quinta-feira, 20 de março de 2014

Alexandre Garcia- Jabuti no galho



Ainda lembro os tempos de inflação a 5000% ao ano, com Funaro congelando os preços e os fiscais do Sarney nas ruas, a prender “especuladores”, sem mandado judicial. Lembro daqueles tempos – hoje venezuelanos – de prateleiras vazias e de polícia entrando nos pastos para prender boi gordo. E ainda testemunhei Plano Bresser, Plano Verão. E o maluco Plano Collor, em que o Antônio Ermírio de Moraes e eu dispúnhamos no banco do mesmo limite de $50,00 cruzados - socialismo é isso aí. Também lembro quando o presidente Itamar me ligou e me passou o furo do real, que logo deixou de ser plano para ser cotidiano e ninguém mais ouviu falar em hiperinflação nesses últimos 25 anos.

Mais atrás no tempo, lembro de quando um colega de ginasial me pediu emprestado o relógio Roamer que eu havia ganho de minha tia. Ele demorou dias sem devolver e fui à casa dele, saber o que acontecia. Era filho do sapateiro e o quarto dele ficava logo atrás da oficina do pai. Fui entrando, como fazia sempre e encontrei uma surpresa sobre a escrivaninha de meu amigo João Carlos: meu relógio havia sido desmontado e ele não sabia como remontar. A lembrança veio para comparar com o que o governo tem feito hoje com o relógio que recebeu funcionando. Mexeram na engrenagem mais sensível do relógio da economia: o preço da energia – justo o ponto em que a presidente teria fama de entender.

Já apequenaram a Petrobras e a Eletrobrás. O aparelhamento partidário levou a nossa petroleira às páginas policiais. É a denúncia de propina na Holanda, compra superfaturada da refinaria no Texas, as maquiagens contábeis. A atual presidente da estatal já recebeu assim o abacaxi. É a empresa mais endividada do mundo; neste ano, importa 60 mil barris de gasolina por dia e 160 mil barris/dia de diesel. O governo procura empurrar as conseqüências para depois da eleição, como manda o conselheiro-mor da presidência, que é o Marqueteiro-Geral da República. O objetivo é manter o poder a qualquer custo – desde que não seja custo eleitoral para o governo. O contribuinte paga. Paga imposto, paga bolsa-família, paga déficit. E a presidente será reeleita.

Ainda que haja algum tropeço no caminho e que apareça alguma alternativa que conquiste o povo das bolsas, a partir de 1º de janeiro vamos todos ter que carregar pedras morro acima. Se ganhar o governo, a oposição vai dizer “bem-feito., vai colher o que semeou”. Se a oposição por acaso ganhar, os atuais governistas vão dizer, ante o caos do ano que vem: “eu não disse?”. Porque a nação inteira vai pagar as conseqüências do desmonte do relógio da economia, do aparelhamento partidário do estado, do pesadelo resultante do sonho ideológico que não deu certo em lugar algum do planeta. Mas não joguem a culpa só nos políticos. Se jabutis estão no galho, foi porque alguém os pôs lá.


Caio Blinder- Putin, o perdedor

O presidente russo quando adolescente
O presidente russo quando adolescente
Na coluna de quarta-feira sobre o revisionismo de Vladimir Putin, eu dei espaço para dois ex-embaixadores americanos em Moscou, muito críticos do presidente russo. Nesta coluna, eu vou dar a palavra para outro ex-embaixador americano com uma postura que podemos definir como mais balanceada. Jack Matlock é uma figura histórica e quem ler seu artigo entenderá. Matlock esteve lá, nos estertores da Guerra Fria, quando servia em Moscou, a Moscou ainda da União Soviética, nos tempos de negociações de Ronald Reagan e George Bush (pai) com Mikhail Gorbachev e Boris Yeltsin.







