sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Janer Cristaldo-CRENTE FAZ B.O. DO ROUBO DE SEU DEUS

“Me roubaram Deus” – registrou uma senhora em um boletim de ocorrência de uma delegacia, não lembro agora onde. Pela escassa notícia que li, tampouco lembro onde, o delegado definiu-a como esquizofrênica. Ora, não basta um B.O. como esse para assim diagnosticar a doença. Roubo desses é dos mais graves. Eu que o diga.

Não que me tenham roubado deus. Fui eu mesmo quem o jogou no lixo, ainda em meus verdes anos. Nasci ateu, como nascem todos os seres humanos. Lá pelos seis ou sete anos, quando ainda vivia no campo, uma catequista uruguaia vendeu-me a idéia de deus, daquele deus que ama e pune, conforme o adoremos ou ofendemos.

Fosse só a idéia de deus, o problema não seria tão grave. Era todo um pacote: sentido para a existência, vida eterna, bem-aventurança ou padecimento também eternos. Meus dias decorriam entre o medo e a esperança. Diz-se que a carne é fraca. Ora, a carne é forte. Tão forte que invariavelmente faz o espírito dobrar-se. A cada queda, eu me sentia imundo e pecador, merecedor do fogo do inferno. Fazia um ato de contrição e ansiava pelo sacramento da confissão. Enquanto não recebia a absolvição, vivia como quem morre. A idéia de morte sem redenção me apavorava.

A cada raio nas noites de tempestade, eu via o deus terrível me pedindo reparação da ofensa. Era óbvio que os raios eram dirigidos a este pobre e infame pecador. Megalomania, direis. Que seja. Mas assim eram meus dias. Crianças levam a sério as mentiras que lhes contam. Ou papai Noel não valeria um tostão furado como o mais bem-sucedido promotor de vendas do Ocidente.

Tão a sério, que me tornei carola fervoroso, papa-hóstias indefectível a cada sábado ou domingo. Fui até presidente de Congregação Mariana, juro. Ainda há poucos dias, remexendo meus baús para organizar a partida, foi com terna ironia que encontrei duas fitas de congregado mariano. A estreita, de candidato, e a larga, de filho de Maria. Por cautela, fiz as comunhões das cinco sextas-feiras e a dos nove sábados – ou seriam dos cinco sábados e nove sextas? Já não lembro –, que me garantiam a absolvição antes da morte. Seguro morreu de velho, pensava aquele jovem.

Até o bem-aventurado dia entre os dias – ou talvez seja melhor dizer a noite entre as noites – em que libertei definitivamente dos grilhões com que me manietara a catequista. Já contei, conto de novo. Foi lá pelos 15 anos.Minha doutrina vinha do catecismo. Decidi então beber na fonte. Durante três e dias noites, me encerrei em meu quarto, de Bíblia em punho. Recebia comida por uma janelinha que dava para a cozinha.

À noite, montava um cavalo em pêlo, sem rédeas nem buçal, conduzindo-o pelas crinas e com tapas no focinho. Galopava pelas noites magníficas da pampa, sob um céu cravejado de estrelas, que há décadas não mais vejo. Fazia perguntas ao céu e o céu permanecia mudo.

Meus pais temiam por minha sanidade mental. Ao amanhecer da terceira noite, acordei homem livre. Aquele deus cruel e sanguinário, ciumento e vingativo, sectário e incoerente, não podia existir. Era mentira dos padres. Se havia chegado a esta conclusão, ainda não me libertara do resto do pacote, por sinal a parte mais pesada. Então a vida não tinha sentido? Tanto fazia nascer como não ter nascido? Por que então viver, com todas suas seqüelas? Ora, se perder um deus já faz sofrer, tê-lo roubado é bem mais sofrido.

Meus dias de luto pela perda foram poucos. Era jovem, saudável, a fruição dos prazeres não mais me angustiava. O pecado – esta noção primeva de crime na jurisprudência do Além – desaparecera de minha vida. Mas o mais importante estava um pouco adiante.

Era agora dono de meu nariz. Meus êxitos ou fracassos eram responsabilidade exclusiva minha, não dependiam daquele Cara surgido no deserto (o Deus do Ocidentes nasce das areias). 

