segunda-feira, 3 de março de 2014

VIDA EM CUBA - YOANI SÁNCHEZ

Raça e identidade

Acabou de nascer e em poucas horas será inscrito com seu nome recém estreado. Alguns dias se passarão até que seus pais obtenham sua certidão de nascimento e depois a chamada “carteira de menor”. Sem uma identificação não poderia receber os produtos do mercado racionado, inscrever-se numa escola, conseguir um trabalho, viajar num ônibus interprovincial e nem poder guardar seus pertences no guarda-volumes de uma loja. A cada dia de sua vida precisará deste documento que exibe na sua parte superior uma combinação única de onze dígitos. Seus dados temporais e geográficos ficarão registrados na pequena cartolina… Como também certos detalhes físicos.
Vê-se apenas como uma letra no reverso da carteira de identidade, porém é a letra que explica a cor de nossa pele. Essa consoante nos classifica numa raça ou outra, divide-nos num grupo ou em outro. Em meio aos constantes chamados institucionais para acabar a discriminação, o Registro Civil cubano ainda mantêm uma categorização social para cada cidadão. Junto à data de nascimento e o endereço onde moramos, especifica-se também se somos brancos, mestiços ou negros. A escolha de um “B”, “M” ou “N”, numa nação com tanta mestiçagem passa muitas vezes pela subjetividade de um funcionário.
Em meio a tantas prioridades, de tantos direitos por exigir e injustiças por terminar, pareceria insignificante reclamar a retirada de uma letra da nossa cédula de identidade. Contudo, tão pequena presença não diminui em nada sua gravidade. Mais ainda quando o próprio documento já tem uma foto do seu titular, onde se podem ver os traços físicos.
Nenhum cidadão deve ser avaliado pela cor de sua pele, nem situado numa categoria segundo a quantidade de pigmento que carrega em sua epiderme. Tais resíduos burocráticos têm mais de arquivo carcerário do que de registro cívico. Não é uma questão de melanina, mas sim de princípios.
Tradução por Humberto Sisley

‘Isso é lindo’, por J. R. Guzzo

Publicado na edição impressa de VEJA
J. R. GUZZO
A tolerância é sem dúvida uma das mais belas virtudes do ser humano e, também, uma das mais úteis ─ sua aplicação já salvou este mundo de uma infinidade de sofrimento, guerras e toda a coleção de misérias que só o homem tem talento suficiente para inventar. Seu problema, como ocorre com tantas outras virtudes, é que está disponível ao público em duas versões, a legítima e a falsa. A tolerância, quando falsificada, pode passar muito rapidamente de coisa do bem a coisa do mal, ao se transformar em covardia, apatia moral e cumplicidade com o erro. Nesses casos, em vez de agir em favor da paz, apenas serve de estímulo a quem age em favor da guerra. Poucas vezes o Brasil teve a oportunidade de viver com tanta clareza esse tipo de situação como nos dias de hoje, quando muita gente capaz dos melhores sentimentos permitiu que uma atitude legítima ─ a de aceitar tumultos de rua em nome do direito de expressão ─ degenerasse na aprovação geral de condutas doentias. Da “compreensão” passaram para a simpatia, da simpatia para o apoio e do apoio para o incentivo aberto a ações descritas como criminosas pelo Código Penal ─ incluindo, ao fim da linha, o homicídio.
Os responsáveis são os de sempre ─ intelectuais, cidadãos apresentados como pensadores, essa nebulosa chamada “esquerda”, artistas, funcionários da área de telenovelas da Rede Globo etc. Embora a baderna só lhe cause prejuízo, o governo também fica a favor dos “manifestantes”, por oportunismo compulsivo. A imprensa, rádio e televisão, em grande parte, se aliaram à manada: há oito meses, desde que a violência explodiu nas ruas, repetem que a grande culpada por tudo é a “brutalidade policial”, e que os atos de destruição durante as arruaças são “episódios isolados”. Até o recente assassinato de um colega no Rio de Janeiro, o cinegrafista Santiago Andrade, a maioria dos jornalistas tinha o cuidado de chamar os agressores de “ativistas”, “militantes” etc. e nunca daquilo que realmente são.
O assassinato de Andrade, cometido por dois marginais a serviço da “nossa luta”, desarrumou a cabeça de quem tinha optado pela complacência diante da atividade criminosa praticada nas ruas contra a democracia. O que vão dizer agora? O que já disseram é bem sabido. “O anarquismo é lindo”, opinou o compositor Caetano Veloso. A ministra Luiza Bairros, titular da área de Igualdade Racial da Presidência, falou em “agenda libertadora”. O senador Eduardo Suplicy, do PT, disse que a violência cometida por bandos de delinquentes era “quase romântica” e motivada por “boas intenções”. O que poderia haver de romântico no assassinato de um cinegrafista? A atriz Camila Pitanga, num desses vídeos da internet que anunciam o fim do mundo, não deu sorte: revelou seus temores de que “alguém” viesse a morrer uma hora dessas, mas quem matou foi a turma que ela julgava estar em perigo de vida. Uma colega, no mesmo vídeo, disse que a destruição era justa porque visava a “alvos simbólicos”. Em Brasília, diante de uma tentativa do MST de invadir o Supremo Tribunal Federal e o Palácio do Planalto, o secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, foi à rua “negociar” com os chefes desse desatino. Negociar o quê? Se poderiam, por gentileza, fazer o obséquio de não invadir o Supremo? Carvalho deu sua bênção à baderna. “Tem de pressionar mesmo”, disse ele. De que lado o homem está? A OAB do Rio já deixou clara sua opção, ao anunciar a prodigiosa doutrina segundo a qual os “manifestantes” têm todo o direito de levar armas às ruas, para “defender-se da violência” policial.
O horizonte não parece promissor. Na arruaça de Brasília, houve 42 feridos; trinta eram da polícia. O marginal flagrado atacando um PM com um estilete, em São Paulo, está solto. Na verdade, após oito meses de agressão à ordem, há apenas um preso ─ além dos dois assassinos de Andrade. Mas a simpatia com a “nossa luta” continua de pé, como mostra o tratamento de celebridade dado à “ativista” Elisa Quadros, que frequenta a obscura fronteira entre o crime, a polícia e os arrabaldes de partidos nanicos da extrema esquerda. Ela exerce algum tipo de comando nos “black blocs”; também é chamada de Sininho e tida como “cineasta”, além de exercer as funções de “musa”. A moça, entre outras coisas, sustenta que a culpa pela morte do cinegrafista foi, no fundo, dele mesmo, por não ter usado um capacete de proteção durante o quebra-quebra em que foi assassinado. Essa alucinação, acredite quem quiser, é levada a sério por muita gente ─ a começar pela OAB. Lindo, não?

