sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

RUI BARBOSA

SINTO VERGONHA DE MIM
Sinto vergonha de mim
por ter sido educador de parte desse povo,
por ter batalhado sempre pela justiça,
por compactuar com a honestidade,
por primar pela verdade
e por ver este povo já chamado varonil
enveredar pelo caminho da desonra.
Sinto vergonha de mim
por ter feito parte de uma era
que lutou pela democracia,
pela liberdade de ser
e ter que entregar aos meus filhos,
simples e abominavelmente,
a derrota das virtudes pelos vícios,
a ausência da sensatez
no julgamento da verdade,
a negligência com a família,
célula-mater da sociedade,
a demasiada preocupação
com o “eu” feliz a qualquer custo,
buscando a tal “felicidade”
em caminhos eivados de desrespeito
para com o seu próximo.
Tenho vergonha de mim
pela passividade em ouvir,
sem despejar meu verbo,
a tantas desculpas ditadas
pelo orgulho e vaidade,
a tanta falta de humildade
para reconhecer um erro cometido,
a tantos “floreios” para justificar
atos criminosos,
a tanta relutância
em esquecer a antiga posição
de sempre “contestar”,
voltar atrás
e mudar o futuro.
Tenho vergonha de mim
pois faço parte de um povo que não reconheço,
enveredando por caminhos
que não quero percorrer…
Tenho vergonha da minha impotência,
da minha falta de garra,
das minhas desilusões
e do meu cansaço.
Não tenho para onde ir
pois amo este meu chão,
vibro ao ouvir meu Hino
e jamais usei a minha Bandeira
para enxugar o meu suor
ou enrolar meu corpo
na pecaminosa manifestação de nacionalidade.
Ao lado da vergonha de mim,
tenho tanta pena de ti,
povo brasileiro!
“De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer a injustiça,
de tanto ver agigantarem- se os poderes
nas mãos dos maus,
o homem chega a desanimar da virtude,
A rir-se da honra,
a ter vergonha de ser honesto”
Rui Barbosa
A poesia de Rui Barbosa, transcrita a acima
poderia ter sido escrita hoje sem mudar uma palavra…
 (Rui Barbosa deixou de ser senador em 1892 e faleceu em 1923.)


JANER CRISTALDO-VIÚVAS SAUDOSAS DO KREMLIN SONHAM RESSUSCITAR FINADA LUTA DE CLASSES

A respeito de minha crônica sobre a nova praga urbana, me escreve um leitor: 

“Que artigo absurdamente preconceituoso, elitista e raso. Por favor, os jovens que estão fazendo o chamado rolezinho não estão protestando contra o consumo,pelo contrário, estão justamente tentando interagir com as melhores lojas, que vendem as marcas que eles cobiçam. Colocar acima de tudo a balança comercial e o sossego das classes mais favorecidas é seguir com a política de ignorar a desigualdade e a injustiça social do nosso país. Todos têm o direito de frequentar um local público, mas é mais fácil deixar os pobres, os feios, escondidos nas favelas. Ok, depois não reclame quando encontrar um deles no sinal. Não existe a conotação de guerra ao consumo, novamente digo, pelo contrário, eles estão indo ao shopping com suas melhores roupas, tentando mostrar poder de consumo, algo que lhes é renegado desde sempre. Ainda bem que o senhor pertence a uma geração em extinção, pois este tipo de pensamento é justamente o que impede que tenhamos uma real critica e evolução em relação aos nossos problemas sociais. Na minha opinião, vergonhosa manifestação a sua, com todo respeito".

Ora, nunca foi proibida a entrada de pobres num shopping. Podem entrar, sair, passear e comprar o que quiserem, se tiverem dinheiro para tanto. O que não podem é fazer arruaça, e é o que estão fazendo. A imprensa tem sido cúmplice nos tais de rolezinhos, passando a mão na nuca dos “jovens”. Eles encontraram uma fórmula eficaz para fazer baderna, que não será fácil contornar.

