sábado, 29 de março de 2014

Caio Blinder- A lógica da radicalização III (Síria)

Se queremos visitar a Síria (desolada, sombria e de um quadro negro), um guia familiar na coluna é o blogueiro com o pseudônimo Edward Dark. Ele é um ex-ativista da oposição à ditadura Assad nos primórdios da rebelião há pouco mais de três anos que ficou desiludido com o rumo da luta, desiludido com a radicalização dos rebeldes.
Houve um tempo em que os ativistas eram predominantemente liberais e seculares, provenientes de todos os setores sociais e religiosos. Na lógica da radicalização, estes setores foram marginalizados e passaram a ser caçados, primeiro pelo regime executor de crimes contra a humanidade e depois pelos extremistas islâmicos.
Estes valorosos ativistas civis são agora uma espécie em extinção. Em sua maioria, morreram, estão na prisão ou fugiram do país.  E temos a história da cristã Marcell Shehwaro, ativista conhecida em Aleppo, um dos cenários mais lúgubres da guerra civil. Na resistência à ditadura desde o começo desta crise, ela e seu grupo se deslocaram para o leste de Aleppo depois que a área foi “liberada” por rebeldes em julho de 2012.
Com a radicalização das facções rebeldes (algo conveniente para o regime Assad e sua narrativa de que combate terroristas financiados por países estrangeiros), a situação de ativistas como Marcell Shehwaro ficou problemática. A crença em uma Síria secular e democrática é intolerável para os jihadistas. Na semana passada, quando ela fazia murais para os mártires da revolução para marcar o terceiro aniversário da rebelião, Marcell foi abordada por um membro de um grupo jihadista, exigindo que ela colocasse o hijab na cabeça. Marcell disse que era cristã, houve uma confusão e ela foi presa. Levada para um tribunal islâmico, Marcell foi libertada após firmar um acordo se comprometendo a vestir o véu de agora em diante. Em um post no Facebook, que por medo ela mais tarde removeu, Marcell escreveu “ser impossível para cristãos conviverem com esta oposição armada”.
Edward Dark também relata seu reencontro com  Misho, a mentora do seu “agora defunto” grupo de ativistas, que também é  cristã. Ela abandonou o apoio aos rebeldes quando ocorreu a invasão de Aleppo e hoje se dedica a ajudar combatentes rebeldes a escapar para a Turquia. Estão desiludidos com a luta armada, mas não querem se entregar, com medo de serem assassinados pelo  regime Assad. Dark arremata com as seguintes palavras: “Isto sintetiza o dilema de todos os sírios honrados, cercados por inimigos em todas as frentes de uma guerra desonrosa”.
***

‘Passa, passa, Pasadena’, um artigo de Fernando Gabeira

Fernando Gabeira* - O Estado de S.Paulo


Água era o meu foco. Revisitava o Rio Piracicaba castigado pela seca. No passado fui a algumas reuniões do Comitê de Bacia. Já havia na época uma preocupação com o futuro do rio, tão solicitado: abastece uma região em crescimento e mais 8,8 milhões de pessoas em São Paulo.



Lembrei, à beira do Piracicaba, alguns autores no fim do século passado afirmando que a água seria o petróleo do século 21, com potencial de provocar conflitos e até guerras. Mas ao falar no petróleo como algo do passado constatei que está na ordem do dia. Enterraram uma fortuna em Pasadena, no Texas. Outra Pasadena, na Califórnia, é a cidade cenário da sitecom The Big Bang Theory.

Pois é, nossa Pasadena começou com um singular ponto que se expande de forma vertiginosa. Foi uma espécie de Big Bang na consciência dos que ainda duvidavam que a Petrobrás estivesse indo para o buraco nas mãos dos aliados PT e PMDB. Diante dos fatos, vão-se enrolar de novo na Bandeira Nacional, sobretudo num momento de Copa do Mundo, fulgurante de verde e amarelo.

Os críticos da Petrobrás não são bons brasileiros. Bons são os que se apossaram dela e a fizeram perder R$ 200 bilhões nestes anos e despencar no ranking das grandes empresas do mundo.

O líder do governo, senador Eduardo Braga (PMDB-AM), disse que a perda desse dinheiro faz parte do jogo capitalista de perde e ganha. Se fosse numa empresa privada, dificilmente seus diretores resistiriam no cargo. Em Pasadena enterrou-se dinheiro público. O que deveria ser mais grave em termos políticos.

Pasadena é uma boa versão com sotaque latino para Waterloo. Dilma Rousseff afirma que assinou a compra da refinaria no Texas sem conhecer as cláusulas. Depois disso conheceu. Ela lançou uma nota para explicar o momento em que não sabia. E se esqueceu de explicar todos os anos de silêncio e inação.

Os diretores que teriam omitido as cláusulas que enterram mais de US$ 1 bilhão em Pasadena continuaram no cargo. Até a coisa explodir mesmo. Tenho a impressão de que tentaram sentar-se em cima da refinaria de Pasadena. Sentaram-se numa baioneta, porque não se esconde um negócio desastroso de mais de US$ 1 bilhão.

