quarta-feira, 19 de março de 2014

Eduardo Campos, o presidenciável do PSB, vai para a guerra

Reportagem de Otávio Cabral, publicada em edição impressa de VEJA
CAMPOS VAI PARA A GUERRA
O governador de Pernambuco abandona o tom conciliador e ataca Dilma Rousseff para se mostrar como candidato viável de oposição
A pomba branca da paz é o símbolo do Partido Socialista Brasileiro. O governador de Pernambuco e presidente do partido, Eduardo Campos, combina com essa imagem. Conciliador, sempre atuou como ponte entre governo e oposição, principalmente em momentos de crise.
Ao mesmo tempo em que era ministro de Lula, mantinha diálogo cordial com líderes do PSDB, como Aécio Neves e Fernando Henrique Cardoso. Nos oito anos à frente do governo de Pernambuco, atraiu o empresariado e agradou à população — tanto que sua popularidade beira os 90%.
Com a decisão de se candidatar à Presidência da República, porém, Campos passou a atuar de maneira mais incisiva. Em setembro, rompeu com a presidente Dilma Rousseff e entregou todos os cargos que o PSB ocupava no governo federal. Na semana passada, subiu o tom e, pela primeira vez, atacou nominalmente a antiga aliada e agora adversária: “Não dá para ter mais quatro anos de Dilma, o Brasil não aguenta”.
O Campos da paz está pronto para a guerra eleitoral.
“Respeito a presidente Dilma. Mas ela foi eleita para melhorar o país e só faz piorar”, declarou o governador a VEJA. “Quem quer ser presidente tem de mostrar por que o governo é ruim e por que o dele vai ser melhor. É óbvio, mas nas últimas três eleições ninguém fez isso.” A mudança não é só de discurso — e também não é apenas baseada na conclusão óbvia de que oposição tem de criticar governo.
Campos com Dilmas em tempos de mais proximidade:
Campos com Dilmas em tempos de mais proximidade. Agora, ele diz: “Ela foi eleita para melhorar o país e só faz piorar” (Foto: Agência Brasil)
Campos, em seu último mês no governo de Pernambuco, dedica-se a estudar pesquisas feitas pelo PSB que mostraram que dois terços do eleitorado não estão satisfeitos com Dilma. Metade deles, no entanto, não sabe apontar o nome de um candidato de oposição. Para atingir esse público, Campos decidiu antecipar sua entrada na arena eleitoral e endurecer o discurso.
Aos 48 anos, o economista Eduardo Henrique Accioly Campos deixará pela segunda vez seu Recife. A primeira foi em 1995, quando assumiu o mandato de deputado federal. Ele passou doze anos em Brasília, até voltar a Pernambuco como governador. Em abril, após deixar o governo, vai se mudar para São Paulo.
A mudança também foi decidida com base nas pesquisas feitas pelo sociólogo argentino Diogo Brandy, que o acompanha há uma década. Campos irá com Marina Silva, sua candidata a vice. São Paulo concentra um terço do PIB e um quarto do eleitorado brasileiro. E, pela primeira vez desde 1950, não tem um candidato a presidente. Na cidade ficarão o comitê, a produtora e o estúdio da campanha. O objetivo da jornada paulista, com base nas estimativas de Brandy, é conquistar até 30% desse eleitorado.
A estratégia para isso é dividir a chapa: Campos se concentrará nas articulações com empresários e políticos, enquanto Marina priorizará o contato direto com o eleitorado, principalmente o mais jovem e mais pobre.
Marina bateu o pé para não apoiar tucanos em SP
A aliança entre Campos e Marina foi vista com desconfiança quando anunciada, em outubro. Nos primeiros meses, as divergências superaram as convergências, principalmente por Marina não aceitar a proximidade dele com Aécio Neves e com o PSDB.
Há um mês, eles tiveram uma discussão séria em uma reunião na casa do ex-ministro Roberto Amaral, em Brasília. “Quando você vai anunciar que será vice?”, perguntou Amaral. “Só quando vocês decidirem ter candidato próprio em São Paulo. Não aceito apoiar o PSDB”, respondeu Marina. A condição foi aceita.
PSB e PSDB não vão mais se aliar em São Paulo. E Marina deverá anunciar no programa de TV do PSB, que irá ao ar no dia 29, que será vice. “Se eu quisesse ser candidata a presidente, teria entrado em outro partido”, costuma repetir. “Sendo vice, eu posso continuar sonhando. E o Eduardo é o mais preparado para executar meus sonhos.”
Embora muitas vezes já fale como presidente, Campos sabe que a guerra será dura — ainda mais para quem tem apenas 12% das intenções de voto. A primeira batalha será para ocupar o posto de principal nome da oposição — hoje com o senador tucano Aécio Neves, que é mais conhecido, pertence a um partido mais estruturado e tem mais afinidade com o empresariado.
Depois, precisará chegar ao segundo turno, para, por fim, derrotar Dilma Rousseff e conquistar o cargo que seu avô Miguel Arraes sempre cobiçou e jamais exerceu. E tudo isso longe de outro Miguel, o filho que nasceu há três meses com síndrome de Down e ficará no Recife com a mãe e os quatro irmãos enquanto Campos estiver na trincheira da campanha presidencial.

