando por uma noção bizarra de cidadania que torna todos os indivíduos súditos do Estado. O interesse coletivo, do estatal, impõe-se, então, como forma de correção do "egoísmo", levando, como se sabe, aos campos de reeducação - na verdade, campos de eliminação dos que se recusavam a essa política liberticida.
São famosos os campos de reeducação de Pol Pot, no Camboja, que resultaram no assassinato coletivo de 50% da população do país sob a égide comunista - campos desse tipo se tornaram famosos no livro Arquipélago Gulag, de Alexander Soljenitsyn. O mesmo ocorreu na China sob o maoismo, com, segundo cálculos preliminares, entre 60 milhões e 70 milhões de pessoas mortas.
O mais curioso nisso tudo é que a realização das ideias de esquerda levou até mesmo à proibição de sindicatos, pois, pelo dogma socialista, os "trabalhadores" estariam no poder e, portanto, não precisavam de ninguém para representá-los. Legislação e Justiça trabalhista tampouco seriam necessárias, porque não haveria conflitos a serem equacionados. O caminho estava, assim, aberto ao arbítrio e à tirania do Estado.
Enquanto isso, a sociedade do egoísmo, do lucro e do livre mercado foi equacionando seus conflitos e contradições, criando formas de proteção efetiva dos trabalhadores, conferindo-lhes direitos. O capitalismo, que no dizer dos "progressistas" seria a fonte de todos os males, tornou-se, na História da humanidade, o regime que melhor soube recriar-se, emergindo sempre novo de suas crises. Nas palavras de Schumpeter, o capitalismo caracteriza-se pela "destruição criadora". Poderíamos acrescentar: e o socialismo, pela "destruição aniquiladora".
O capitalismo é o regime que melhor soube extrair as potencialidades da natureza humana, tomada em suas imperfeições constitutivas. Parte do ser humano enquanto desejante e, por isso mesmo, estabelece formas de mediação de conflitos e de preservação dos direitos dos outros. Nascerão de todo esse trabalho de mediação as condições de preservação dos contratos e a criação de um Judiciário independente, capaz de fazer vigorar a universalidade e a impessoalidade das leis.
A satisfação do desejo de cada um, a realização do egoísmo e do amor próprio, deverá passar necessariamente pelo respeito aos desejos e ao egoísmo alheios, dando lugar a todo um sistema de direitos baseado na livre escolha individual. Só o capitalismo foi capaz de erigir um sistema legal e constitucional com base, no nível político, no equilíbrio de poderes entres as instâncias do Executivo, do Legislativo e do Judiciário; e, no nível individual, em regras igualmente válidas para todos.
Eis por que no capitalismo foi erigido todo um conjunto de normas visando a assegurar a liberdade sindical e de organização partidária. Como ninguém encarna a verdade e o bem, não havendo partido que se diga, no exercício do poder, a personificação da virtude revolucionária, todos se devem acomodar a um jogo de pressão e contrapressão no nível sindical e, no nível político, em propostas que tenham como finalidade captar o voto dos cidadãos em nome de uma certa representação do bem comum.
Considerando que nas sociedades capitalistas todos devem ter um mínimo assegurado, foram desenvolvidas formas de atendimento de saúde e de assistência social visando, precisamente, a garantir esse mínimo. Em alguns países capitalistas desenvolvidos foi a saúde pública a criação mais adequada e, em outros, formas de contribuição individual a partir das disponibilidades de cada um, partindo do pressuposto do trabalho de todos. Note-se que nos países de saúde pública esta é real, o que não é o caso da propaganda socialista, como em Cuba, cujos hospitais carecem até de antibióticos. A única exceção são os hospitais para os camaradas comunistas, a Nomenclatura, que usufrui privilégios inacessíveis à população em geral.
Poderíamos seguir com o auxílio-desemprego, limites de horas de trabalho, e assim por diante. Os benefícios do capitalismo são socialmente palpáveis. Contudo a esquerda tupiniquim segue vendendo ilusões. Lá onde elas foram compradas pelo valor de face, como no socialismo real, o cortejo de desgraças foi o seu resultado.
*Denis Lerrer Rosenfield é professor de filosofia na UFRGS. E-mail:denisrosenfield@terra.com.br 

Rodrigo Constantino- Em defesa dos flanelinhas. Ou: O parquímetro tira empregos?