“Eles estão indo ao shopping com suas melhores roupas, tentando mostrar poder de consumo, algo que lhes é renegado (sic!) desde sempre”. Acho que você quis dizer negado. Poder de consumo não se nega. Se tem ou não se tem. Tem poder de consumo quem trabalha e ganha pelo menos razoavelmente.

Ou o leitor pretende que as roupas de grife caiam dos céus? As justificativas para a baderna estão sendo assumidas pelas esquerdas, e só podem ser assumidas a partir de uma mentira, a de que negros são barrados nos shoppings. Vejo negros entrando e saindo dos shoppings, outros trabalhando nesses, e nunca tive notícias de qualquer proibição à entrada de negros.

Só agora, com o surgimento das badernas, negros estão sendo interpelados. Afinal, quem atesta que negros constituem boa parte dos bagunceiros, é nada menos que o prefeito petista, Fernando Haddad. Que escalou o secretário da Igualdade Racial, Netinho de Paula, para dialogar com organizadores dos eventos nos shoppings. 

Luciana Genro, saudosa dos bons tempos da URSS, ressuscita a luta contra o capitalismo:

“Eu detesto shopping. Só vou por causa dos cinemas. Não é por uma questão ideológica, eu simplesmente me sinto mal com aquele apelo ao consumo desenfreado, inclusive dos vendedores que sempre querem te empurrar alguma coisa mais, desesperados para aumentar seu mísero salário com as comissões de venda. E o shopping é o templo do capitalismo, justamente por causa deste apelo. Consumir é vital, pois no capitalismo tudo é mercadoria (inclusive a força de trabalho do ser humano). Mas é somente na troca (compra e venda) que o valor das mercadorias se realiza. Paradas elas não valem nada. Por isso a busca permanente por criar novidades e gerar necessidades. O que temos tem que se tornar obsoleto para que sejamos compelidos a consumir, realizar o valor das mercadorias, e assim fornecer combustível para o capitalismo”.

Para a agitprop do PSOL, paradas as mercadorias não valem nada. “Por isso a busca permanente por criar novidades e gerar necessidades”. E gerar empregos, esqueceu a moça. Por supérflua que seja uma necessidade, na outra ponta gera trabalho. Perturbar o comércio dos shoppings é ameaçar o emprego de milhares de pessoas que neles encontram seu sustento.

“Mas para que a troca seja possível é preciso a igualdade jurídica. No escravismo, por exemplo, a troca era algo excepcional e a desigualdade entre os indivíduos era parte essencial das relações sociais. Não era preciso igualdade, ao contrário, a sociedade era movida a chibatadas. Neste sentido o capitalismo foi uma evolução tremenda. Com a generalização da troca a igualdade tornou-se um imperativo, pois é necessário que eu reconheça no outro um igual para que possa com ele trocar”.

Como se um lojista precisasse reconhecer alguém como igual para vender-lhe algo. Comerciante vende para quem puder pagar, seja rico, seja pobre. Dinheiro não tem cor nem cheiro. Jamais tive notícias de alguém se recusando a vender a um pobre. E consumir é vital, sim senhora! Ou Luciana ainda não recebeu notícias do desmoronamento daqueles regimes onde o consumo praticamente inexistia, devido à falta de dinheiro ou de objetos de consumo?

Outra a mentir descaradamente foi a ministra da Igualdade Racial, Luiza Bairros (PT), que acusa a polícia e os frequentadores de shoppings de discriminar jovens negros nos "rolezinhos".

"As manifestações são pacíficas. Os problemas são derivados da reação de pessoas brancas que frequentam esses lugares e se assustam com a presença dos jovens." Para ela, a liminar que autorizou os shoppings a barrar clientes "consagra a segregação racial" e dá respaldo ao que a PM "faz cotidianamente": associar negros ao crime.

Como se a liminar - que aliás restará inútil – interditasse a entrada de negros em qualquer shopping. Acusasse alguém os negros que ora invadem shoppings, seria imediatamente processado como racista. Dona Luiza acusa tranquila – e impunemente - os brancos. Diga-se de passagem, não é de hoje que o PT manifesta uma postura racista.