Matlock, na cortina (não de ferro), em reunião Reagan/Gorbachev


Matlock lamenta que desde o final da Guerra Fria o Ocidente tenha tratado a Rússia como “loser”. A expressão é forte. Significa mais do que perdedor. “Loser” é um fracassado, um pobre coitado. O termo é humilhante em uma brincadeira de crianças. E Matlock acredita que a postura nesta crise ucraniana seja infantil e estridente tanto da parte dos EUA como da Rússia (é uma avaliação que contrasta com uma mais comum, tratando o presidente Obama como distante e relapso, nada estridente). O ex-embaixador Matlock inclusive minimiza a crise, dizendo que não se trata de uma retomada da Guerra Fria, mas de desentendimentos e de teatro para plateias domésticas (esta não é a opinião dos ucranianos).
Não vou dar todos os detalhes do artigo. O acesso para a íntegra está indicado acima. No entanto, destaco a avaliação de Matlock de que sucessivos governos americanos (Clinton, Bush e Obama) não trataram a Rússia com o devido respeito no pós-Guerra Fria (no caso de Obama foi mais o Congresso do que a Casa Branca). Para o ex-embaixador, foi gerado um ciclo de ações e reações que envenenaram as relações entre EUA e Rússia. A ocupação militar da Crimeia pelos russos exacerbou a situação e muito mais a anexação. Matlock vislumbra um cenário de recriminações mútuas e sanções econômicas reminiscente da Guerra Fria. É um cenário sem vencedores, apenas de perdedores.
Agora, minha intervenção, quase telegráfica. A URSS, de fato, perdeu a Guerra Fria de forma estrondosa (nem vou entrar aqui no debate se foi fruto das ações do outro lado ou da dinâmica interna) e sem dúvida o Ocidente (a destacar os EUA) deu alguns passos errados que geraram revanchismo e ressentimento no que hoje é a Rússia, um império enxuto. Matlock inclusive ressalta que no começo Putin era muito cordato, receptivo ao Ocidente.
No entanto, é ingenuidade imaginar que pirulitos teriam sido suficientes para adoçar alguém como Putin. Ele vive em estado de autocomiseração adolescente, misturado com petulância igualmente adolescente, lamentando o rumo que a história tomou. Seu revanchismo é marca registrada. Depois do caos que se seguiu ao esfacelamento da URSS, Putin veio para reconstruir o aparato de segurança, beneficiar os “seus” oligarcas e fazer tudo ao seu alcance para restaurar glórias passadas. Putin não está aí para aceitar placidamente a derrota. Não quer ser um “loser”.
Entre os grandes vencedores da Guerra Fria estiveram a Alemanha reunificada e países da Europa Oriental, a destacar a Polônia. Muito se fala que é preciso buscar equilíbrio no jogo de interesses e aceitar esferas de influência. Este cálculo deve ser feito no caso da Rússia, mas existem outros atores envolvidos. A Polônia tem seus interesses e os países b álticos também. Natural que quisessem a incorporação à Otan, a aliança militar ocidental, como proteção contra a Rússia.
E na crise em curso, é preciso levar em conta os interesses da Ucrânia. Ela não pode sair como “loser” nesta história.