A prefeitura carioca tem um agressivo projeto de modernização dos estacionamentos públicos do Rio, instalando sensores e dispensando o trabalho dos “flanelinhas”, os famosos guardadores cariocas, sempre muito solícitos e educados. Logo surgiu a preocupação “ludista”: e os empregos desses pobres coitados? Como fica isso?
Como presidente da ADEUS (Associação em Defesa dos Empregados Ultrapassados e Sucateados), venho manifestar meu total repúdio a esse avanço tecnológico. Tenho experiência no assunto, pois já presidi a ABPCO também (Associação Brasileira dos Produtores de Coisas Obsoletas), chegando a publicar uma petição protecionista em importante jornal do Estado.
O Brasil agora tem essa mania, de querer copiar as coisas dos Estados Unidos ou Europa, só porque funcionam lá. Quem disse que funcionariam aqui também? É preciso priorizar o emprego ultrapassado, ora! Por exemplo: onde já se viu colocar aqueles sistemas modernos nos elevadores, onde no térreo cada um já digita o andar que deseja ir e o próprio sistema organiza eficientemente cada um dos elevadores? O que fariam os ascensoristas?
O mesmo vale para frentistas dos postos de gasolina. Nos países desenvolvidos, cada um abastece o próprio carro, sem a necessidade de alguém cuja função é retirar a mangueira da bomba e colocar no tanque do carro. Onde já se viu abrir mão de uma função tão importante e elaborada? O que vai fazer este funcionário?
O avanço tecnológico condena ao desemprego muita gente. Por isso Hong Kong e Taiwan vivem imersos no caos social do elevado desemprego, enquanto os países africanos não precisam passar por esse transtorno. Se não tivessem inventado o carro, pensem em quantos produtores de carroças ainda teriam seus empregos intactos!
Abaixo a tecnologia! Viva o ludismo! Vamos dizer não aos parquímetros e preservar o fundamental emprego de flanelinha. Não consigo compreender como os americanos vivem sem esses guardadores civilizados…

Rodrigo Constantino- Covardia chique: o capitalismo nos deixou frouxos?