Em outubro de 2011, Marta Suplicy, ministra da Cultura, lançou editais para beneficiar apenas produtores e criadores negros. "É para negros serem prestigiados na criação, e não apenas na temática. É para premiar o criador negro, seja como ator, seja como diretor ou como dançarino", disse então a ministra à Folha de São Paulo. A decisão foi tomada em reunião em Brasília com esta mesma senhora, a ministra Luiza Bairros. Estranha igualdade racial que excluí brancos e mulatos da participação nos editais e agora defende as bagunças de negros nos shoppings. Não me confunda o leitor com racistas como Haddad ou a Bairros. Quem está definindo as invasões como sendo de negros, são estes dois próceres do PT. Pelo que vejo na imprensa, brancos também participam das invasões.

Nada de espantar, afinal o racismo foi oficializado dia 26 de abril daquele ano, seis meses antes dos editais do Minc, quando a suprema corte judiciária do país o legalizou, por unanimidade, no país. Naquela data, o STF revogou, com a tranqüilidade dos justos, o art. 5º da Constituição Federal, segundo o qual todos são iguais perante a lei sem distinção de qualquer natureza. A partir de então, tornou-se legal a prática perversa instituída por várias universidades, de considerar que negros valem mais do que um branco na hora do vestibular. Parafraseando Pessoa: constituições são papéis pintados com tinta. Que podem ser rasgados ao sabor das ideologias. 

Alvíssaras! Ainda há esperanças. Os velhos – e jovens – comunossauros continuam sonhando com aquela sociedade onde não há consumo. Nem empregos.