Tive uma tia muito carinhosa, que se orgulhava de meus feitos escolares. Mas atribuía minhas notas e medalhas ao bom Deus. Nada de meritoso era mérito meu. Eu estava predestinado. Tudo o que me acontecia era por vontade do Altíssimo. Sem o tal de deus, senti-me por fim dono de minha vida. Tudo estava em aberto à minha frente. O prazer não me era mais proibido e havia uma ética a reconstruir. Me senti inaugurando a aurora dos tempos.

Como cachorro que sacode para secar-se, sacudi Deus de mim. Renasci. Ateu, hoje não passa dia sem que alguém me acuse de ser ateu militante. Longe de mim tal idéia. Todo militante tem algo de fanático. Jamais convidei quem quer que fosse a participar de minhas idéias. Tampouco jamais discuti a existência de Deus. É discussão rumo ao inútil. Quando alguém me brande as cinco provas de Tomás de Aquino, retiro meu cavalinho da chuva. O aquinata quer provar a existência de Deus através da lógica. Já vi malucos querendo fazer isto através da matemática. 

Isto não quer dizer, é claro, que não discuta a idéia de Deus. Leio a Bíblia como quem lê o Quixote. O Cavaleiro da Triste Figura não existiu. Mas discutimos seus feitos como se existido tivesse.

Conheço pessoas que dizem ter visto Deus. Bom, este eu não vi. Mas, vagando por entre os moinhos de La Mancha, vi o Quixote, de adarga em punho e lança em riste, esporeando o Rocinante, juro que vi. Sempre acabamos vendo o que queremos ver.

Jeová entregou pessoalmente as tábuas a Moisés? Então tá! Vamos ver o que dizem as tábuas. Deus é três-em-um e os três existem desde sempre? Como quiserem. Mas aí começam as perguntinhas. Se pai e filho existiam desde o início, por que o Pai levou séculos a apresentar o Filho à humanidade? Jeová parece ter sido o mais ausente pai do mundo. Em verdade, provoco choro e ranger de dentes quando me abstenho a repetir, literalmente, os textos sagrados, do que quando faço perguntinhas. É como se os crentes não acreditassem que Deus disse o que disse e está escrito em seu livro.

Perdão, leitor, mudei de rumos. Falava da senhora que registrou queixa na delegacia de que haviam roubado seu Deus. O delegado, ao qualificá-la como insana, imagina que só se roubam coisas materiais. Mas roubar o deus de um crente, é bem mais grave do que roubar o carro de um adorador de máquinas. 

Ainda mais se não deixam nenhuma bicicleta para o cidadão transportar-se, nenhuma muleta para o pobre diabo apoiar-se. Isto não é coisa que se faça.