O filósofo Luiz Felipe Pondé toca em um tema importante e controverso em sua coluna de hoje na Folha: teria o sucesso material capitalista nos transformado em um bando de frouxos? A tese não é nova. O clássico A Rebelião das Massas, de Ortega y Gasset, vai por caminho parecido ao falar dos “senhorzinhos satisfeitos”, das massas que vivem no conforto material e agem como crianças mimadas.
Muitos conservadores criticam tanto os liberais como os esquerdistas (principalmente estes) com base nessa visão. O sucesso capitalista foi tanto em produzir cada vez mais bens materiais acessíveis e conforto, que as novas gerações tomam tudo isso existente como um “direito adquirido”, e acham que basta chorar para mamar, de preferência nas tetas estatais (esforço alheio).
O tema do meu Esquerda Caviar tem ligação direta com isso. Quem pode se dar ao luxo de viver para a defesa das baleias ou das plantas, senão alguém que já desfruta do básico e muito mais? Quem pode ser uma alma tão sensível a ponto de condenar o luxo no mundo, senão aquele que já possui diversos luxos vistos como inatingíveis por gerações anteriores?
Pondé argumenta que foi justamente Adam Smith quem fez esse tipo de crítica ao modelo que defendia. Os “progressistas” preferem a linha política de Rousseau para condenar o capitalismo, mas era Smith que tinha uma visão mais interessante sobre os riscos morais de um sistema extremamente eficiente em prover conforto e luxo. Pondé é taxativo: “O capitalismo deixou todo mundo frouxo”. Eis a explicação:
Smith temia que a sociedade de mercado causasse um enfraquecimento das virtudes heroicas. A perda dessas virtudes (coragem, disciplina e força), causada por uma vida baseada na produção de riquezas materiais e consequente riqueza de bens imateriais (hoje materializados em leis luxuosas sobre direitos, desejos e liberdades numa sociedade baseada em escolhas individuais contra sociedades que esmagam esta escolha sob a bota de modelos coletivistas tradicionais, religiosos ou marxistas), apareceria na covardia generalizada e no vício do bem-estar, material e imaterial.
Os ganhos do bem-estar corromperiam nosso caráter, nos tornaria frouxos. De fato, não podemos olhar para os estados com forte welfare state e negar isso. Tem gente que pensa que é seu “direito” levar uma vida “digna” sem esforço algum, sem trabalho algum, tudo na conta da “viúva”. Acham que as coisas caem do céu, brotam da terra, são criadas ex-nihilo pelo Deus laico da modernidade, o estado. Pondé cita um exemplo à guisa de conclusão:
O novo crescimento do socialismo rosa-choque, inclusive em lideres como Obama, é fruto dessa corrupção. Smith previu as bases para o surgimento do pensamento de Marx e Gramsci: a corrosão do caráter causada pelo enriquecimento das sociedades e suas demandas de supressão das condições reais da vida como dor, luta e trabalho sem garantias.
Sim, Obama é mesmo o ícone dessa corrupção de caráter da modernidade. Alguém que finge ou tenta crer que é possível levar a paz para o Oriente Médio na base da retórica, com belos discursos inflamados, só pode ser filhote de nosso tempo, um “covarde chique” que age como uma alma infantil brincando no playground do prédio seguro.
Obama não precisa sobreviver no Quênia como seu irmão. Ele vem do Havaí, de Harvard, do conforto material que só o capitalismo americano poderia lhe oferecer. A pergunta, portanto, que Pondé usa como afirmação, é pertinente: o capitalismo nos deixou frouxos?

Gustavo Ioschpe -Por que não falar a verdade, ministro?