ITAMARATY PAGA MANSÃO DE MARAJÁ A CÔNSUL-GERAL NOS EUA

A mansão apareceu até na TV e na internet, no programa “Casa dos Ricos”

O corte de despesas deteminado pelo Itamaraty, que inclui até economizar material de escritório, não afetou a vida de milionário americano do cônsul-geral em Hartford (Connecticut), Cézar Amaral.
A mansão tem cinco quartos, seis banheiros, salão de jogos, academia de ginástica com cem aparelhos e quadra de basquete, longe da “muvuca” de brasileiros que emigraram em busca do sonho americano e deram um duro desgraçado. O aluguel da casa está avaliado em US$ 10 mil (R$ 23,5 mil) por mês
O pequeno castelo ocupado por Amaral em Greenswood Place 45, Glastonbury, apareceu na TV e no site americano “Casa dos Ricos” e está avaliada em US$1,8 milhão, o que para os padrões astronômicos de preços no Brasil pode ser considerada uma pechincha. Quem se habilita?
Casa Consul Quarto
Um das cinco suítes da mansão
Casa Consul Cozinha
Cozinha da casa de R$ 4 milhões
Casa Consul Sala
Sala de estar com pé direito duplo
Casa Consul Jardim
Jardim da casa do cônsul
Diário do Poder

CAIO BLINDER- O samba do russo doido (IV)