O fascismo segundo Gregório Duvivier

O comediante Gregório Duvivier, um dos criadores do “Porta dos Fundos”, escreveu em sua página do Facebook uma mensagem que merece atenção, pois expressa a opinião de uma parcela razoável da nossa esquerda. Diz ele:
Era isso que os governantes queriam: que a classe média ficasse contra os manifestantes. Já estava acontecendo há um tempo, com ajuda de grande parte da imprensa. Agora, com a morte de Santiago, o jogo virou de vez. Os manifestantes (todos) viraram assassinos e a esquerda agora é acusada de compactuar com o assassinato. Não foi à toa que tentaram vincular, sem sucesso, o cara do Rojão ao Marcelo Freixo. Pre-pa-ra que agora o fascismo vem com tudo. Não tem nada mais facilmente manipulável do que a classe média apavorada. A morte do cinegrafista foi, definitivamente, uma tragédia. Mas foi uma tragédia muito celebrada. Era a tragédia pela qual o pessoal tava esperando. Brace yourselves, diz o seriado. Em bom português: fica esperto.
São muitas inversões. Para começo de conversa, a classe média não estava – e não está, acredito eu – contra os manifestantes. Está – e já estava – contra os black blocs, que é algo bem diferente. Só o fato de chamar os vândalos mascarados de “manifestantes” já denota certa falta de bom senso. Manifestantes não saem por aí mascarados, armados, quebrando tudo, depredando patrimônio público e privado, colocando vidas inocentes em perigo.
Portanto, não são todos os manifestantes, como afirma o comediante, que se tornaram “assassinos” e que compactuam com a morte do cinegrafista. São aqueles que acreditam que os fins “nobres” justificam quaisquer meios, que se enxergam como revolucionários para a criação de um “novo mundo”, que colocam máscaras e apontam rojões para pessoas, aplaudidos por parte da esquerda.
A associação entre Marcelo Freixo, do PSOL, e os black blocs, não foi uma tentativa “deles” de atacar a esquerda como um todo, e sim uma denúncia do próprio advogado dos assassinos, respaldada por várias evidências. A mãe do próprio assassino, não custa lembrar, afirmou que o garoto conhecia Freixo, e um assessor seu é o responsável pela ONG que financia as custas jurídicas desses marginais.
A lista de financiadores, divulgada pela imprensa, mostra vereador do partido doando dinheiro para os black blocs. “Sininho”, a patricinha revolucionária que lidera parte do grupo, teria ligações com gente do partido também. Aliás, resta saber como ela se mantém, de onde vem seu sustento.
Como se pode ver, são questões que precisam ser melhor apuradas, investigadas. Estranha-me Duvivier, em vez de demandar mais investigação, partir para uma acusação invertida, jogando a culpa para a imprensa “golpista” em uma teoria conspiratória bem mixuruca.
Em seguida, Gregório alerta para o risco de um fascismo galopante, e manda seus leitores ficarem preparados. Não sei se o comediante sabe, mas são os próprios black blocs, que ele pelo visto defende, que tanto se parecem com os fascistas. Os camisas negras de Mussolini agiam neste mesmo estilo truculento e se julgando acima das leis. Como alguém pode alertar para o risco de fascismo e ao mesmo tempo defender os black blocs é algo que me escapa por completo.
Diz ele que nada é mais manipulável do que uma classe média apavorada. Eu diria que nada é mais manipulável do que uma massa de revoltados sem consciência política, histórica e econômica, incitada à violência por artistas e “intelectuais” da esquerda caviar “revolucionária”. Foi assim que tivemos as desgraças socialistas e nacional-socialistas.
Por fim, afirmar que a morte do cinegrafista foi uma tragédia celebrada foi, talvez, a piada de menor graça feita na carreira do comediante. É ofensiva, agride todos aqueles que lamentam profundamente a perda, e que, como eu mesmo, cantavam a pedra faz tempo, pois sabiam que os atos criminosos dos mascarados jamais poderiam acabar bem.
Duvivier deveria ter mais respeito por aqueles que sofrem com o caos social imposto por marginais aplaudidos pela esquerda caviar. O recado é válido: fica esperto. Mas não com aquilo que o comediante diz, e sim com os próprios fascistas mascarados que se julgam acima do bem e do mal e estão dispostos a rasgar nossas frágeis instituições democráticas em nome de sua causa niilista. Para eles, Santiago Andrade foi apenas um ovo quebrado para se fazer uma ótima omelete…
Rodrigo Constantino

‘Cria cuervos que te sacarán los ojos’, um artigo de Sandro Vaia

Publicado no Blog do Noblat
SANDRO VAIA
Não é preciso ter visto o filme de Carlos Saura para entender o significado da célebre expressão espanhola.
O rojão na cabeça que matou o cinegrafista Santiago Andrade da TV Bandeirantes durante um distúrbio no Rio é o olho arrancado por um corvo criado, alimentado, paparicado e incentivado por boa parte do pensamento político que imagina construir uma sociedade perfeita cheia de fadas Sininho e de rios de leite e mel, onde a justiça social estará disponível nas prateleiras dos supermercados a preços de liquidação.
Não importa se o morteiro foi disparado por 150 reais. Há assassinatos mais baratos do que esse disponíveis no mercado. Importa é o caldo da cultura que criou assassinos-vítimas que aparecem com cara de Dr. Jeckyll nos seus gestos de confissão e arrependimento e são fotografados em ação no auge de sua monstruosa transfiguração de Mr. Hyde.
Se, além do curling, houvesse na olimpíada russa de inverno que transcorre em Sochi a modalidade de pisar em ovos, a imprensa, as autoridades, os políticos e o governo brasileiro criariam um escrete imbatível.
Pede-se uma lei contra o terrorismo, mas terrorismo não é. E se terrorismo for, como não enquadrar os não muito amigáveis manifestantes do MST, que ocuparam a praça dos Três Poderes, tentaram invadir o prédio do Supremo e entraram em combate com policiais militares?
Mas não se pode criminalizar os movimentos sociais, reza a cartilha do poder. Por isso, prudentemente o ministro da Justiça guardou em sua gaveta um ante-projeto do secretário de segurança do Rio, Mauro Beltrame, prevendo punições para manifestações violentas.
Como se não bastasse, representantes do pacífico MST, cujo líder José Pedro Stédile chamou o governo Dilma de “bundáo” em questões de reforma agrária uma semana antes, foram recebidos e afagados pela própria presidente, depois de ferir 30 policiais nos choques do dia anterior.
Mas se o movimento for contra a Copa do Mundo, não será mais movimento social, mas pode ser enquadrado como terrorismo, conforme um projeto de lei que está atravancado em alguma gaveta do Congresso Nacional.
A confusão conceitual se instalou na seara do politicamente correto, e os concorrentes da maratona de pisar em ovos, não sabem mais pra que lado atirar: os pobres meninos desamparados da periferia que atiram rojões a esmo são vítimas da sociedade ou da exploração de políticos inescrupulosos que pagam pela sua violência?
O diabo é que todos dizem querer uma sociedade mais justa e em nome disso são capazes de pregar e acreditar que a justiça está em desmoralizar o Poder Judiciário porque condenou correligionários por corrupção ou em escrever que o “superávit primário é uma invenção diabólica do capitalismo para explorar os povos”.
Quem cria esses corvos? E os olhos de quem eles comerão?