Em dezembro, foram divulgados os resultados do Pisa, o mais importante teste de qualidade da educação do mundo, realizado a cada três anos com alunos de 15 anos. Como vem ocorrendo desde a primeira edição, no ano 2000, os resultados do Brasil foram péssimos. Ficamos em 58º lugar em matemática, 59º em ciências e 55º em leitura, entre os 65 países que participaram. Caímos no ranking nas três áreas, em relação à prova anterior. Como já havia acontecido em edições passadas, nem nossa elite se salvou: os 25% mais ricos entre os alunos brasileiros tiveram desempenho pior que os 25% mais pobres dos países desenvolvidos (437 pontosversus 452 pontos em matemática).
A Alemanha, assim como o Brasil, também participa do Pisa desde 2000. Quando os resultados daquele ano foram divulgados, os alemães descobriram que o país de Goethe, Hegel e Weber tinha ficado em 21º lugar entre os 31 participantes daquela edição, abaixo da média dos países da OCDE. Os dados caíram como uma bomba. A presidente da Comissão de Educação do Parlamento alemão disse que os resultados eram uma “tragédia para a educação alemã”. A Der Spiegel, a mais importante revista do país, refletiu a tragédia com a seguinte manchete na capa: “Os alunos alemães são burros?”. O alvoroço levou inclusive à criação de um game show na TV alemã.
No dia do anúncio dos resultados da última edição do Pisa, a reação brasileira foi bem diferente. Nosso ministro da Educação, Aloizio Mercadante, convocou uma coletiva de imprensa para declarar que o Pisa era uma “grande vitória” da educação brasileira e um sinal de que “estamos no caminho certo” (rumo ao fundo do poço?). Recorreu à mesma cantilena de seu antecessor, Fernando Haddad: “A foto é ruim, mas o filme é muito bom”. Ou seja, a situação atual ainda não é boa, mas o que importa é a evolução dos resultados. E nesse quesito Mercadante fez um corte bastante particular dos resultados (focando apenas matemática, e só de 2003 para cá) para afirmar que o Brasil era “o primeiro aluno da sala”, o país que mais havia evoluído. Sem mencionar, é claro, que evoluímos tanto porque partimos de uma base baixíssima. Quando se parte de quase nada, qualquer pitoco é um salto enorme.
Essas reações são tão previsíveis que escrevi um artigo, disponível em Veja.com, um dia antes da fala do ministro, não só prevendo o teor da resposta como até o recurso à sétima arte (todos os links disponíveis em twitter.com/gioschpe). Mas, apesar de esperada, a resposta do ministro me causa perplexidade e espanto. Ela é muito negativa para o futuro da educação brasileira.
Eis o motivo da minha perplexidade: Mercadante e seu MEC não administram as escolas em que estudam nossos alunos de 15 anos. Dos mais de 50 milhões de estudantes da nossa educação básica, mero 0,5% está na rede federal. No Brasil, a responsabilidade por alunos do ensino médio é fundamentalmente de estados (85% da matrícula) e da iniciativa privada (13%). O MEC administra as universidades federais e cria alguns balizamentos para a educação básica, além de pilotar programas de reforço orçamentário para questões como transporte e merenda escolar, entre outras funções. A tarefa de construir as escolas, contratar e treinar os professores e estruturar o sistema é dos estados. No ensino fundamental, dos municípios. Portanto, os resultados do Pisa não representam um atestado de incompetência do Ministério da Educação. A maior parte da responsabilidade está certamente com estados e municípios. Além do mais, a tolerância do brasileiro para indicadores medíocres na área educacional é sabida e, ao contrário da Alemanha em 2000, não havia nenhuma expectativa de que tivéssemos um desempenho estelar no Pisa. Por que, então, o ministro não pode vir a público e dizer a verdade: que nossa situação é desastrosa, e que enquanto não melhorarmos a qualidade do nosso ensino continuaremos a chafurdar no pântano do subdesenvolvimento e da desigualdade? Não haveria custo político para Mercadante nem para o PT, já que o problema da nossa educação vem de antes da era lulista, e estados administrados por partidos de oposição tiveram resultados tão ruins quanto os da situação. Até entendo que seu antecessor se valesse dessa patacoada, pois teve uma gestão sofrível e era um neófito político em busca de divulgação, mas Mercadante já é um político consagrado e está fazendo uma boa gestão, a melhor da era petista; não precisa disso.
Antes que os patrulheiros venham com suas pedras, eu me adianto: o ministro não mentiu em suas declarações, apenas tapou o sol com a peneira. Fez uma seleção de dados destinada a conferir uma pátina brilhante a um cenário que na verdade é calamitoso. E esse malabarismo político, longe de ser apenas mera questão de conveniência pessoal, é muito ruim para o país.
Vocês que me leem há algum tempo sabem que estou convencido de que o grande entrave para a melhoria da qualidade educacional brasileira é o fato de que nossa população está satisfeita com nossa escola (em pesquisa do Inep com amostra representativa de pais de alunos da escola pública, a qualidade do ensino da escola do filho teve uma inacreditável nota média de 8,6. Realidade africana, percepção coreana...). Enquanto a população não demanda nem apoia mudanças, os governantes não têm capital político para encarar a força obstrucionista dos sindicatos de professores e funcionários (um contingente absurdamente inchado de 5 milhões de pessoas). Excetuando VEJA, este colunista e mais meia dúzia de quixotes, toda a discussão nacional sobre o tema é dominada por mantenedores do status quo. Canais de TV buscam sempre alguma história de superação individual, para dar um contorno feliz a uma história triste. Rádios estão preocupadas com debates inflamados, a despeito da veracidade do que é discutido, quer o assunto seja educação, política ou futebol. Jornais acham que aprofundar um assunto é dar os dois lados da moeda, como se educação fosse questão de opinião, não de pesquisa. Empresários não querem falar nada que gere conflito; a maioria dos intelectuais é também professor e tem interesses pecuniários; políticos em geral querem se tornar prefeitos ou governadores. Nesse cenário, quem é que vai falar para o brasileiro aquilo que ele não quer ouvir? O candidato natural é o ministro da Educação. Imaginem que fantástico seria se Mercadante tivesse vindo a público para dizer: “O Brasil foi muito mal no Pisa. Nossos alunos não estão aprendendo o que precisam. Está na hora de encararmos essa realidade. Temos uma enorme crise educacional — o que, na Era do Conhecimento, significa que enfrentamos um gravíssimo problema. Para vencê-lo, todos teremos de arregaçar as mangas e trabalhar mais. Este ministério não administra nossas escolas, mas estamos à disposição de todos os prefeitos, governadores e secretários de Educação que querem melhorar”.
Essas palavras poderiam marcar o início de uma nova era. E isso não traria custo político ao ministro. Acho até que geraria benefícios. São palavras de um estadista, de alguém que se preocupa com o futuro dos milhões de alunos que hoje estão sendo massacrados por um sistema educacional inepto.
P.S.: Depois da comoção de 2000, a Alemanha deu um salto. Neste último Pisa, ficou bem acima da média obtida pelos países da OCDE, abocanhando o 12º lugar em ciências, o 16º em matemática e o 19º em leitura.