Os fatos começam a se desdobrar agora que os olhares se voltam para esse refúgio dos nacionalistas, defensores da Pátria enriquecidos.

Uma empresa holandesa cobrou US$ 17 milhões da Petrobrás por serviços que não constavam do contrato. A primeira parcela da compra em Pasadena foi declarada como US$ 360 milhões, mas no documento americano ela foi registrada como uma compra de US$ 420 milhões. Refinarias compradas no Japão têm as mesmas cláusulas do contrato desastroso de Pasadena.

Um amigo de Brasília me disse ao telefone: "Se esse Paulo Roberto Costa, diretor da Petrobrás, abrir a boca, a República vai estremecer". Conversa de Brasília. Quantas vezes não se falou o mesmo de Marco Valério?! O que pode trazer revelações são os computadores, pen drives e documentos encontrados na casa dele. A Polícia Federal não acreditava que ele iria falar, tanto que o prendeu com o argumento de que estava destruindo provas.

Passa, passa, Pasadena, quero ver passar. A Petrobrás da nossa juventude, dos gritos de "o petróleo é nosso", se tornou o reduto preferido dos dois grandes partidos que nos governam. O petróleo é deles, do PT e do PMDB. Levaram o slogan ao pé da letra e suas pegadas na maior empresa do País demonstram que devoram até aquilo que dizem amar.

De certa forma, isso já era evidente para mim nas discussões dos contratos do pré-sal. Eles impuseram uma cláusula que obriga a Petrobrás a participar de todos os projetos de exploração. Não deram a chance à empresa de recusar o que não lhe interessava.

Tudo isso é para fortalecer a Petrobrás, isto é, fortalecer-se com ela, com uma base de grandes negócios, influência eleitoral e, de vez em quando, uma presepada nacionalista, tapas imundos de óleo nas costas uns dos outros, garrafas de champanhe quebradas em cascos de navios.

Lá, no Texas, os magnatas do petróleo usavam aqueles chapéus de cowboy. Lá, em Pasadena. Aqui, os nossos magnatas em verde e amarelo estão com poucas opções no momento. Ou reconhecem o tremendo fracasso que é a passagem dos "muy amigos" da Petrobrás pela direção da empresa ou se enrolam na Bandeira e acusam todos de estarem querendo vender a Petrobrás. Diante das eleições e da Copa do Mundo, devem optar por uma alternativa mais carnavalesca.

Mas os fatos ainda não são de todo conhecidos. Deverá haver uma intensa guerra de bastidores para que não o sejam, especialmente os documentos nas mãos da Polícia Federal.

Pasadena. Certos nomes me intrigam. O mensalão não seria o que foi se não houvesse esse nome tão popular inventado por Roberto Jefferson, que no passado apresentava programas populares de TV. Pasadena soa como algo esperto, dessas saidinhas em que você vai e volta em cinco minutos, leve e faceiro. Mas pode ser que Pasadena não passe e fique ressoando por muito tempo, como o mensalão. E se tornar uma saidinha para comprar cigarros, dessas sem volta, para nunca mais.

Criada uma comissão no Congresso Nacional, envolvidos Ministério Público e Polícia Federal, podem sair informações que, somadas às de fontes independentes, deem ao País a clara visão do que é a Petrobrás no período petista. Não tenho esperança de que depois disso todos se convençam de que a Petrobrás foi devastada. Mas será divertido vê-los brigando com os fatos, com as mãos empapadas de óleo.

Diante do Rio Piracicaba meu foco é a água. Na semana passada, vi como na Venezuela o uso político do petróleo deformou o país. No Brasil o alvo da voracidade aliada é a Petrobrás.

E se a água é o petróleo do século 21, daqui a pouco vão descobri-la, quando vierem lavar as mãos nas margens dos nossos rios.

*Fernando Gabeira é jornalista.

“Eu falava muito com meus botões. Agora até eles se fazem de surdos.” (Limão)

“A necessidade é a mãe da invenção, inclusive do papel-higiênico.” (Pócrates)

“Aparência e Hipocrisia. Madames sempre presentes na alta sociedade.” (Filosofeno)

Foto de miss amordaçada vira ícone na luta contra Maduro

Miss Universo Stefania Fernandez (Reprodução/Daniel Bracci)

A coroa sobre a cabeça da bela jovem indica seu título de miss. No entanto, ela está amordaçada e uma lágrima marca seu rosto sujo como se fosse sangue. Stefanía Fernández, Miss Universo 2009, posou para a campanha em defesa da liberdade de expressão e dos direitos humanos na Venezuela. O fotógrafo Daniel Bacci já retratou várias personalidades venezuelanas para a campanha, inclusive o opositor Leopoldo López, em outubro do ano passado. No final de fevereiro deste ano, o líder do partido Vontade Popular foi preso em meio aos protestos contra o governo Nicolás Maduro.

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