Caio Blinder- Putin, o revisionista



Um discurso histórico no Kremlin
Vladimir Putin fez um discurso brilhante e sinistro na terça-feira ao anunciar a anexação da Crimeia pela Rússia. Ele manteve o tom de desafio e expôs hipocrisias ocidentais (numa típica performance de agitprop), mas calibrou a belicosidade. Putin deve continuar a provocar a Ucrânia, mas a curto prazo deu a entender que não haverá uma invasão ou desestabilização em larga escala. O problema é definir o curto prazo. Putin é imprevisível e a situação ucraniana é volátil.
No discurso, Putin jogou para várias plateias e deixou várias coisas em aberto. Teve esta sinalização de que ele não enviará tropas mais a fundo na Ucrânia, além da Crimeia, mas Putin manteve a mensagem de que o governo interino em Kiev é ilegítimo, dominado por nacionalistas, fascistas e antissemitas.
Putin quis tranquilizar os ucranianos que a Rússia não tem propósitos expansionistas ou planeja rachar o território do vizinho, mas em um ponto do discurso ele questionou os direitos históricos da Ucrânia no leste e sul do país, onde há uma grande percentagem de russos étnicos. Para um dirigente que considera o fim da URSS a grande catástrofe geopolítica do século 20, sempre haverá margem para revisionismo histórico no século 21 e no discurso de terça-feira Putin foi pródigo na cantilena das humilhações russas e soviéticas. Ele padece de ressentimento histórico e quer revisar o passado.
Uma figura constante nesta coluna, Gideon Rachman, do Financial Times, adverte sobre o perigo de guerras começarem pela revisão de livros históricos. Ele menciona Rússia, China e Japão, mas para não desgalhar vamos ficar apenas com o nosso homem em Moscou. Em janeiro, Putin “presidiu” uma reunião, ou seja, deu as ordens para que sejam produzidos novos livros escolares para o ensino de história.
Ele reclamou que muitos textos nas escolas russas são “lixo ideológico” e “denigrem o papel do povo soviético na luta contra o fascismo”. O líder do Kremlin, ex-agente da KGB lotado na ex-Alemanha Oriental, não gosta especialmente da narrativa de que os países da Europa Oriental foram ocupados pela União Soviética em 1945. Putin prefere a narrativa histórica de que os soviéticos salvaram estas nações do fascismo. Estes povos foram libertados.
Como  já foi dito na coluna, aspecto essencial da agitprop 2014 é denunciar o governo interino em Kiev como fascista e herdeiro ideológico dos ucranianos que se aliaram aos nazistas para combater os soviéticos na Segunda Guerra Mundial (e como rotular os soviéticos que se aliaram aos nazistas no começo da Segunda Guerra Mundial para fatiar a Polônia?). Ironicamente, Rachman lembra que Putin tem relações calorosas com o governo conservador da Hungria liderado por Viktor Orbán, que tem encorajado a reabilitação de Miklos Horthy, o líder autoritário e antissemita do país entre as duas guerras mundiais.
Em Sebastopol, na Crimeia, ao embalo dos velhos tempos
Em Sebastopol, na Crimeia, ao embalo dos velhos tempos
Ninguém vai negar os laços históricos da Crimeia com a Rússia (o que deve ser negada é esta anexação ilegal e a toque de caixa). Michael McFaul, professor de Stanford e até fevereiro embaixador dos EUA em Moscou, fez um comentário ilustrativo. Ele disse que quando servia na Rússia raramente a questão da Crimeia era levantada por autoridades locais. McFaul não tem registro de um discurso de Putin devotado ao drama dos russos da Crimeia antes da atual crise. Stephen Sestanovich, outro acadêmico-diplomata nos EUA, observa que o governo russo nunca havia manifestado apoio até agora ao desmembramento de território de uma ex-república soviética e sua incorporação à Rússia.
No pronunciamento de terça-feira, Putin qualificou a Crimeia de “terra santa”, coerente com uma narrativa em que o ex-agente da KGB soviética incorporou um nacionalismo religioso ao seu exercício de poder. Tudo isto num cenário de nostalgia stalinista em Moscou e na Crimeia, ao embalo da velha melodia do hino soviético, enquanto na nova letra do hino da Federação Russa a pátria é  ”protegida por Deus”.
McFaul é categórico para afirmar que Putin reagiu (reação emocional na sua expressão) aos eventos em Kiev (a deposição do governo pró-russo de Viktor Yanukovich em fevereiro) e não tinha uma grande estratégia de anexação da Crimeia. Foi um movimento tático. Stephen Sestanovich diz que o nosso homem em Moscou improvisou. A história caiu nos braços do Putin. Para ele, agora é só revisar.