No domingo, fantasiado de John Kennedy em tempos de crise, Obama conversou com Putin
Fantasiado de John Kennedy em tempos de crise, Obama conversou com Putin
A Ucrânia está uma doideira. Eu e tantos leitores da coluna estamos lendo de forma adoidada sobre a crise. Gurus, kremlinólogos, crimeialogos e consultores de risco disparam as análises mais variadas e desenham os cenários mais criativos. Antes de tudo, vamos tranquilizar os foliões, tanto os literais, como os intelectuais. Em Sebastopol e Simferopol, não está começando a Terceira Guerra Mundial. A encrenca é enorme, mas muito menor do que uma Sarajevo, estopim da primeirona há 100 anos.
Em termos morais, o que Vladimir Putin está fazendo é indefensável, mas os ucranianos não têm como se defender. A revolução em Kiev, consumada com a fuga do palácio do avestruz Viktor Yanukovich, mexeu com o nosso homem em Moscou, o urso. Eu volto à citação do historiador Timothy Garton Ash de que sem a Ucrânia a Rússia não é um império e, assim, com o perdão do trocadilho infame, Putin se torna um Putinho.
Podemos até dizer que estamos em uma Guerra Fria 2.0, mas ela sofreu um downgrade. O megaguru Ian Bremmer (do grupo Eurasia) observa que a Rússia não importa como costumava no cenário global. Na verdade, grande parte do problema é o fato de ser um poder declinante. E não há jeito de convencer o nosso homem em Moscou desta realidade. Outro problema, ainda mais grave, é a posição diplomática mais fraca dos EUA. Barack Obama já está convencido disso.
Quanto ao miniguru do Instituto Blinder & Blainder, ele perde um pouco o rumo devido ao ritmo vertiginoso dos acontecimentos. É o rascunho da história sendo escrito e reescrito a todo momento. No entanto, o miniguru acredita que o controle da Crimeia (naturalmente russa) é missão essencial e visceral para Putin. Ele precisa de um governo camarada em Kiev (até menos ladrão e truculento do que Yanukovich) e fará o que puder para alcançar seu objetivo, mas não despachando os tanques para a capital ucraniana.
Nosso homem em Moscou não tem bala, ao contrário do que sacam a musa da coluna, Julia Ioffe, e outros analistas, para sequer invadir o leste da Ucrânia, a banda russa do país. Concordo com o pessoal do grupo Eurasia nesse sentido. Na expressão de uma recente avaliação de seus analistas, o “custo, risco e responsabilidades desta ação são provavelmente muito altas para ser a primeira opção de Moscou”.
Erros de cálculo, descontrole e provocações de vários atores podem levar a este desfecho perigossísimo. Até as eleições ucranianas de 25 de maio, o grupo Eurasia estima em 40% a chance de uma invasão russa do leste da Ucrânia. Algum tipo de absorção da Crimeia por Putin seria, well, absorvido pelo Ocidente. Além, não dá para encarar.
O Instituto B & B é ruim de números. Não vai colocar uma estatística, mas ainda projeta algum arranjo para a desescalada da crise nos próximos dias, fruto dos limites das ambições de Putin e das pressões do Ocidente para dar um tempo na doideira. Se eu estiver errado, a culpa é do nosso homem em Moscou e de algum megaguru.

AS DECISÕES DE OUTUBRO, Percival Puggina



Completou-se, na manhã de quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014, mais uma página na história da construção da hegemonia petista. Ela desenha para o Brasil um estado totalitário, à margem da democracia constitucional. Confirmou-se a formação de uma bancada governista dentro do Supremo Tribunal Federal, situação que passamos a partilhar com os países do eixo bolivariano que, há mais tempo, abandonaram o princípio da independência dos poderes. O STF, apesar de todos os seus pesares, ainda era um último recurso contra o arbítrio. Varreu-se, agora, a linha divisória que nos separava do mundo das trevas onde reina, todo poderoso, o partido que hegemonizou a política nacional. Cerrou-se a porta onde poderíamos bater para conter o braço longo do Estado em suas ingerências na vida privada e o uso abusivo do aparelho estatal. O petismo, que governa a República, que chefia e partidariza o Estado, que mantém a soldo a maioria parlamentar, capturou também o STF para seu aprisco.



O modelo institucional brasileiro, tão mal concebido, tão fácil de ser empalmado por quem tenha vocação totalitária, prevê que os membros dos tribunais superiores sejam indicados à aprovação parlamentar pelo chefe do respectivo poder executivo. Assim, quem indica os ministros do STF é a pessoa que preside a República. Essa norma, esculpida na Constituição, pressupunha o natural rodízio dos partidos no mais elevado escalão do poder nacional. Não cogitaram, os constituintes, a possibilidade de um mesmo partido exercer a presidência durante sucessivos mandatos, por 12 ou, mesmo, 16 anos. Pensaram que a gangorra das maiorias e o rodízio dos governantes permitiriam a renovação do STF, preservando conveniente pluralidade. No entanto, a solidificação de uma hegemonia no governo da República foi transformando a Corte em colegiado a ele subalterno.