Esvaziado e sem rumo

Celso Ming - O Estado de S.Paulo

O Movimento dos Sem Terra (MST) tem uma história de 30 anos permeada de invasões e atos de violência, mas é a primeira vez que tenta peitar instituições democráticas, como aconteceu nos tumultos praticados quarta-feira nas manifestações em Brasília. Já é, parece, o reflexo de um movimento esvaziado, sem discurso e sem rumo.

Ao contrário do que muita gente pensa, o MST é um movimento conservador. Nasceu em 1984 como fruto da Pastoral da Terra da Igreja Católica, em cuja órbita continua girando. Na prática, sua função social foi organizar e impor certa disciplina a camadas subempregadas na periferia das grandes cidades, graças a promessas de acesso à terra e práticas de liturgia de "enturmação".

Não faz sentido insistir nas denúncias do latifúndio improdutivo, como faz o MST. A presidente Dilma, cuja base de apoio político é liderada por um partido que sempre defendeu a reforma agrária, acaba de deitar louvação nos resultados da agricultura, que "em duas décadas aumentou em 221% a produção de grãos, com acréscimo da área plantada de apenas 41%". Independentemente da exatidão desses números, este não é o resultado da atuação só de grandes empresas. A agricultura familiar capitalizada e detentora de tecnologias de ponta em preparo da terra, seleção de sementes, plantio, irrigação, colheita, armazenamento e práticas financeiras avançadas, também tem muito a ver com isso.

A tal "produtividade na veia" a que se referiu a presidente Dilma acontece na agropecuária, e não nos assentamentos. Hoje, o setor coloca no mercado quase 200 milhões de toneladas de grãos que, em mais dez anos, deverão ser alguma coisa entre 300 milhões e 400 milhões de toneladas.

Não foi apenas o sucesso do agronegócio que esvaziou o MST. Também os governos do PT trabalharam diretamente para isso, na medida em que promoveram farta distribuição de bolsas família e tiraram impulso das lutas pelo acesso à propriedade de um pedaço de terra e por um posto de trabalho. Ficou comprovado que o desemprego se resolve com crescimento econômico, e não com reforma agrária.

As próprias análises internas do MST reconhecem que o Programa Bolsa Família e o aumento do emprego atrapalharam os planos dos seus dirigentes. Eles agora acusam o governo de traição à causa e de conluio com a bancada ruralista. Parecem incapazes de reconhecer que os projetos de reforma agrária não mais farão parte da agenda de prioridades de nenhum governo, seja qual for sua coloração ideológica.

Os líderes do MST não têm clareza sobre seu próprio futuro. Como não conseguiram emplacar seus projetos originais de redistribuição de terras, aderiram a um ambientalismo confuso e, em nome dele, se puseram a destruir plantações de laranja, de eucalipto, de cana-de-açúcar e de canteiros de pesquisas agronômicas, sob a argumentação de que toda cultura extensiva, especialmente a obtida a partir de sementes geneticamente modificadas, envenena as pessoas e o meio ambiente e destrói a agricultura tradicional.

