sábado, 1 de março de 2014

A FRIVOLIDADE DO MAL




“A fragilidade da civilização é uma das grandes lições do século 20”. Assim começa Our Culture, What’s Left of It, de Theodore Dalrymple. O médico britânico, que trabalhou por 14 anos em prisões inglesas e em países miseráveis, tem sido uma incansável voz contra a degradação cultural de seu país, que já foi o farol da civilização ocidental (i.e., mundial).


Seria de esperar, após a carnificina do comunismo e do nazismo, que os intelectuais teriam uma disposição maior para preservar suas culturas, em vez de estimular cada vez mais modelos abstratos, utópicos, “progressistas” de engenharia social. A civilização precisa, além de mudança, de conservação também, algo que poucos intelectuais parecem dispostos a defender.


A crítica imoderada, por escritores criativos e pensadores “progressistas”, de um ponto de vista utópico, é capaz de causar imenso mal, o que costuma ser sempre ignorado. Dalrymple, ao contrário, está acostumado com a pesquisa de campo, com o contato com seres humanos reais, de carne e osso, vítimas dessas ideias paridas no conforto de escritórios por gente muito distante dos efeitos concretos daquilo que defende.


Uma das observações feitas ao longo desses anos por Dalrymple é que o mal, para florescer, precisa apenas de ter suas barreiras derrubadas. Sua vida matou nele a tentação de crer em uma bondade fundamental do homem, ou que a maldade é algo excepcional ou estranho à sua natureza. Basta ver o que o povo alemão, teoricamente civilizado, foi capaz de fazer, com a cumplicidade de muitos.


Retirar a responsabilidade individual dos atos dos indivíduos, eis uma das barreiras mais importantes que acabou enfraquecida ou derrubada no mundo moderno. As teorias que transformam todo criminoso em vítima de forças maiores, da “sociedade”, ou o relativismo moral que proíbe julgamentos objetivos, isso contribuiu sobremaneira com o avanço do mal nas sociedades ditas civilizadas, como a própria Inglaterra. Um médico ou um intelectual, atentos a essa realidade, deveriam responsabilizar os indivíduos, em vez de pretender possuir alguma cura objetiva de fora, além de sua (do indivíduo) própria moral.


Isso, para Dalrymple, é a frivolidade do mal, mais até do que a banalidade, como disse Hannah Arendt: colocar o próprio prazer pessoal acima da miséria de longo prazo causada naqueles com quem você tem um dever. O médico ou o intelectual que sentem regozijo por posar como “salvadores da pátria”, como os engenheiros sociais, os burocratas ungidos capazes de consertar os males sociais de cima para baixo, esses são cúmplices da escalada do mal.


O próprio estado de bem-estar social, ao retirar a responsabilidade dos indivíduos e colocar o estado no papel de pai dos outros, acaba contribuindo para esse caos social, com pais que abandonam seus filhos e suas mulheres, com gente que não assume as rédeas da própria vida pois sabe que há “alguém” para fazê-lo em seu lugar. O paternalismo cria uma legião de “crianças” mimadas, petulantes, que demandam mais e mais e nunca aceitam se implicar em seus problemas.


Mas como reconhece Dalrymple, o welfare state pode ser uma condição necessária, mas não é suficiente para explicar o mal da atualidade. É aqui que entra o campo das ideias, da cultura, tema predominante em seus livros. Não basta esses indivíduos terem incentivos econômicos para agir assim; é preciso ter o estímulo moral. Isso vem da visão moderna que enaltece o egoísmo, que oferece uma desculpa moral para a irresponsabilidade individual.


Dalrymple atendeu milhares de pacientes com vidas destroçadas, problemas com drogas, maridos ou namoradas que batem nas suas mulheres, filhos com vários parceiros diferentes, e em quase todos os casos ele era claramente capaz de identificar o reconhecimento da própria escolha nessas tragédias, apesar do gozo no discurso de vítima. Consolar essas pessoas jogando para ombros alheios o fardo de seus erros pode ser prazeroso, mas é desumano.


“Ninguém é melhor do que ninguém”, “quem somos nós para julgar o outro?”, “ele é apenas humano”, “não existe certo ou errado”, “não devemos ser preconceituosos” e por aí vai, tudo criando o clima perfeito para o indivíduo fugir de sua culpa em sua própria miséria, para ignorar sua responsabilidade em suas escolhas equivocadas. A amoralidade se tornou a forma superior de “moralidade”. Não tem como dar certo. A civilização é uma escolha. Infelizmente, muitos intelectuais escolhem a barbárie.