RODRIGO CONSTANTINO- Os chacais no poder: a era da vulgaridade

Dando mais um “rolezinho” (essa moeda pega) nos meus arquivos, encontrei esse artigo bastante atual, adequado para os assuntos do cotidiano. Trata-se de um texto inspirado no clássico de Lampedusa. Boa leitura!
Os chacais no poder
“A característica do momento é que a alma vulgar, sabendo que é vulgar, tem a coragem de afirmar o direito da vulgaridade e o impõe em toda parte.” (Ortega y Gasset)
Não sou um saudosista e jamais idealizei o passado. Longe disso! Acredito que todo saudosista costuma se imaginar como parte da aristocracia no passado, nunca como um dos plebeus, cuja vida era dureza. Dito isso, parece-me inegável que algo se perdeu nesta transição para os regimes populares modernos. As conquistas, em minha opinião, compensam as perdas com ampla margem. Mas estas existem. Principalmente se levarmos em conta as promessas anteriores às mudanças. E ao ler o excelente livro O Gattopardo, de Tomasi Di Lampedusa, esta é a sensação que fica.
O livro, único romance escrito pelo italiano, ele mesmo de família nobre, retrata com ares autobiográficos a decadência da nobreza siciliana, durante a revolução liderada por Garibaldi no século XIX. O Príncipe Fabrizio Salina, personagem principal, encarna o pessimismo de quem “contemplava o ruir da sua casta e do seu patrimônio sem nada fazer e sem nenhum desejo de remediar o desastre”. Ele era apenas um observador dos acontecimentos que pareciam inevitáveis em seu tempo.
A passagem mais famosa do livro é também uma de suas mais importantes lições. O sobrinho querido de Don Fabrizio, Tancredi, ao decidir se alistar nos exércitos garibaldinos, explica ao tio sua lógica: “Se nós não estivermos presentes, eles aprontam a república. Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude”. No primeiro momento, estas palavras ficariam registradas na memória de Don Fabrizio, mas somente com o tempo ele teria uma compreensão mais clara de seu completo significado. A promessa de “tempos gloriosos” para a Sicília já durava algum tempo, e muitos tiros tinham sido disparados por tal objetivo. Mas nenhuma mudança estrutural ocorreria de fato.
As palavras enigmáticas de Tancredi adquiriam maior clareza: “Muita coisa ia acontecer, mas seria tudo uma comédia, uma comédia ruidosa e romântica com algumas manchas de sangue no traje burlesco”. O resultado da “revolução” seria apenas uma “lenta substituição de classes”. E as novas classes que subiriam ao poder não seriam melhores que as antigas; pelo contrário: “Nós fomos os Gattopardos e os Leões; os que vão nos substituir serão pequenos chacais, hienas; e todos, Gattopardos, chacais e ovelhas continuaremos a crer que somos o sal da terra”. 
A sensação de asco que o nouveau riche Calogero Sedàra despertava em Don Fabrizio era total, sinal dos tempos modernos. A insensibilidade à graça de objetos ilustres no palácio era indiretamente proporcional à atenção ao valor monetário dos bens. Don Fabrizio, de repente, sentiu que o odiava; “era ao afirmar-se dele, de cem outros semelhantes a ele, às suas obscuras maquinações, à sua persistente avidez e mesquinharia que se devia a sensação de morte que agora pesava sobre esses palácios”. Os novos donos do poder e do dinheiro eram brutos se comparados aos nobres de antes.
Na resenha que Mário Vargas Llosa fez do livro de Lampedusa, merece destaque o contraste do autor frente ao modismo de sua época, na década de 1950, quando a literatura estava impregnada de ideologia e todos deveriam seguir a posição moral e politicamente correta a favor do progresso da humanidade. As utopias estavam no auge da fama, e muitos sonhavam com as revoluções socialistas que trariam o paraíso à Terra. O livro, com mensagem mais pessimista – ou realista, diriam alguns –, faria um alerta contra o romantismo destes que pensam ser possível atingir alguma perfeição quando se trata de modelo social.
Vargas Llosa resume: “Em vez de um lustroso gattopardo, o símbolo do poder será uma flâmula tricolor. Mas, sob essas mudanças de nomes e de rituais, a sociedade se reconstituirá, idêntica a si mesma, em sua imemorial divisão entre ricos e pobres, fortes e fracos, senhores e servos. Variarão as maneiras e as modas, porém para pior: os novos chefes e donos são vulgares e incultos, sem os refinamentos dos antigos”. E não acabaram quase sempre assim todas as revoluções redentoras, que iriam colocar um fim nas divisões de classes?
Para Étienne La Boétie, em seu Discurso Sobre a Servidão Voluntária, os vários atentados realizados contra imperadores romanos “não passaram de conspirações de pessoas ambiciosas, cujos inconvenientes não se deve lamentar, pois se perceber que desejavam, não eliminar, mas remover a coroa, pretendendo banir o tirano e reter a tirania”. A própria Revolução Francesa eliminou a nobreza para colocar em seu lugar o Terror de Robespierre.  
A última passagem de A Revolução dos Bichos, de Goerge Orwell, desfere similar golpe aos utópicos: “As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco”. O destino daqueles que acreditam nas promessas de barbudos “salvadores da pátria” será invariavelmente o mesmo: trocar seis por meia-dúzia na melhor das hipóteses; ou por algo muito pior na mais provável delas. Sai uma arrogante aristocracia, e entra um metalúrgico ignorante com mais sede ainda pelo poder, mais corrupto ainda que seus antecessores. São os chacais alçados ao poder pelos idiotas que, de repente, descobriram que são em maior número.
Como o regresso ao feudalismo não é desejável de forma alguma, só resta aos liberais seguir na luta por reformas constantes, na batalha realista por uma gradual evolução da sociedade, rejeitando as soluções revolucionárias mágicas e tentando limitar o estrago causado pelos chacais famintos.    
Rodrigo Constantino  

RODRIGO CONSTANTINO- Da superioridade de alguns e da inferioridade de outros. Ou: Somos todos Bin Ladens!