Em todo o caso, mesmo em decadência e sem perspectivas, o MST ainda tenta invadir o Palácio do Planalto e consegue suspender uma sessão do Supremo, como aconteceu quarta-feira.

‘Comentaristas na TV em extinção’, de José Nêumanne Pinto

Publicado no Observatório da Imprensa

JOSÉ NÊUMANNE PINTO

Qual a hipótese mais grave e preocupante que teria motivado a demissão de três comentaristas que atuavam nos noticiários do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT) – Denise Campos de Toledo, Carlos Chagas e eu –, comunicada aos três na sexta-feira 7 de fevereiro: a oficial ou a paralela? O diretor de jornalismo da empresa, Marcelo Parada, me comunicou que um tal “comitê de programação” da emissora havia decidido extirpar a opinião dos telejornais da casa em nome do primado da notícia. Numa versão aparentemente mais técnica, que circulou em textos divulgados em redes sociais por blogueiros simpáticos à causa, os comentários em questão prejudicavam a “dinâmica” dos noticiários. A versão oficiosa, negada pelos mesmos blogueiros, era mais apimentada: nenhuma pessoa sensata apostaria um centavo na minha sobrevivência na emissora desde que Parada assumiu a direção. Não é secreta para ninguém sua notória parceria com o presidente nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), Rui Falcão, que não deve ser um admirador muito fanático da independência absoluta que sempre tive no SBT nas três vezes em que comentei assuntos políticos por lá. Da mesma forma, tinha sido amplamente noticiada a generosidade com que a cúpula petista tratou o momentoso episódio da falência do Banco Panamericano, empresa do grupo Sílvio Santos. Teria sido, enfim, concluída a crônica de minha demissão anunciada?

Bem, fofocas não pagam dívida e a resposta a essa questão só pode ser dada com fatos. Vamos a eles. Fui nomeado três vezes comentarista do SBT por Sílvio Santos, que me disse admirar a forma sucinta e simples com que explico a meus ouvintes da Pan intrincados assuntos da política. Minha primeira passagem terminou quando Boris Casoy foi para a Record e o patrão exterminou o departamento de jornalismo. A segunda teve fim com a contratação de Ana Paula Padrão, que mandou Luiz Gonzaga Mineiro me demitir do jornal ancorado por Hermano Henning, com o qual ela nada tinha a ver, mas faz tempo que desisti de entender esse tipo de falta de senso de loção, como dizia minha tia louca. Desta vez, apesar de não ser um veterano da casa, Parada cumpriu todos os rituais da crueldade e da deselegância na demissão dos três profissionais com currículos que mereciam dele mais respeito. De sua sala fui levado pela secretária para o RH que me comunicou o encerramento do contrato com o pagamento dos sete dias de trabalho de fevereiro. Bem, isso também faz parte da rotina.

A descortesia a que me refiro é outra e tem história. Nem Parada nem seu segundo, Ricardo Melo, fizeram durante esta minha terceira passagem pelo SBT NENHUM reparo a algum comentário de minha lavra – nem contra, nem a favor, nem muito pelo contrário. Na verdade, nenhum dos dois jamais me deu uma orientação ou algum aviso. Melo se abstinha desse dever elementar de qualquer chefe de redação alegando que eu era livre para dizer o que quisesse. Dizia respeitar minha livre expressão, conquista da democracia burguesa que ele, como leal trotskista, desprezava. Tudo bem. Também está no jogo.

Agora tomo conhecimento por interpostas pessoas que fazem fofoca em redes sociais que desde outubro eu já estava fora do SBT Brasil, “carro-chefe” do jornalismo da casa. Uma vez, interpelei Melo (por uma questão de hierarquia e também pelo fato de que era mais comum encontrá-lo na redação do que me deparar lá com Parada) a respeito. E ele me deu uma resposta satisfatória: “Sílvio lhe paga salário e você grava. E me paga para decidir se seu comentário entra ou não no jornal”. Achei a explicação razoável e nunca mais me preocupei em conferir se o comentário que eu gravava tinha sido editado no telejornal do horário nobre, ou não. Não era tão importante: nunca deixou de ir ao ar nenhum comentário que eu tivesse gravado para o Jornal do SBT e para o Jornal do SBT Manhã. E era isso que produzia a imensa satisfação de ser apoiado e elogiado por gente simples: garçons, porteiros, manobristas… Na certa, foi também isso que decidiu a escolha feita pelo público em pesquisa da Abril Educação que planejou cursos em parceria com o SBT e escalou os três profissionais do elenco da emissora considerados de maior credibilidade pelo público: Ratinho, Celso Portioli e eu. O projeto não prosperou, mas duvido que tenha sido por minha causa ou dos dois queridos companheiros citados junto comigo.

