sábado, 22 de março de 2014

Reserva de mercado para cinema nacional é indefensável


Reserva de mercado para cinema nacional é indefensável

Já escrevi aqui um apelo contra as cotas para cinema nacional, mas volto ao tema hoje após artigo de Cacá Diegues publicado no GLOBO. Claro, o autor é parte interessada, como cineasta, e está no seu direito de defender uma reserva de mercado que lhe beneficia. Mas pretendo argumentar que tal medida atenta contra o público consumidor, leia-se todos nós, brasileiros.
Cacá Diegues começa seu texto trazendo à tona um fato histórico para pintar um quadro de que o ataque às cotas nacionais é coisa de grandes grupos americanos interessados em nosso mercado. Em seguida afirma que, atualmente, um pequeno grupo gaúcho de exibidores estaria por trás desse ataque, pois entrou com pedido no STF para julgar inconstitucional tais cotas, que beneficiam várias categorias ligadas à produção do cinema nacional.
Há, contudo, um sujeito oculto no artigo do cineasta: o consumidor. Toda reserva de mercado costuma ignorar esse detalhe: e os direitos dos consumidores? Cotas, subsídios, reserva de mercado, são todos instrumentos que servem para beneficiar grupos produtores, à custa dos consumidores. E isso quase nunca é dito por aqueles que mascaram seus próprios interesses sob o manto do “interesse nacional”. Por acaso os milhões de consumidores não fazem parte da nação?
Para defender o indefensável, Cacá Diegues volta no tempo, curiosamente dando um tiro no próprio pé. Diz ele:
Essa reserva de mercado para filmes nacionais existe desde o início dos anos 1930, quando o presidente Getúlio Vargas instituiu-a. Em 1951, em seu segundo governo, Vargas criou o “oito por um” — para cada oito filmes estrangeiros, a sala era obrigada a programar um brasileiro. Essa cota progrediu e se tornou um dos pilares de 80 anos de construção do cinema brasileiro. Nem mesmo durante a ditadura militar ela foi contestada, apesar de tantos filmes brutalmente censurados pelo regime.
Ou seja, tudo começou com uma ditadura. Primeiro ponto contra as cotas. Segundo: mais de 80 anos não foram suficientes para tirar a indústria de cinema nacional da infância, a ponto de precisar dessa grande ajuda estatal? Quantas décadas mais são necessárias? Por fim: o regime militar também não mexeu nisso, e isso vai contra as cotas novamente. Era um regime nacionalista (vide Geisel), que não colocava o consumidor no centro de suas prioridades.
A lógica que serve para sustentar reserva de mercado para o cinema nacional serviria também para sustentar qualquer outra reserva. O que há de tão especial assim em produzir filmes? Por que não carros? Computadores? Ops! Já tivemos essa experiência com a “Lei da Informática” e não foi muito agradável: o país foi condenado ao atraso tecnológico. No caso da indústria automotiva, na infância por 70 anos, ainda temos os carros mais caros do mundo!
Será que os consumidores estão felizes? Parece-me que não. Mas Cacá Diegues pensa que há algo de especial em sua indústria sim. Diz ele:
O audiovisual é o espelho de uma nação. Sem ele, seria como se vivêssemos numa casa sem espelho, onde não vemos nosso rosto, não sabemos nos reconhecer. O crescimento, a diversidade e o sucesso de público recente dos filmes brasileiros podem fazer até com que não precisemos mais de cotas. Mas sem elas, nosso público estaria condenado a ver apenas comédias, não haveria mais espaço para filmes inovadores. Numa democracia, temos que respeitar o gosto do público e, ao mesmo tempo, criar condições para a manifestação das minorias que desejam mudá-lo.
Eis onde mora o perigo! Essas minorias, organizadas, da elite, em simbiose com o próprio estado, desejam mudar a sociedade, o gosto público. E não pretendem fazer isso competindo no próprio mercado, o que dá muito trabalho. Querem verbas estatais e reserva de mercado. Para produzir que tipo de filme? Lula, o filho do Brasil? Ou filmes enaltecendo os comunistas Olga e Che Guevara? Socorro!
O cão não morde a mão que o alimenta. Quando o grande mecenas da sétima arte é o estado, então teremos filmes feitos sob medida para agradar aos poderosos burocratas e políticos donos do carimbo especial que concede verbas e cotas. Prefiro a livre concorrência, mesmo com o “terrível” risco de um filme americano persuadir os brasileiros de que os Estados Unidos são o máximo (muito mais provável, na Hollywood de hoje, tomada pela esquerda, de ser justamente o contrário).
Por fim, Cacá Diegues apela para um ufanismo um tanto bobo, ao dizer: “Além disso, a cota de tela tem também um valor simbólico, como se enfiássemos a bandeira no chão, afirmando que aquele território é nosso”. Esse “valor simbólico” bastante tribal acaba sendo pago por todos nós, de forma compulsória, o que não me parece lá muito justo. Espero que o STF tenha bom senso e coloque um fim nessa farra toda…
Rodrigo Constantino
Meu comentário: Quem faz bem feito não precisa ter medo do mercado.Ser chupim é ser desonesto com o contribuinte, é dinheiro do povo. 