Meu primeiro texto sobre os “rolezinhos” deixou a esquerda em polvorosa. O que pegou foi um trecho em que usei o termo “inferioridade”, pecado dos pecados na era do politicamente correto, quando os inferiores chegaram ao poder. Cortaram um parágrafo e espalharam pelas redes sociais, tentando distorcer o contexto, acusando-me de “fascista”, “nazista” ou “preconceituoso”. Era esse o trecho:
Não toleram as “patricinhas” e os “mauricinhos”, a riqueza alheia, a civilização mais educada. Não aceitam conviver com as diferenças, tolerar que há locais mais refinados que demandam comportamento mais discreto, ao contrário de um baile funk. São bárbaros incapazes de reconhecer a própria inferioridade, e morrem de inveja da civilização.
Foi o suficiente para a baba de ódio escorrer do canto da boca dos pobrezinhos, ou para os mais malandros, porém pérfidos, usarem a passagem na tentativa de me atacar perante os desatentos. Vejam que logo abaixo vinha essa outra passagem, deliberadamente ocultada:
Notem que isso não depende da conta bancária ou da cor da pele! Como eu disse, vários pobres ou negros frequentam esse tipo de estabelecimento numa boa, sem problema algum, como deve ser. Por outro lado, é bem capaz de que gente da esquerda caviar, da elite intelectual ou financeira, aplauda a barbárie dos “rolezinhos” para se sentir “engajada” e fugir justamente da pecha de preconceituoso.
Mas tudo isso já foi melhor explicado aqui. Não é o foco desse texto. O que pretendo, agora, é utilizar essa reação histriônica como sintoma de uma grave doença moral da era moderna. Afinal, muita gente realmente parece pensar que a simples menção do termo “superioridade” remete ao nacional-socialismo de Hitler, um antiliberal fanático. Isso é patético, mas sintomático.
Um desses esquerdistas que me chamou de fascista nas redes sociais escreveu: “Acreditamos que não existem cidadãos superiores ou inferiores e trabalhamos para promover a liberdade e a igualdade de todos os brasileiros”. O que ele quis dizer com isso? Que Ruy Barbosa não era superior ao Delúbio Soares? Que Joaquim Nabuco não era superior ao Lula ou ao Sarney? (Esse, não custa lembrar, é visto como “homem incomum” pelo Lula)
Que igualdade é essa que a esquerda deseja? Aquela de todos perante as leis, uma bandeira liberal? Não. É a igualdade das colônias coletivistas, dos insetos gregários, nivelando por baixo, à exceção da “nomenklatura” do poder. Se todos somos iguais mesmo, sem hierarquia, e se há no mundo gente como Bin Laden, então somos todos Bin Ladens! Assim, ao menos, pensa o esquerdista. Talvez seja projeção freudiana, vai saber…
Nelson Rodrigues, que remava contra a maré vermelha da estupidez em sua época, gostava da tese de que o marco da modernidade era a descoberta, feita pelos idiotas, de que estavam em maior quantidade. Era a análise de Ortega y Gasset também. Foi o caos: os vulgares, feito crianças mimadas, começaram a exigir mais do que seu “direito” à vulgaridade; era preciso enaltecê-la como o que havia de mais sofisticado no mundo!
Quando falamos em superioridade e inferioridade, antes é preciso definir: em relação a quê? Se for moral, por exemplo, só um ser imoral pode defender a tese de que somos todos iguais, ou “apenas diferentes”. Como já disse, o papa João Paulo II ou um estuprador de crianças seriam equivalentes. Alguém da esquerda está mesmo disposto a sustentar isso?