Dito isso, concluo garantindo que não acredito que Parada tenha sido desrespeitoso com profissionais do quilate de Carlos Nascimento e Hermano Henning, que sempre usaram meus comentários, ao desprezar o fato chamando a atenção para minha ausência no noticiário apresentado também por minha conterrânea Rachel Sheherazade e meu companheiro na Pan Joseval Peixoto. Ele não deve ter feito isso.

Ainda que saiba que meus comentários não agradam a cúpula do PT, também não acredito que minha saída se deva a uma pressão sobre o companheiro diretor, mesmo porque Denise e Chagas nada têm que ver com minha ousada impertinência de todo dia. Se minhas críticas obstinadas tivessem algum peso eleitoral, Lula não teria sido eleito duas vezes nem Dilma teria derrotado José Serra, embora eu também não costume ser condescendente com esses tucanos de alto plumagem.

Além do mais, a meu ver, o histórico de imprudências de Parada não inclui a possibilidade de negar a teoria oficial do fim dos comentários substituindo minha presença no dia-a-dia por algum comentarista mais domesticado de acordo com o gosto dos companheiros. Seria uma confissão de culpa imperdoável. Seria também muito menos grave do que de fato deve ter ocorrido.

Acredito piamente e lamento mais ainda que ele não tenha mentido: o que fez foi mesmo substituir comentários por mais notícias. Em vez de um sujeito pernóstico deitando regras, o atual SBT prefere mostrar o flagrante da morte do frentista, o bebê que está bombando na Internet ou o macaquinho dançarino. Não me sinto vítima de nenhum tipo de retaliação nem mártir do jornalismo opinativo na TV. Infelizmente, sou apenas o representante de uma espécie em extinção: a do jornalista que tem opinião e por isso, goza de credibilidade. Em vez de rojões disparados por black blocs, Denise, Chagas e eu estamos sendo vitimados pela mordaça imposta em nome da prioridade da informação.

“Não há como não perceber um idiota quando ele está ao volante. Normalmente ele está falando ao celular.” (Limão)

“Nós cães também temos o nosso Deus para o qual encaminhamos orações e pedidos, é o Jeová-Dog.” (Bilu Cão)

“A nossa vida é repleta de contratempos. Só quem está morto não se incomoda.” (Mim)

“A morte é transformadora. Transforma todo defunto em gente boa.” (Limão)

POLÍCIA SUSPEITA QUE PIZZOLATO IRIA ‘INVESTIR PESADO’ NA ITÁLIA

Após ser indiciado ontem pelas autoridades italianas por substituição de pessoa, falso testemunho a um oficial público e falsidade ideológica, o mensaleiro condenado e fugitivo Henrique Pizzolato (foto), ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil, teve a casa onde alugava revistada. A polícia italiana anuciou que foram encontrados alguns pen drives com  documentos bancários sobre transações que somam dezenas de milhares de euros. A partir de uma primeira análise dos arquivos, a polícia acredita que ele estivesse se preparando para investir grandes quantias na Itália, segundo a agência italiana Ansa.
Condenado a  a 12 anos e sete meses de cadeia no processo do Mensalão e preso na Itália no último dia 5 de fevereiro, Pizzolato fugiu para a Itália após sua sentença ter sido confirmada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no ano passado. Segundo os investigadores, ele saiu do Brasil e entrou na Itália com um passaporte falso em nome de seu falecido irmão, Celso. Durante dois meses, Pizzolato morou em uma casa alugada com vista para o mar em Porto Venere, na costa da Ligúria. No entanto, ele foi detido na residência de um sobrinho em Maranello.
O governo brasileiro ainda “prepara” o pedido de extradição do mensaleiro fujão.
Diário do Poder

Janer Cristaldo-MUITO ESTETOSCÓPIO AINDA HÁ DE ROLAR...

Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas,
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sangüínea e fresca a madrugada...