Quando Joaquim Barbosa, com a habitual sem cerimônia, afirmou ao novato Roberto Barroso que seu voto tinha todo jeito de ter vindo pronto quando chegou ao STF no ano passado, ele estava fazendo a leitura de um período muito triste da história do Brasil. O Supremo encolhendo como poder e sendo composto como mesa de banquete nos regabofes palacianos.



Diante desse cenário é importante levar em conta que a eleição do dia 5 de outubro não será como outras quaisquer. O que estará em disputa quase definitiva não é uma simples escolha entre dois ou mais nomes. Nosso país estará decidindo se quer ser uma republiqueta bolivariana ou uma nação respeitável, alinhada com as democracias do planeta. Impossível recusar esta verdade bem simples: não é entre tais democracias que o partido hoje hegemônico em nosso país gosta de estar. Seus dirigentes não escondem seu apreço pelas piores companhias, nem seus afetos pelos ditadores e demagogos que infernizam nações vizinhas, alinhadas com as confabulações do famigerado Foro de São Paulo. Em 5 de outubro estaremos fazendo uma escolha praticamente definitiva sobre o tipo de civilização em que queremos nos desenvolver como nação, que tipo de ambiente cultural queremos integrar, que tipo de direitos queremos exercer e de deveres aceitamos cumprir. Isso é bem mais do que eleger um governante.



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* Percival Puggina (69) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site www.puggina.org, colunista de Zero Hora e de dezenas de jornais e sites no país, autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia e Pombas e Gaviões, membro do grupo Pensar+.

Vamos proibir a venda de facas?

Leio no jornal sobre a tragédia ocorrida na China:
Homens armados com facas mataram neste sábado pelo menos 28 pessoas e feriram outras 113 em uma estação de trem chinesa, informou a agência de notícias oficial Xinhua. O ataque aconteceu na estação de Kunming, na província de Yunnan. Em seu site, a televisão estatal chinesa classificou o ato como “um violento ataque terrorista”.
“Foi um organizado, premeditado e violento ataque terrorista”, afirmou a Xinhua.
Segundo a estatal Yunnan News, os homens estavam usando uniformes pretos quando invadiram a estação ferroviária. A polícia matou cinco integrantes do grupo e procura outros cinco suspeitos. O presidente chinês, Xi Jinping, pediu que não sejam poupados esforços na busca pelos agressores.
A China afirmou que militantes islâmicos de Xinjiang foram resposáveis pelo ataque.
Em primeiro lugar, meus pêsames a todos os parentes e amigos das vítimas deste atentado bárbaro, mais um nas costas dos fanáticos islâmicos, ao que tudo indica. Mas peço vênia ao leitor para, invocando Adam Smith, utilizar essa desgraça chinesa para alguma reflexão proveitosa a nós mesmos, brasileiros.
Em Teoria dos Sentimentos Morais, o filósofo escocês imagina a reação de um humanitário a um terremoto que devasta a longínqua China. Ele iria expressar intensamente sua tristeza pela desgraça de todos esses infelizes. Faria “reflexões melancólicas sobre a precariedade da vida humana e a vacuidade de todos os labores humanos, que num instante puderam ser aniquilados”. Mas quando toda essa bela filosofia tivesse acabado, “continuaria seus negócios ou seu prazer, teria seu repouso ou sua diversão, com o mesmo relaxamento e tranqüilidade que teria se tal acidente não tivesse ocorrido”.
Pode ser chocante, mas é uma visão realista. Deixando o sentimentalismo de lado, gostaria de propor a seguinte questão a todos: devemos proibir a venda de facas? Não enlouqueci, nem estou brincando. Estou apenas levando a lógica dos desarmamentistas adiante.
Casos como esse acontecem na China com bastante frequência. Morte por armas brancas é algo muito comum por lá. Assassinos não deixam de matar porque armas são proibidas. Afinal, armas não matam; pessoas sim. E com as “armas” que estiverem à disposição, seja no mercado legal, seja no ilegal.
A turma do desarmamento prefere a retórica aos efeitos concretos de suas ideias, a sensação pessoal de parecer um pacifista ao resultado prático desse pacifismo. A tragédia na China parece distante de nossas realidades. Provavelmente o leitor vai continuar aproveitando o feriado do Carnaval como se nada tivesse acontecido.
É da vida, como Adam Smith sabia. Somos seres voltados aos próprios interesses, em círculos concêntricos que priorizam nossa família, nossos amigos, nossos compatriotas e por aí vai, nesta ordem.
Mas que possamos usar essa desgraça chinesa, ao menos, para refletir sobre as bandeiras desarmamentistas tão em voga por aqui, por parte de nossos “intelectuais progressistas”. Tirar armas de fogo dos cidadãos ordeiros não reduz a criminalidade. Apenas os transforma em alvos mais dóceis dos criminosos e também de estados autoritários, como vemos na Venezuela hoje.
E quando bandidos ou terroristas quiserem realmente agir, até mesmo facas poderão se transformar em instrumentos de execução coletiva.
Rodrigo Constantino