Se for cultural, ora, somente alguém muito covarde para abraçar o multiculturalismo. Quer dizer que não há grau de hierarquia alguma entre o que o Ocidente criou até aqui e o estilo de vida dos nambiquaras? Quer dizer que entre os hábitos e costumes, estoque de conhecimento e valores dos suíços e dos aborígenes, é absurdo afirmar que há clara superioridade de um dos lados?
Por que tanto medo de atestar o óbvio? Por que esse discurso sensacionalista, mentiroso, covarde da “igualdade plena” entre indivíduos e culturas? Jamais vi alguém superior com tal discurso. Apenas gente que adoraria suspender qualquer tipo de julgamento moral ou ético, para nivelar todos por baixo. Por que será?
Podemos, agora, falar da minha própria inferioridade, para facilitar a compreensão de alguns. Do ponto de vista cultural, não resta a menor sombra de dúvida que considero muitas pessoas superiores a mim. Olho para eles, com sua vasta cultura, refinamento estético, sensibilidade apurada e estoque de conhecimento, com profunda admiração.
Quem olha para as pessoas ou culturas melhores com inveja já dá atestado da própria inferioridade. Richard Bach retratou isso muito bem em Fernão Capelo Gaivota. Aquela gaivota que se destacava no bando, pois tentava vencer os limites da própria natureza e voar mais alto, logo virou uma renegada e teve de ir embora (muitos desejam que eu me mude para Miami, só para constar). Pura inveja.
Descobriu, então, algumas outras gaivotas melhores do que ela, em um ambiente onde esse tipo de coisa não era tabu, e sim algo respeitado, natural. Ela podia, agora, aprender com essas outras gaivotas coisas que não conhecia. Podia, enfim, evoluir, algo que somente quem está aberto para a existência do conceito de melhor ou pior pode fazer.
Os igualitários adorariam uma sala de aula sem provas ou notas! Afinal, ali já fica claro que, em certa medida, há alunos melhores e piores. O filme Os Incríveis retrata bem isso quando a família poderosa precisa disfarçar seus poderes, e a mãe manda o Flecha perder de propósito a corrida, confortando-o de que todos continuam sendo especiais. O garoto retruca com um xeque-mate: “Se todos são especiais, ninguém é especial” (se tudo é arte, nada é arte).
A dolorosa verdade que choca as “almas sensíveis” da era moderna. Em busca da “autoestima”, repete-se uma falácia por aí, o tempo todo: a de que todos são especiais, ou tão bons quanto os demais. Eu não sou tão bom em futebol como o Neymar, não tenho a mesma cultura do João Pereira Coutinho (adoraria), ou o mesmo conhecimento filosófico do Pondé, não escrevo bem como meu vizinho Reinaldo Azevedo, não tenho a mesma habilidade musical do Arnaldo Cohen, enfim, tenho minhas várias limitações.
O que tento ser é o melhor daquilo que posso, e para tanto é necessário esforço contínuo, sacrifícios pessoais. Não é vendo futebol, novela e BBB o dia todo, ou dando “rolezinho” com a turma no shopping, que chegarei lá, disso estou certo. O hábito faz a virtude, como sabia Aristóteles. Escolhas precisam ser feitas.
E justamente porque há a alternativa, o livre-arbítrio, a escolha, é que podemos julgar. Fôssemos todos pré-programados, determinados pela genética, eu concordo que não faria tanto sentido julgar o mérito, analisar a superioridade ou inferioridade (ainda que isso possa ocorrer mesmo sem nosso mérito em alguns casos, na loteria da vida).
É porque existe a opção disponível para cada um de nós, de ser alguém melhor, de fazer mais, de agir de maneira correta e decente, de beber da cultura existente, que falamos em superioridade. A civilização depende da constatação desse fato. A alternativa é escolhermos a barbárie, em nome da igualdade total vendida pelos mentirosos ou covardes.
Rodrigo Constantino