Os seres humanos têm um especial pendor para lutar – e matar – por idéias estúpidas. Houve época em que se mataram discutindo se deus era três em um ou um em três. As relações entre católicos eram tão afáveis que, quando se reuniam em concílio para discutir um dogma, a facção derrotada tinha de escolher entre o exílio e a fogueira.

Depois surgiram as ideologias. As pessoas se inimizavam por acontecimentos em distantes rincões do planeta. Foram milhões os que, no século passado – e pior, até hoje – wse digladiaram pelo que acontecia em Moscou. A ruptura mais emblemática terá sido a de Sartre com Camus.

Em 1946, Camus publica em Combat uma série de artigos, sob o título genérico de "Ni victimes ni bourreaux", reflexões que antecipam O Homem Revoltado. Se o século XVII foi o século das matemáticas, argumenta Camus, se o XVIII foi o século das ciências físicas, se o XIX foi o da biologia, o homem contemporâneo vive o século do medo.

"Dir-me-ão que isto não é uma ciência. Mas, primeiramente, a ciência aí está para qualquer coisa, pois seus últimos progressos teóricos a levaram a negar-se a si mesma, dado que seus aperfeiçoamentos práticos ameaçam a terra inteira de destruição. Além disso, se o medo em si mesmo não pode ser considerado como uma ciência, não resta dúvida alguma que seja uma técnica".

O que choca Camus é o fato de que homens que viram "mentir, aviltar, matar, deportar, torturar" se façam de surdos cada vez que se tenta dissuadir os homens que mentiam, aviltavam, matavam, deportavam e torturavam, pois estes lutavam em nome de uma abstração. O diálogo entre os homens morreu. "Um homem que não se pode persuadir é um homem que faz medo". 

O que estava em jogo era o comunismo. Sartre, stalinista convicto – e bom amigo dos oficiais nazistas durante a ocupação de Paris – não gostou. "L'amitié, elle aussi, tend à devenir totalitaire; il faut l'accord en tout ou la brouille, et les sans-parti eux-mêmes se comportent en militants de partis imaginaires",revidou o filósofo mais confuso do século passado. Visando Camus, disse: “tout anticomuniste est un chien”. Todo anticomunista é um cão. Sartre não tinha as mãos sujas de sangue, mas sempre apoiou os tiranos que assassinavam em massa.

Anos 60, estava em jogo o Leste asiático. Até mesmo aqui no Brasil, amizades se desfaziam pelo que acontecia na China ou no Vietnã. Eu mesmo, perdi não poucos leituras, em função das escaramuças de Ho Chi Min ou dos massacres de Pol Pot, que hoje poucos saberão quem foi. Mao era outro fator de desavenças. Assassino maior que Hitler ou Stalin, era venerado urbe et orbi como o Grande Timoneiro.

Hoje, fora alguns malucos renitentes que portam luto por Stalin, o último santo a cultuar é Fidel Castro. A ditadura cubana há duas boas décadas já estava desmoralizada na Europa, mas mantém insólita reputação em terras brasílicas. Hoje ainda, há quem acredite no excelente nível de saúde e educação em Cuba, como se pudesse haver saúde em país cujos cidadãos vivem no limite da fome, e como se pudesse haver educação onde não existe liberdade de pensamento. E, por inaudito que pareça, ainda há pessoas cortando relações em função de Cuba.

Aconteceu comigo. Não há uma década, mas ano passado. Uma boa amiga, minha aluna nos anos 80, enviou seu filho, estudante de Medicina, à Cuba. Ela é de Florianópolis, uma dos últimos celeiros do castrismo no Brasil. Sempre é bom lembrar que a UFSC foi a única universidade no Brasil a ter a excelsa coragem de conceder um Doutorado Honoris Causa ao Supremo Comandante, Fidel Castro Ruz. Doutorado em Tiro na Nuca, é de supor-se. Ainda ano passado, a universidade oferecia um seminário sobre Direito e Marxismo, no qual se estudava essa obra-prima do Direito intitulada O Capital.

Mantive com minha ex-pupila boas relações nos últimos trinta anos, com algumas décadas de intervalo, é verdade. Até seu filho voltar de Cuba. Postou mensagem no Facebook, louvando a ilha como a representação terrena do paraíso. Discretamente, fiz um rápido comentário.

- Maravilha de ditadura! Que estou ainda fazendo neste país infame? Por que ainda não fui para lá?