A Rússia patrimonial não liga para a liberdade individual

Os recentes acontecimentos na Ucrânia, com Putin liderando aquilo que já pode ser caracterizado como uma invasão ao território vizinho, trouxeram à memória uma resenha que escrevi de um ótimo livro do historiador Richard Pipes sobre o país.
Conheci Moscou, onde fui três vezes, e acompanhei a Rússia em detalhes por dois anos, por questões profissionais. O autoritarismo é sua marca registrada. Há pouco valor ao indivíduo e suas liberdades. Czarismo, depois bolchevismo, e agora a autocracia de Putin: o denominador comum é a ausência de apreço pelas liberdades.
A visão predominante é a de submissão a algum líder poderoso qualquer, assim como a ideia de um estado forte, imperialista, dominador é a melhor expressão de virilidade para o povo. Talvez isso explique aquilo que Sarah Palin antecipou, sob forte ridicularização dos “intelectuais progressistas”: que a Rússia ainda iria invadir a Ucrânia!
Segue meu artigo:
A Rússia patromonial
“A história da Rússia oferece um excelente exemplo do papel que a propriedade desempenha no desenvolvimento dos direitos civis e políticos, demonstrando como a sua ausência torna possível a manutenção de um governo arbitrário e despótico.” (Richard Pipes)
Na Rússia, a noção de direitos individuais era totalmente submersa pela noção de obrigações para com o monarca. Somente em 1785 a coroa garantiu a posse de propriedades. Comparar a história da Rússia com a da Inglaterra, como fez Richard Pipes em seu livro “Propriedade e Liberdade”, é bastante elucidativo para comprovar a teoria do autor de que o direito de propriedade privada é uma condição totalmente necessária para que exista liberdade, ainda que não seja condição suficiente.
Quando a terra é escassa, a população acaba tendo que encontrar maneiras de resolver pacificamente os conflitos a respeito dela. O excesso de terras na Rússia acabou gerando um efeito perverso nesse sentido, pois a oferta parecia inesgotável. Os primeiros vikings na Rússia eram formados por uma casta militar-comercial, e não desenvolveram a agricultura nem adquiriram propriedades fundiárias – em contraste com a Inglaterra, onde os conquistadores normandos reivindicaram a posse de todo o solo. A propriedade privada era um produto da benevolência do Estado. A monarquia era tão hostil para com a propriedade privada que recusava-se a reconhecer como propriedade inviolável mesmo pertences pessoais, reconhecidos como tal pelas sociedades mais primitivas.
O desenvolvimento do poder parlamentar na Inglaterra esteve estritamente ligado à necessidade da coroa de assegurar a aprovação parlamentar dos impostos e das taxas alfandegárias por não ser independente financeiramente. Na Rússia, em contraste, os czares não precisavam da autorização de ninguém para criar impostos, regalias e tarifas. Não tinham necessidade de parlamentos. Eles podiam apropriar-se de terras e confiscar qualquer mercadoria comerciável, podendo taxar a população conforme a sua vontade. A aristocracia rural e os burgueses eram servidores do Estado na Rússia, não desfrutando de nenhuma segurança econômica. O que importava eram os favores da coroa.
Pedro, O Grande, apesar de visto como o monarca que mais tentou ocidentalizar a Rússia, acabou na prática marcando o apogeu do patrimonialismo czarista. O poder da coroa tornou-se ainda mais arbitrário. A carga tributária foi imensamente aumentada. O governo e a Igreja detiveram o direito exclusivo de imprimir livros até 1783, e depois disso exerceram o poder através da censura. O Estado controlava as empresas comerciais também, prática bem diferente do que ocorria na Inglaterra, onde desde o século XIII já havia empresas licenciadas, trabalhando para particulares. Os servos tornaram-se sujeitos ao serviço militar compulsório no exercício permanente.
Durante o governo de Catarina, a Grande, alguns direitos de propriedade foram reconhecidos, mas estavam algo como 600 anos atrasados em relação à Inglaterra. Os pequenos e tardios avanços deveram-se à necessidade de Catarina aliar-se à pequena fidalguia fundiária para fortalecer seu poder. Ela foi bastante influenciada pelos fisiocratas, que viam a propriedade privada como a mais fundamental das leis da natureza e a agricultura como principal fonte de riqueza. Entretanto, a maior liberdade favorecia apenas uma pequena minoria, enquanto que para a maioria a servidão acabou intensificada. Desde o seu começo, já bastante tardio, o direito de propriedade na Rússia ficou associado à consolidação do poder da nobreza sobre os camponeses.
Na primeira metade do século XIX, medidas adotadas por Alexandre I e Nicolau I deram passos maiores rumo à liberdade dos servos e nobres. Em 1802, Alexandre proibiu os senhores de exilarem servos para a Sibéria, e em 1807 de condená-los a trabalhos forçados. Nicolau I ampliou os direitos econômicos dos servos, permitindo-lhes em 1848 adquirir propriedades rurais e urbanas despovoadas. Em 1861 foi assinado o decreto de emancipação dos servos.
A democracia política, ainda bastante limitada, chegou à Rússia somente em 1905 como resultado das pressões sobre o regime czarista trazidas pela derrota na guerra contra o Japão. A hostilidade intensificou-se durante a Primeira Guerra Mundial. O palco para a revolução bolchevique, inspirada nos philosophes franceses, estava armado. Com a tomada do poder pelos comunistas, todas as liberdades e direitos, junto com a propriedade, desapareceram por completo. Tinham raízes muito pouco profundas, e foram reduzidas a pó. O terror e a escravidão que vieram com a revolução fizeram os anos dos czares parecerem suaves.
Richard Pipes conclui que “a experiência da Rússia indica que a liberdade não pode ser legislada; ela precisa crescer gradualmente, em forte associação com a propriedade e a lei”. Infelizmente para os russos, a propriedade privada nunca fincou suas raízes no solo da Rússia, cujo poder sempre esteve arbitrariamente concentrado no Estado. Enquanto a mentalidade inglesa, calcada na propriedade privada, pariu em 1776 a nação até então mais livre da história, a mentalidade patrimonialista russa gerou o regime mais genocida do mundo. Há um abismo intransponível entre ambos.
Rodrigo Constantino