CARLOS BRICKMANN-A falta que a imprensa faz

Veja o nome: PEN, Partido Ecológico Nacional. Seu presidente nacional, Adilson Barroso, está sendo processado por provocar danos ambientais em Sertãozinho, SP; e por isso teve os bens bloqueados pela Justiça. O caso está no Tribunal de Justiça. Mas não está na grande imprensa: este colunista só o encontrou no Consultor Jurídico (www.conjur.com.br) e no blog de Ucho Haddad ((www.ucho.info).
E o caso, sem discutir se há ou não culpa, é no mínimo engraçado: o presidente nacional do partido ecológico sendo processado exatamente por danos ao meio-ambiente.

CARLOS BRICKMANN- Desviando o foco

A quase ex-ministra da Casa Civil da Presidência da República, Gleisi Hoffmann, vê sua candidatura ao Governo do Paraná ainda empacada nas pesquisas. Seu principal assessor, que deveria coordenar sua campanha, era Eduardo Gaievski, que está na cadeia acusado de estuprar menores. Como sair desse círculo de horrores? Gleisi optou pelo sistema mais simples: abriu processo contra o jornalista Ucho Haddad (www.ucho.info), que revelou uma série de problemas em sua gestão. E, utilizando o velho truque de tentar sufocar economicamente o jornalista, que publica seu blog em São Paulo, abriu o processo no Paraná, para obrigá-lo a enfrentar custos maiores.
É mais provável que a truculência da ministra dificulte sua tentativa de chegar ao Governo. E, claro, contribuirá para que os jornalistas não comprometidos continuem lembrando os estupros de seu assessor de confiança. Quem sabe, com o tempo, ela descubra que é melhor deixar de recorrer à superioridade de poder político e econômico e enfrentar um debate limpo, em condições de igualdade?

Bactéria mais resistente



Celso Ming - O Estado de S.Paulo


O Banco Central teve de ir mais longe do que pretendia no aperto dos juros. Essa mudança de planos também diz mais do que poderia parecer.

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Ficou claro que a dose anterior do remédio não foi suficiente. A infecção é mais séria do que apontavam os diagnósticos oficiais. Ou seja, está sendo questionada a capacidade do Banco Central de prever a trajetória da alta dos preços. Ele mais vem sendo conduzido pela inflação do que a vem conduzindo.


Desde novembro, os comunicados vinham passando o recado de que o ciclo de alta dos juros estava no fim. Esse fim ficou mais uma vez adiado até que esteja mais clara a convergência da inflação, não propriamente para a meta, mas para um ponto qualquer mais próximo dela, que é de 4,5% ao ano.


Fica questionado, também, o procedimento adotado. O Banco Central foi levado a reforçar a alta de juros não só porque a política fiscal não ajuda - ou porque a austeridade na condução das contas públicas é insuficiente para reduzir a demanda por bens e serviços que corre acima da capacidade de oferta da economia. Também vai ficando inevitável admitir que a política monetária (política de juros) perdeu certo grau de eficácia. Enfrenta uma bactéria geneticamente modificada bem mais resistente aos antibióticos convencionais.


Esse parece, em parte, o resultado das decisões do próprio governo, que vem represando artificialmente suas tarifas. Quanto mais interfere nos preços sobre os quais a política de juros não atua - ou sobre 25% da cesta de consumo -, mais, também, o Banco Central tem de puxar pelos juros, de maneira a agir sobre o segmento que cobre os 75% restantes.


Em outras palavras, a reindexação, ou seja, a prática de reajustes automáticos de preços, de que o Banco Central vem reclamando, também fica tanto mais acirrada quanto mais o governo atrasa seus reajustes: os agentes econômicos (os fazedores de preços livres) tendem a remarcar mercadorias e serviços não mais de acordo com a inflação, mas de acordo com a evolução dos preços livres.


Como vem sendo observado por esta Coluna em edições anteriores, em 2013, por exemplo, os preços administrados diretamente pelo governo avançaram apenas 1,52%, enquanto os preços livres subiram 7,27%.


Tudo indica que o Banco Central não tem clareza sobre os próximos passos. Segue determinado a desacelerar a alta dos juros, mas, diante do que aconteceu em dezembro, não sabe o quanto sua política será exigida nos próximos meses. A introdução da expressão "neste momento", usada pela primeira vez em seu comunicado para justificar a alta dos juros decidida quarta-feira, sugere que continuará monitorando os momentos seguintes e, a partir daí, agirá.


Em parte, depende do resto do governo, especialmente da qualidade da política fiscal dos próximos meses. Mas depende, principalmente, do comportamento futuro da própria inflação. As expectativas do mercado, colhidas pelo próprio Banco Central por meio da Pesquisa Focus, são de que, apesar do aperto monetário, a inflação continuará correndo acima dos 6,0% ao ano.