Vaias: Dilma na versão “Dilma Bolada”…

Por André Uzêda, na Folha:
A presidente Dilma Rousseff (PT) foi vaiada nesta quinta-feira (20) em Belém ao subir no púlpito para fazer um discurso sobre investimentos federais em projetos de mobilidade urbana na capital paraense. Devido ao protesto, Dilma abriu o discurso dizendo que “respeitava o direito de opinião dos brasileiros” e ressaltou que “o país vive na democracia”. O governador do Pará, Simão Jatene, e o prefeito de Belém, Zenaldo Coutinho, ambos do PSDB, também receberam vaias.
Um grupo composto por cerca de 45 manifestantes protestou porque não foi incluído no programa federal de habitação Minha Casa, Minha Vida. No auditório, havia cerca de 550 pessoas. De acordo com um dos manifestantes, Floriano Vieira, 36, os moradores do bairro de Jurunas tiveram suas casas desapropriadas para ampliação de uma pista em 2008. A promessa, segundo ele, é que seriam incluídos agora no programa de habitação, o que Vieira afirma não ter ocorrido. “Eles nos pagam R$ 450 como forma de compensar o problema, mas é muito pouco. Só meu aluguel hoje é R$ 600″, diz Vieira.
(…)
Durante o discurso, porém, a presidente cometeu uma gafe ao trocar o nome do Estado do Pará pelo Ceará. Ao perceber o incômodo da plateia, se desculpou prontamente. “Quis dizer Pará… Desculpa gente. É porque ontem vim do Ceará”, disse, em referência a viagem a Fortaleza e Sobral realizada ontem.
(…)
Por Reinaldo Azevedo

Minha Casa, meu voto

O Estado de S.Paulo


Contempladas pelo programa Minha Casa, Minha Vida, cerca de 400 famílias de Pacatuba, na região metropolitana de Fortaleza, esperam há um mês pelas chaves de suas casas, que já estão prontas. O motivo do atraso, como mostrou reportagem do Estado, retrata bem o lado eleitoreiro do programa: de acordo com as autoridades locais, será preciso aguardar a inauguração oficial do empreendimento, que será realizada pela presidente Dilma Rousseff - mas só quando ela encontrar um tempinho em sua agenda.



Uma das beneficiárias do programa no Ceará disse que está contando "as horas, os minutos e os segundos" para finalmente receber as chaves. "Vou lá todo dia só para ficar olhando minha casa novinha. Fico olhando do lado de fora um tempão", disse ela, revelando o absurdo da situação.

O prefeito de Pacatuba, José Alexandre Alencar (PROS), disse que "a agenda da nossa chefe maior é uma loucura", porque Dilma "tem muita coisa para fazer no Brasil e no mundo", razão pela qual "está difícil conciliar" (a agenda) com a inauguração de um conjunto habitacional na Grande Fortaleza. Alencar, cujo partido é da base aliada da presidente, disse que até já foi a Brasília pedir que a inauguração fosse antecipada, mas a previsão é que a "festa", como disse o prefeito, só aconteça no mês que vem.

Outra beneficiária do programa sugeriu que os moradores recebessem logo as chaves, deixando a inauguração para quando a presidente estivesse disponível. "Ela poderia deixar a gente entrar na casa e depois, quando desse, viria nos visitar", disse a moradora. "A gente teria o prazer de receber a presidente dentro de casa, com tudo arrumadinho, com os móveis no lugar." A singeleza dessa mãe de três filhos pequenos deveria bastar para que a presidente deixasse de pensar apenas em sua reeleição e autorizasse logo a entrega das chaves, sem a necessidade da fanfarra palanqueira.

Se Dilma fizesse isso, no entanto, não seria Dilma, pois cada ato de seu governo, cada segundo de sua agenda de compromissos, cada palavra destrambelhada que ela pronuncia são milimetricamente ajustados para caber no esforço da campanha eleitoral. Enquanto isso, a prefeitura de Pacatuba se desdobra para explicar às famílias beneficiadas que a responsabilidade pelo atraso na entrega das casas é do governo federal.

"Precisamos entregar essas casas, todo mundo está cobrando e tem gente que acha até que o nome foi retirado da lista de beneficiados", disse Elisangela Campos, secretária de Assistência Social do município. "Se ela (Dilma) puder vir, vai ser uma honra; caso contrário, ela poderia mandar um representante." Mas a presidente, que usa essas inaugurações para tirar fotos com eleitores e fazer discursos de campanha, certamente não delegará essa tarefa a terceiros.

O Minha Casa, Minha Vida tornou-se o retrato perfeito de um governo que promete o paraíso e entrega, no máximo, o purgatório. Principal vitrine eleitoral de Dilma, o programa há tempos coleciona denúncias de irregularidades e problemas de infraestrutura nos imóveis.