Luta livre

Dora Kramer - O Estado de S.Paulo


Presidente do Tribunal Superior Eleitoral pela terceira vez em quatro anos, o ministro Marco Aurélio Mello deixa o TSE em maio próximo com uma preocupação: a excessiva tolerância da Justiça Eleitoral com as repetidas infrações à legislação em vigor.

O ministro vê nisso uma tendência crescente entre os magistrados que batizou de "minimalismo judicial". Por essa visão, o Judiciário deve interferir o mínimo possível nas questões relativas às disputas político-partidárias deixando que elas se resolvam longe dos tribunais.

Na prática, há ampla adesão a essa corrente por parte dos partidos, que cada vez menos recorrem a medidas judiciais a fim de que não sejam também prejudicados por ações dos adversários, e do Ministério Público que assiste inerte aos inúmeros e flagrantes desrespeitos à lei.

A campanha eleitoral antecipada ao arrepio do prazo legal está aí para comprovar o que diz o ministro Marco Aurélio - que cita outro exemplo: os programas reservados à propaganda anual dos partidos. Em tese é vedada a temática eleitoral, mas todas as legendas têm aproveitado os espaços para apresentar e exaltar os respectivos candidatos.

"Isso é feito sem a menor atenção às regras, criando um descompasso entre a realidade prática e a exigência formal", diz o ministro, cujo temor é que disso resulte a prevalência da "lei do mais forte".

Na opinião dele, nessa eleição agora a Justiça Eleitoral terá rédeas menos curtas que nas anteriores, o que levará à perda de eficácia da legislação e ao estímulo ao desrespeito geral.

A lei tenderá a ser "algo lírico" e a ausência de regulação nas balizas de atuação dos partidos abre, segundo a análise de Marco Aurélio Mello, espaço para o vale-tudo. Na prática, um retrocesso civilizatório.

Autor de um dos mais contundentes discursos contra a "rotina de desfaçatez" que tomava conta do País quando assumiu a presidência do TSE pela segunda vez em 2006, o ministro não pretende se pronunciar a respeito do "minimalismo judicial" na despedida, em 13 de maio.

Conhecido pelo gosto por se expressar contra a corrente com seus votos vencidos no Supremo Tribunal Federal, nesse assunto o ministro se dá por vencido: "Falar para quê? Não vai adiantar".

Provocações. Eduardo Campos e Aécio Neves combinaram: vão começar a cobrar a presença da presidente Dilma nos debates a serem promovidos entre candidatos à Presidência.

Apostam que a orientação da assessoria dela será a de participar do menor número possível de embates desse tipo e querem faturar a recusa como receio de enfrentamento.

Ocorre, porém, que aliados da presidente argumentam que há vários exemplos de governantes que não compareceram (Fernando Henrique, inclusive), pois o prejuízo da ausência é sempre menor que eventuais derrapadas.

Ainda mais em se tratando de dois personagens mais bem providos que ela nos quesitos simpatia e experiência política. Na verdade, a expressão usada entre petistas para pontuar a vantagem dos netos de Miguel Arraes e Tancredo Neves é "malandragem política".

Esses mesmos aliados acham que a presidente também deve evitar ao máximo responder aos ataques de um e de outro, para "não dar cartaz" a quem está precisando ficar em evidência para se tornar conhecido do eleitorado nacional.

É a economia. O PSDB voltou a desistir de se aliar a outro partido na eleição estadual do Rio de Janeiro. A avaliação é que é mais vantajoso para a candidatura presidencial ter candidato próprio.

O senador Aécio Neves recomeçou a caça a um nome. Procura convencer um economista de renome, cuja identidade pretende manter em segredo até que (e se) a negociação dê certo. Só adianta que não se trata de Armínio Fraga.

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