Janer Cristaldo -A NOVA PRAGA URBANA

De uma boa amiga, leio no Facebook:

“Sou do tempo em que não havia shoping em Floripa, continuo sem saber do que se trata...Ouço e leio sobre os Rolezinhos não entendi o propósito. Realmente sou da antigas, onde dar uma banda ou um roler , era ir até o Parque da Luz curtir o por do sol. Sou do tempo em que não havia shoping em Floripa, continuo sem saber do que se trata...Ouço e leio sobre os Rolezinhos não entendi o propósito. Realmente sou da antigas, onde dar uma banda ou um roler, era ir até o Parque da Luz curtir o por do sol”.

Bom, sou mais antigo. Sou de 47. E só fui entrar em um shopping 53 anos depois. É que antes os shoppings eram longe dos centros. Dependiam em geral de automóvel. Em 2000 foi instalado um shopping a uma quadra de onde moro, e seria preconceito nele não entrar. No mínimo, falta de curiosidade.

Aos poucos, fui me habituando. O shopping é um dos mais solenes de São Paulo. Tem o básico para a sobrevivência: bares, cervejaria e farmácia. E ar condicionado. Como vai de uma rua a outra, nos dias em que “tá sol” – como dizem os paulistanos – é um refrigério para atravessar a quadra. Tem uma das mais fartas e simpáticas livrarias da cidade, com cerca de100 mil títulos, a Livraria da Vila. É ainda um território muito freqüentado por mulheres cheias de charme. Não há como não entrar.

Há os que compram. Como também os que não podem comprar e se comprazem só em olhar. É o que chamo de lambedores de vitrine, que abundam nos fins de semana e viram praga no Natal. Enfim, sonhar também é bom. Em suma: pelo menos aqui, é ambiente muito sofisticado, com balconistas elegantes e sempre afáveis. É o meu shopping, o único em que entrei na vida. Há quem se espante quando falo em meu shopping. Ora, se dizemos meu bar, minha rua, por que não meu shopping?