Casamento de fachada



Dora Kramer - O Estado de S.Paulo


O PT é um parceiro difícil e, convenhamos, o PMDB também não é fácil. Nunca se deram bem, entre outros motivos porque nada têm em comum: desde a origem, o jeito de agir, os personagens, as identidades; são entes feitos de massas completamente diferentes.


Ainda assim, a partir do segundo governo de Lula da Silva resolveram se casar oficialmente. Nada a ver com amor. A regra do interesse sempre foi clara: o PT entra com os lotes da administração federal e o PMDB, com a força no Congresso, resultantes de grandes bancadas conseguidas a partir da máquina partidária País afora e dos instrumentos recebidos do poder central para "fazer política".


A insatisfação entre os nubentes também sempre foi nítida. Reclamações de parte a parte, mas o reconhecimento de que precisavam um do outro.


Agora, contudo, depois de quase oito anos de convivência forçada, nada mais une um partido ao outro e quase tudo parece desuni-los. A motivação da aliança vai desaparecendo. O PMDB não recebe do PT os mecanismos considerados eficientes para "fazer política" - ministérios com dinheiro, obras e visibilidade - e por isso mesmo o partido está cada vez menos disposto a ceder palanques aos petistas nos Estados.


Teme perder esse espaço que lhe assegura peso congressual, deixando de eleger grandes bancadas. Nas contas para governos estaduais, os pemedebistas por ora vislumbram chance de vitória em Rondônia, Amazonas, Ceará e Bahia. Pouco para uma legenda cuja força é regional e precisa cuidar dessa seara.


O PMDB quer o Rio de Janeiro e em Minas já faz movimentos em direção ao PSB. Como ninguém atende ao interesse de ninguém nessa aliança, é de se perguntar o que ainda os une além do desejo de Michel Temer de ser vice, de Henrique Alves e Renan Calheiros de presidir mais uma vez a Câmara e o Senado.


O partido como um todo anda indisposto a se manter fiel a projetos individuais de expectativas não realizadas. Percebe o risco à sobrevivência do coletivo e chegou à conclusão de que onde houver os chamados palanques duplos Dilma e Lula darão preferência ao PT, deixando o PMDB no ora veja.


Como, aliás, já fizeram em outros carnavais.


Aposta real. Parecia blefe, mas a insistência do PMDB em manter candidatura própria ao governo do Rio de Janeiro é "à vera". Pelo seguinte: o partido tem certeza de que o vice-governador Luiz Fernando Pezão chega ao segundo turno.


Conta com as máquinas no Estado e da Prefeitura e não seria contaminado pelo desgaste do governador Sérgio Cabral exatamente pelos atributos opostos aos que fizeram Cabral ser mal avaliado: deslumbramento, imprudência e arrogância.


Pezão é bem quisto, pé de boi e refratário a excessos sociais. O PMDB acha que, partindo do patamar de 25% de aprovação de Cabral, o vice multiplica o patrimônio assim que o governador se afastar da cena.


Sobre os adversários a avaliação é a seguinte: PSDB e PSB estão fora do páreo. No campo governista, Anthony Garotinho e Marcello Crivella têm boa largada, mas teto insuficiente para uma boa chegada. Lindbergh Farias, do PT, não deslanchou ainda.


Verdade seja dita, em boa medida por ação de Cabral junto a Lula para que o PT não saia do governo e, assim, impeça o petista de fazer oposição contundente ao PMDB.


Mal menor. O PSDB não vê grandes danos na adesão do PPS ao PSB (agora ameaçado pela resistência de Marina Silva em apoiar Geraldo Alckmin em São Paulo).


Significa apenas 15 segundos de acréscimo na propaganda eleitoral, enquanto boa parte das alianças nos Estados está acertada entre os tucanos e Eduardo Campos. Notadamente para o segundo turno, onde houver.

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