É esse regime que o PT defende?


É esse regime que o PT defende?

Há um mês, uma estudante fazia um “panelaço” em protesto ao governo venezuelano, quando uma moto se aproximou, e um integrante da Guarda Nacional disparou dois tiros à queima-roupa no seu rosto. Até hoje o governo de Nicolás Maduro não se manifestou, não procurou a família da vítima, não pediu desculpas. Sua mãe deu uma entrevista ao Estadão:
Como Geraldine morreu?
O regime (de Nicolás Maduro) matou minha filha. Ela estava na porta de casa, fazendo um panelaço, como fazemos todos os dias às 20 horas. Um integrante da Guarda Nacional chegou em um moto e deu dois tiros à queima-roupa no seu rosto. Ela perdeu os olhos, parte da bochecha e massa encefálica.
Como ela era?
Ela tinha 23 anos e estudava biologia celular. Estava no quinto semestre da faculdade. Ela jogava futebol e seu jogador preferido era Ronaldo. O time era o Real Madrid. Não somos oligarcas nem fascistas. Somos apenas uma das famílias que estão protestando porque não temos abastecimento de comida, não temos luz, não temos gás, não temos remédios, não temos médicos, não temos recursos. Os jovens venezuelanos estão indo para o exterior porque não há futuro na Venezuela. Eu sou divorciada e Geraldine vivia comigo. Era minha companheira.
Alguém do governo a procurou depois da morte de sua filha?
Não, ninguém. Amanhã (hoje) faz um mês que ela morreu e ainda não se sabe qual foi o integrante da Guarda Nacional que a matou.
É esse regime que o PT defende? É esse governo que a presidente Dilma apoia? É esse modelo que nossas esquerdas radicais chamam de “justiça social”?
Rodrigo Constantino

Caio Blinder


Será que esta coluna está obcecada com Vladimir Putin?

Capa da atual edição com o sério deboche
Capa da atual edição com o sério deboche
Não! Esta coluna não está obcecada com Vladimir Putin. Ela apenas trabalha com o máximo de profissionalismo possível e o mínimo de formalidade necessária para tratar de alguns temas áridos e complicados. Aqui é o samba da política internacional doida. A coluna tem principios básicos, inscritos aí em cima: civilização, direitos humanos, geopolítica e outras picuinhas. A crise ucraniana é um daqueles game changers que levou este jornalista a ser obcecado por política internacional desde o início de sua carreira quando Jimmy Carter e Leonid Brezhnev eram dirigentes de superpotências e as notícias ainda eram recebidas por telex na redação.
É preciso ser cerebral para tentar entender o big game nesta crise e não ser ludibriado pelowishful thinking, mas sem abrir mão da convicção de que eu devo me alinhar com países, partidos, líderes, pensadores e movimentos alinhados com os valores da democracia ocidental. E a tal história, lembrada no editorial da revista The Economist: muitos países (e muitos leitores aqui) são ressentidos com o imperfeito primado americano e a cantilena ocidental, mas podemos garantir que as ideias de Vladimir Putin para organizar uma nova ordem mundial são muito piores do que tudo o que está aí.
Para deter Hitler, eles foram necessários, mas tanques vindos do leste não costumam ser coisa boa. E obcecado com Putin, o próprio.