Acresce ainda que, ao lado da farmácia – cheguei àquela idade em que os farmacêuticos se tornam íntimos – há uma desgraça para o bolso, uma loja Fast. Desde o tempo que moro aqui, é nela que atualizo meus computadores. Nestes 23 anos, já terão sido uns cinco. Sou da época dos PCs esteatopígicos. Meu primeiro computador, comprei em 90, quando vivia em Curitiba. Tinha – juro – 40Mb de memória, e me custou quatro mil dólares. Isso que foi “importado” do Paraguai, onde os computadores eram bem mais baratos do que aqui.

Ainda nesta semana, fui tomado de amores por uma máquina que, a meu ver, está se aproximando do computador ideal, arquetípico, aquele que ainda paira no mundo platônico das idéias, antes de o demiurgo decidir criar as coisas a partir das mesmas. Para Platão, no mundo existem diversos tipos de cães – grandes, pequenos, claros, escuros, etc — mas apesar das diferenças, todos eles são cães, ou seja, todos têm em si a essência do que é um cão. Mas não são o cão, aquele que só existe no mundo perfeito das idéias, ao lado da Verdade, do Bem, do Humano.

É um Lenovo, Yoga 11, doublê de tablet e computador. Sem drive para DVDs, este achado tão recente e que já está se tornando obsoleto. Teclado confortável, pesa 1,3 k. Para minha surpresa, descobri que era chinês. A Lenovo está em terceiro lugar no ranking de vendas, ameaçando a Apple e a Samsung. Admirável China nova. Ontem comunista e atrasada, hoje competindo firme com o mundo capitalista.

Fosse consumista, teria aderido imediatamente ao Yoga. Mas estou bem servido com dois HPs, um de mesa e um notebook. Fica pra daqui a um ano ou mais, quando os chineses talvez tenham chegado ao computador que paira no eidos, o mundo das idéias. Por enquanto, vou continuar navegando no mundo da caverna e das sombras.

Mas falava de shoppings. Minha amiga diz não entender o propósito da nova moda, os ditos rolês. Eu entendo. São rescaldos da gloriosa Revolução de Junho de 2013, aquela que Veja comparava à queda do muro de Berlim e a invasão da Áustria pelos húngaros em 89.

“Esqueçamos os vândalos e os anarquistas, gente que não estava lutando por um governo melhor, mas por governo nenhum. A revolução verdadeira foi a que começou a ser feita pelos brasileiros que foram às ruas protestar por estar sendo mal governados” – escrevia a revista, para bem salientar que de revolução se trata. Qualquer dia o redator vira editor, como aconteceu com Eurípides Alcântara, quando caiu no conto do boimate.

Os desocupados – que são milhares no país – descobriram que é fácil perturbar a vida das cidades e de quem trabalha e, de inhapa, ganhar a simpatia de jornalistas que têm o coração à esquerda. Invadir um shopping é atacar o capital e o consumo, esse mesmo consumo que, por supérfluo que seja, espalha dinheiro por vasos capilares, que chegam até o mais humilde dos cidadãos. O sonho não morreu. Cuba e Coréia do Norte ainda desfraldam a bandeira do mundo sem desigualdades, ao menos para ingênuos verem.

Os rolezinhos – que estão sendo comparados a inofensivas e mesmo criativas flash mobs – vão continuar, com a complacência das autoridades ante os “jovens”. Alguns shoppings já conseguiram liminar na Justiça paulista que autoriza a proibição de tais arruaças, convocadas através da internet, quer em sua parte interna ou externa, sob pena de incorrer cada manifestante identificado na multa de R$ 10 mil por dia.

Pago para ver. Enquanto os “jovens” não forem em cana, a vida das cidades continuará sendo perturbada. Os shoppings, locais públicos, aos quais tem acesso uma cllentela minimamente endinheirada, são o alvo ideal. Declarando guerra ao consumo, os “jovens” – como a imprensa gosta de dizer – aproveitam o azo para saquear lojas. 

As capitais do país – ninguém duvide que o movimento vai se espalhar – terão de conviver pelos próximos anos com esta nova praga urbana.

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