Representante dos funcionários da Petrobras no conselho da empresa diz pérola – e que pérola – sobre reajuste no preço da gasolina

Petrobras atrás das grandes rivais pelo mundo
Petrobras: ações desvalorizadas e mais dívidas
Foi de arrepiar os cabelos algumas pérolas que saíram da boca de José Maria Rangel, o representante dos funcionários da Petrobras no conselho de administração da empresa, numa reunião com investidores na segunda-feira passada.
Perguntado se era a favor de um reajuste no preço da gasolina, o que ajudaria o combalido caixa da empresa, Rangel mandou: “Sou representante dos funcionários e, para os funcionários, seria muito ruim um aumento, pois eles teriam que gastar mais para encher o tanque”.
Rangel parece não entender o dever fiduciário de zelar pelos interesses da empresa. Acha que está ali representando os funcionários como consumidores de gasolina.
A propósito, as ações da Petrobras estão derretendo, mas no coração do governo a ideia de controlar a inflação represando o preço do combustível mantém-se sem alteração.
A possibilidade de um reajuste está atrelada a um bom resultado da inflação em fevereiro e em março.
Por Lauro Jardim

O novo livro de Diogo Mainardi



Mainardi: na imprensa italiana
Mainardi: livro novo
Depois de vender 100 000 exemplares de A Queda, de 2012, Diogo Mainardi acaba de assinar um contrato com a Record para um novo livro.
Autorretrato (título ainda provisório) terá o dinheiro como tema e o plano de Mainardi é usar como pano de fundo Tiziano, para ele “o pintor mais ganancioso de todos os tempos” – e também o seu predileto.
Não será uma biografia nem de um romance, mas uma reportagem em primeira pessoa sobre o mundo financeiro, com um pé na arte do Renascimento.
Por Lauro Jardim

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LIBERDADE COMO NOSSO DOM MAIOR

Ser livre para ir e vir!Pela liberdade de expressão.Pela humanidade contra os pregadores da escuridão que assolam nosso mundo moderno.Democracia verdadeira sempre,não aquela de fachada que persegue quem não compartilha de suas idéias.