Há casos comprovados de aparelhamento pelo PT, num esquema em que quase todos os projetos aprovados na cidade de São Paulo foram apresentados por entidades dirigidas por filiados ao partido, que privilegiam petistas na seleção de candidatos ao financiamento. Além disso, o Tribunal de Contas da União já verificou sinais de fraudes na inscrição de milhares de beneficiários, que teriam apresentado um perfil de renda inferior ao real para se adequarem ao programa. E há o problema da qualidade das casas. Abundam reclamações de moradores, Brasil afora, sobre rachaduras, vazamentos e infiltrações - em muitos casos, os problemas aparecem apenas alguns meses depois que Dilma entrega as chaves.

Não se questiona a importância dos programas de habitação e de urbanização. Ao contrário: o investimento ainda é tímido ante as necessidades do País. É por isso mesmo que esse tema deveria ser tratado com muito mais responsabilidade, e não como mero ativo eleitoral, como tem feito a presidente.

Pode ser a gota d'água

Celso Ming - O Estado de S.Paulo


Quem afirma que o atual repuxo da inflação está sendo causado pela seca está pinçando só um pedacinho de verdade. É o mesmo que sustentar que os megaengarrafamentos de trânsito em São Paulo são produzidos ou por acidentes envolvendo motoqueiros, ou por eventual toró que despenca numa tarde qualquer, ou, ainda, por obras da Prefeitura.

Esses e outros fatores dão lá sua contribuição para o emperramento geral, é verdade. Mas o fato mais relevante é que há muito o trânsito nas grandes cidades virou o caos que é porque há carro demais e porque o transporte público é precário.

Assim, também, é a inflação. É uma corda tão esticada que basta um período de seca ou mesmo chuvoso demais para que surjam novas convulsões.

Há anos não se via uma prévia tão explosiva do IGP-M (Índice Geral de Preços do Mercado) como a divulgada ontem: alta de 1,41% na segunda prévia de março. Só para comparar, em fevereiro, foi de 0,24%. Por trás desse número está a disparada dos preços dos alimentos, em consequência da seca.

Mas, como nos congestionamentos, os problemas são mais profundos. A seca provocou estragos nas plantações de tomate e esses estragos foram transferidos aos preços. Mas os preços estão sendo sancionados pela forte demanda.

Ainda ontem ficou claro que os postos de combustíveis estão elevando os preços da gasolina e do óleo diesel sem que tenham sido recompostos os preços nas refinarias. É que a demanda firme está sancionando a alta. O consumidor paga, com alguma ou nenhuma chiadeira.

A cavalgada do IGP-M aponta para mais dois problemas. O primeiro é o que alguns economistas já chamaram de gravidez de inflação. A alta por enquanto está concentrada nos preços no atacado (no IGP-M, os preços no atacado entram com 60% do peso). Mas tende a ser transferida para o varejo (custo de vida).

O segundo problema é a turbinagem produzida pelas correções automáticas. O IGP-M é o índice mais utilizado nas correções dos aluguéis e dos financiamentos. Ou seja, a alta do tomate desemboca no preço da moradia e nos contratos de crédito.

O Banco Central, a instituição encarregada de combater a inflação, não tem como derrubar os preços do tomate. Isso apenas acontecerá quando os produtores estiverem em condições de normalizar o fornecimento. Mas o Banco Central terá de combater os efeitos colaterais com o instrumento de que dispõe, a política monetária (política de juros), que é o fole que injeta ou retira moeda do sistema e, assim, reduz ou aumenta os juros da economia.

Se o governo apertasse mais a política fiscal (o fole que aumenta ou reduz as despesas públicas), o Banco Central teria um aliado. Mas está acontecendo o contrário. A informação recorrente é de que, nessa prateleira, as coisas estão piorando. Um dia é o déficit da Previdência que vai ter novo estouro; outro, que a arrecadação ficou abaixo do esperado; ou, então, que o Tesouro terá de pagar uma conta mais alta de energia elétrica. Enfim, a economia é um pote cheio até aqui. "Qualquer desatenção, faça não. Pode ser a gota d'água."

Dora Kramer- FEITIÇO INVERTIDO

Dora Kramer - O Estado de S.Paulo


Tantas o governo fez com a Petrobrás, tanto usou e abusou politicamente da empresa que acabou criando um passivo que pode se voltar contra seus interesses na campanha pela reeleição da presidente Dilma Rousseff.