Rodrigo Constantino

O PT compactua com o crime

Primeiro: invasores do MST causam tumulto em Brasília, ameaçam invadir – além das propriedades particulares que habitualmente invadem – os prédios públicos onde trabalham políticos e ministros, causam ferimentos em dezenas de policiais, e o que acontece? São recebidos pela própria presidente Dilma no dia seguinte, e o ministro Gilberto Carvalho declara, abertamente, que o governo vai, sim, continuar financiando “eventos” ligados ao MST, que sequer possui CNPJ.
Parêntese: quando o ex-presidente Lula vai a Cuba tratar, além dos problemas venezuelanos e do programa Mais Médicos, dos investimentos na ilha, para alavancar a produção agrícola no país comunista, quem ele leva a tira-colo? Algum lavrador humilde, algum camponês do MST? Nada disso. Leva Blairo Maggi, empresário rico do setor rural. É o reconhecimento, na prática, de que tanto o comunismo como o MST não prestam para produzir riqueza, apenas para chegar ao poder. Fecho parêntese.
Segundo: o governo importa médicos cubanos como se fossem escravos, alguns se rebelam e fogem, outra pede asilo ao Brasil e mostra documento provando a exploração do regime castrista, e o que nosso governo faz? Negocia com o regime tirânico um aumento do salário dos escravos, ou seja, pede que o senhor feudal aceite uma leve redução em sua “mais-valia” para que os trabalhadores se rebelem menos. Age, em outras palavras, como o capitão do mato cúmplice do escravocrata, tentando apenas mitigar o risco de rebelião entre os escravos.
Terceiro: o STF, quase todo ele composto por ministros escolhidos pelo próprio PT, julga e condena vários petistas do alto escalão, que acabam presos. O que faz o PT? Na figura do governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, vai fazer uma visita de cortesia, (mal) disfarçada de “vistoria do presídio” (ah, a ousadia dos canalhas!), ao criminoso José Dirceu. Um governador subserviente a um presidiário? Assim é o PT.
Foram apenas três exemplos, e poderiam ser muito mais. O leitor já entendeu o quadro: o PT é um partido que compactua com o crime, que desrespeita o estado de direito, que se julga acima das leis, que acredita que quaisquer meios servem para seus fins – a permanência no poder. O PT não tem mais simpatizantes; tem cúmplices!
Rodrigo Constantino

CAIO BLINDER- Putin tirou a fantasia de estadista

Até a semana passada, Vladimir Putin se dava ao luxo de vestir a fantasia de estadista. Estava lá no carnaval dos Jogos Olímpicos de Inverno em Sochi. Mas, agora, ele tirou a fantasia. É quarta-feira de cinzas na Ucrânia. Putin é o que é: um bully. Claro que é também um inescrupuloso jogador no xadrez diplomático. Com ele não tem esta de atuar como um acionista responsável da ordem mundial. A Ucrânia é seu quintal e ele precisa mantê-la na sua órbita de influência.
Eu imaginava que seria uma jogo mais paciente, com Putin apostando que a precária ordem anti-russa instalada com a revolução na Praça da Independência em Kiev se esfarelasse rapidamente. Provavelmente eu errei. O bully de Moscou já está botando para quebrar na Crimeia, com uma gradativa ocupação da região autônoma da Ucrânia.
Até entendo a história: existe uma afinidade da Crimeia com a Rússia e a região não se ajusta a esta nova e precária ordem em Kiev. Há, porém, um outro fator. Putin é basicamente o capo de uma família mafiosa. Ele se preserva na posição pelo medo e não pode suavizar, não tanto diante do mundo, mas dentro de casa. Putin tem valor para sua cidadania como o bully que oferece proteção. Foi assim que cimentou seu poder após os anos de caos que se seguiram ao colapso da URSS.
Sobre a reação do mundo, ou seja, de Barack Obama, presidente do país mais poderoso do mundo, vejo tudo com uma certa resignação, mais do que exasperação ou fúria. Ele pode fazer algumas advertências e eventualmente adotar algumas retaliações simbólicas, como não dar as caras na cúpula do G-8 em Sochi, em  junho. Aliás, por que a Rússia ainda integra este clube? A margem de manobra do presidente é limitada, pois existe um torpor nacional sobre as coisas do mundo. E a liderança anódina (que expressão!) de Obama apenas agrava esse torpor.
Vejo também as coisas com uma certa perplexidade. Faço este esforço para absorver a lógica de Putin (e as coisas são realmente brutais na sua vizinhança) mas compartiho a incredulidade do editorial deste sábado do Financial Times: “Putin deve perguntar a si o que a Rússia ganha ao entrar em um conflito prolongado com seu maior vizinho pós-soviético. Estrategicamente, não faz sentido.”
Putin, desta vez, está indo longe demais. Não está dando o baile que se imagina. A longo prazo será derrotado por sua própria folia.

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