O estudante deslumbrado com a ditadura permaneceu silente. Já a mãe, com uma fúria tipicamente materna, reagiu como uma tigra parida. Deletou a postagem e me excluiu definitivamente de seu círculo afetivo. Não teve sequer a coragem de defender a cria. Melhor deletar. Acredite quem quiser. Ou puder.

Vivemos hoje dias interessantes. Era mais que previsível. E a debandada recém começou. Apesar dos pesares, dos problemas de trânsito, violência, miséria, analfabetismo, o Brasil é uma ante-sala do paraíso diante de Cuba. Em nome dos bons laços que unem petistas à Cuba – onde treinou guerrilha o mensaleir0 José Dirceu, entre outros – Dona Dilma fechou uma corvéia entre Brasil e a ditadura dos irmãos Castro.

O acordo há muito vinha sendo gestado, mas a presidente, mentindo descaradamente, o anunciou como uma resposta à gloriosa Revolução de Junho de 2013, revolução verdadeira, como a definiu a Veja na época. E importou alguns milhares de médicos a preço vil para suprir as deficiências nossas na área de saúde, através do plano Mais Médicos. Os profissionais eram contratados por dez mil reais – o equivalente a pouco mais de quatro mil dólares. Só que destes quatro mil dólares só viam quatrocentos, 958 reais no câmbio de hoje. Os restantes 3.600 dólares vão para sustentar a falida ditadura dos Castro no Caribe.

Ora, no Brasil de hoje, nem enfermeira aceita trabalhar por tal miséria. Pior ainda, sabendo que 90% do salário combinado vai para uma ditadura. Minha diarista, sem curso universitário algum, ganha quase o dobro. As defecções eram esperadas. A ave precursora foi a médica Ramona Matos Rodriguez, que buscou abrigo no início do mês no gabinete da liderança do DEM na Câmara dos Deputados depois de abandonar o programa. Ramona afirmou que pedirá asilo ao governo brasileiro.

Dona Dilma está entre a cruz e a espada. O ano é eleitoral e não há clima para repetir o gesto do capitão-de-mato Tarso Genro, que devolveu para a Disneylândia das esquerdas, em 2007, os boxeadores cubanos Guillermo Rigondeaux e Erislandy Lara, depois de uma frustrada tentativa de deserção em julho daquele ano, durante os Jogos Pan-Americanos do Rio.

Ramona já ganhou um emprego burocrático na Ordem dos Médicos do Brasil – que lhe rende três vezes o que lhe era pago quando trabalhava como escrava – enquanto espera resposta a seu pedido de asilo. Asilo que não há, hoje,como negar-lhe. Enquanto isso, mais quatro médicos cubanos deram no pé, rumo aos Estad0s Unidos. De repente, não mais que de repente, soube-se que já são 5 mil os médicos cubanos asilados nos States, oriundos de programas na Venezuela, Bolívia, Angola e Moçambique. Também não mais que de repente, o Ministério Público descobriu que o trabalho escravo dos médicos cubanos... era trabalho escravo.

O mais insólito em tudo isso é que, junto com os médicos-escravos, Cuba exportou também seus métodos ditatoriais. A corvéia não pode sequer deslocar-se de suas residências sem a permissão dos feitores. Junto com os médicos, há monitores, que decide quando e como eles podem sair para a rua. O governo, passivamente, submeteu-se a esta suprema humilhação.

Os médicos cubanos no Brasil já são 7.400. E virão mais outros. Muito estetoscópio ainda há de rolar entre a senzala e a casa grande. Os stalinistas de plantão já mostram as garras. No Estadão de hoje, escreve Luis Fernando Verissimo:

“Inacreditável é que a reação mais forte à vinda de médicos estrangeiros para suprir a falta de atendimento no interior do Brasil, e a exploração da questão dos cubanos insatisfeitos para sabotar o programa, venha justamente de associações médicas”.

Ora, a Ordem dos Médicos acolheu uma colega que foge de uma ditadura. Nem mesmo a empregou como médica, pois falta-lhe o exame que a habilita a exercer sua profissão no País. Enfim, teremos dias divertidos pela frente. Foi-se a primeira pomba despertada... Foram-se outras mais. Serão dezenas? Serão centenas? 

O tiro saiu pela culatra. A tentativa petista de dar alguns milhões de dólares à ditadura amiga só servirá para afundar ainda mais a imagem de Cuba, que só resta intocada neste país sempre à reboque da História.


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