Caio Blinder- Rabiscos estratégicos (Otan & Ucrânia)

A Otan, a aliança militar ocidental, manifesta sua gratidão a Vladimir Putin por suas travessuras ucranianas. A agressão militar russa, a violação da soberania de um país e a anexação de parte de seu território (a Crimeia) resgataram a Otan de sua trajetória rumo à irrelevância. Sua missão no Afeganistão está terminando e o foco dos EUA, cansado de guerra e principal acionista da aliança criada na Guerra Fria, se deslocara para o Oriente Médio e o Pacífico.
Mas, diante dos desdobramentos ucranianos, existe uma rápida mudança de percepção e confirmação de premonições. Como disse a presidente da Lituânia, Dália Grybaustakaite, “graças a Deus, nós somos membros da Otan”. Com a integração na aliança, a Lituânia, outros dois países bálticos (a Estônia e a Letônia) e a Polônia estão explicitamente sob proteção militar, ao contrário da Ucrânia e outras ex-repúblicas soviéticas.
Com a escalada da crise nas últimas semanas, a Otan foi à carga modestamente com o incremento de patrulhas aéreas e manobras militares no Báltico, na Polônia e também na Romênia. A modéstia reflete o desejo de não provocar o urso russo com vara longa e o mero desequilíbrio de interesses. A Crimeia vale muito mais para Moscou do que para as capitais ocidentais. No entanto, a Otan pode cantar vitória: o lance russo deve renovar apoio popular nos países membros da aliança e nos pretendentes, além de reviver o propósito da missão. E com a perspectiva de um prolongado conflito com a Rússia, será brecado e mesmo revertido o corte de orçamento entre os integrantes da Otan.
Uma das ramificações mais delicadas da crise ucraniana envolve a expansão da Otan. O governo interino da Ucrânia seguiu o figurino e para não dar mais pretextos belicosos para Putin descarta qualquer interesse em aderir à aliança. O dilema, porém, é flagrante e o jogo intrigante. De um lado, é preciso apaziguar Moscou. Do outro, se precaver. No seu discurso triunfalista na terça-feira em Moscou, anunciando a anexação da Crimeia, Putin garantiu que não quer dividir a Ucrânia ou avançar no leste daquele país. Duas semanas antes, ele dissera que “não considerava” a possiblidade da Crimeia se juntar à Rússia. Quantos rublos vale a palavra de Putin? É obrigação da Otan e dos países ocidentais traçar uma convincente linha vermelha e não permitir que os russos invadam o leste da Ucrânia.
Arrebatar a Crimeia foi basicamente um prêmio de consolação para Moscou depois da queda do governo pró-russo em Kiev, de Viktor Yanukovich em fevereiro. Um objetivo geopolítico essencial de Vladimir Putin é impedir que a Ucrânia entre na Otan, além de sua integração mais profunda com a União Europeia. Tais movimentos ucranianos são “linhas vermelhas” para o dirigente russo, suas fichas de barganha.
Se as condições de Putin forem acatadas, em princípio não haverá novas movimentações russas para abocanhar território ucraniano. Moscou deve calibrar as provocações e o grau de desestabilização no país vizinho de acordo com a dinâmica da coisas e tudo indica que seja dia a dia. Caso não aconteça nenhum terrível acidente de percurso (incidente em larga escala), uma data-chave será a eleição ucraniana de 25 de maio. O que fará Moscou caso os ucranianos queiram pender para o Ocidente?
Mas, tudo é vago na crise e são voláteis as definições do que pode e não pode ser feito. Qualquer iniciativa da Otan poderá servir de desculpa para as provocações de Putin (e vice-versa). Putin tem uma aliança com ele mesmo. Enquanto as coisas são mais difusas do outro lado, com um trabalho penoso para se conseguir o consenso. A conversa de expansão da Otan gera divisões internas. Em 2008, Alemanha e França rechaçaram a proposta do então governo americano de George W. Bush para agregar a Ucrânia e a Geórgia.
No entanto, muito mais está em jogo nesta crise e  a razão de ser da Otan mais convicta após uma crise de identidade. Afinal, a ordem pós-Guerra Fria foi enterrada com os últimos acontecimentos em  Kiev (a revolução de fevereiro) e na Crimeia (a anexação em março). Agora, temos os contornos ainda não definidos de uma nova rivalidade Ocidente x Rússia.
A Otan vive dilemas sobre sua extensão e com qual nitidez demarcar posição, mostrando firmeza sem errar na dose. Com o urso russo, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.
***

Seguidores

Arquivo do blog

LIBERDADE COMO NOSSO DOM MAIOR

Ser livre para ir e vir!Pela liberdade de expressão.Pela humanidade contra os pregadores da escuridão que assolam nosso mundo moderno.Democracia verdadeira sempre,não aquela de fachada que persegue quem não compartilha de suas idéias.