Demorou, mas a conta das festividades chegou. A imagem do então presidente Luiz Inácio da Silva de macacão e mãos lambuzadas de petróleo anunciando a autossuficiência do Brasil tendo ao lado a ministra das Minas e Energia, apresentada como responsável pelo êxito que não se realizou, é um contraponto constrangedor ante a realidade atual.

Perda expressiva do valor de mercado, loteamento de cargos, manejo artificial de preços e negócios esquisitos como esse da compra da refinaria no Texas ao custo inicial de US$ 360 milhões para um gasto final de US$ 1,18 bilhão, são alguns dos pontos que o PT - sempre acostumado a usar a Petrobrás para atacar os adversários - será desafiado a explicar.

Não espanta que a presidente Dilma, quando ministra da Casa Civil e presidente do Conselho de Administração da Petrobrás, tenha avalizado a compra da refinaria, conforme revelou o Estado.

Afinal, o negócio só poderia mesmo ter sido realizado com autorização do colegiado que, de acordo com a ata da reunião realizada em 3 de fevereiro de 2006, tomou a decisão por unanimidade.

Espantosa é a justificativa dada por ela ao jornal. A presidente disse que foi induzida ao erro por informações incompletas contidas em pareceres técnicos fornecidos pela diretoria internacional da empresa.

Dois anos depois, segue esclarecendo a assessoria do Palácio do Planalto, as informações completas vieram à tona. Se fossem conhecidas, diz a nota, "seguramente" o negócio não teria sido aprovado pelo conselho.

Tal esclarecimento depõe contra os atributos de competência e austeridade da profissional Dilma Rousseff - ao menos da forma como ela é apresentada em palanques -, além de não fazer jus à indispensável transparência no tocante à administração pública.

Há algum tempo essa transação com a refinaria americana vinha sendo questionada sem que o governo se desse ao trabalho de esclarecer detalhes a respeito da decisão, deixando para fazê-lo apenas depois de divulgado o conteúdo da ata da reunião do conselho, numa explicação, convenhamos, obscura.

Por ela, todo o Conselho de Administração da Petrobrás autorizou a compra de uma refinaria ignorando cláusulas do contrato que implicariam desembolso mais de três vezes maior que o valor original aprovado.

Fica, assim, aberta uma avenida por onde a oposição poderá abrir alas e pedir passagem para usar o tema Petrobrás na campanha eleitoral. O PT não terá direito a reclamar, pois foi o primeiro a incluir o assunto na agenda eleitoral.

Agora, no entanto, a situação se inverte, pois habituado a ter a empresa como instrumento de ataque e vanglória, o partido estará na defensiva tentando evitar prejuízos decorrentes do uso da empresa que tantos benefícios políticos proporcionou.

No limite. Sobre a possibilidade de a presidente Dilma Rousseff ganhar as eleições no primeiro turno há na seara governista duas visões diferentes.

Visto de fora do Planalto, o panorama indica que não há a menor hipótese. Já pela ótica palaciana ainda há boas chances, desde que mantidos os atuais índices de intenções de votos.

Para isso é preciso estreitar ao máximo a margem de erros a serem cometidos e, portanto, uma decisão está tomada: enquanto puder a presidente não irá a debates com os adversários.

A avaliação é a de que no primeiro momento Dilma só teria a perder e os oponentes tudo a ganhar.

Autocombustão. Os arautos do enfrentamento com o Congresso pareciam interessados em "cavar" uma derrota para o governo ao insistir na votação do Marco Civil da Internet na sessão de ontem da Câmara, a despeito dos alertas em contrário do presidente da Casa, Henrique Eduardo Alves.

A ponderação acabou prevalecendo, mas a insistência deu a impressão de que havia gente no Planalto em busca de pretexto para radicalizar.

Ao microfone. Não obstante alguns conselhos de aliados para que deixe o Senado em prol de maior mobilidade eleitoral, o tucano Aécio Neves não pretende abrir mão da tribuna e fica no exercício do mandato até a convenção do PSDB, em junho.

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