terça-feira, 15 de abril de 2014

Liberdade de expressão para os radicais!

Usando como pano de fundo a tentativa de censura à apresentadora do SBT Rachel Sheherezade, que surtiu o efeito desejado pela esquerda, Pedro Doria defendeu, em sua coluna de hoje no GLOBO, uma liberdade de expressão ampla, que inclui o direito de os mais radicais também colocarem seus pontos de vista. Doria cita Thomas Jefferson, ele mesmo um radical, para sustentar seu raciocínio:
Thomas Jefferson, cuja data de nascimento foi celebrada domingo, disse que “a liberdade de expressão não pode ser limitada sem ser perdida”. Os EUA, país que ajudou a fundar, têm a legislação mais incisiva na defesa da livre expressão. Não quer dizer que seja absoluta. Mas que, antes de punir o discurso, pesam se vale o risco. Porque, a não ser que os critérios para punir o discurso sejam extremamente rigorosos, fica fácil demais. E a censura se estabelece.
Entre um governo sem imprensa ou uma imprensa sem governo, o “pai fundador” dos Estados Unidos não tinha dúvida de qual escolher: a imprensa sem governo. Doria é autor de um livro novo sobre Tiradentes, que li nesse fim de semana. Sabe do que está falando, portanto, pois Tiradentes, outro radical, foi influenciado pelas ideias de Jefferson e acabou morto por falar demais, por defender ideais iluministas e republicanos no Brasil colonial. Faltava liberdade de expressão.
Defender a liberdade apenas quando estamos de acordo com o que é dito é muito fácil. O teste vem justamente quando precisamos defender essa liberdade para ideias que abominamos, que rejeitamos com toda a nossa força, que batem de frente com nossas ideologias. E, como reconhece Doria, o “radicalismo” de Sheherezade encontra eco em pelo menos um quarto da população brasileira, que deve ser escutada (ainda que para poder ser contestada, se for o caso).
Não quer dizer que não haverá algum limite, mas sim que o liberal tenderá a ser muito mais tolerante com o discurso de quem discorda, enquanto a esquerda e a direita mais autoritárias costumam optar por maiores restrições.
No caso de incitação ao crime, Doria lembra como pode ser um caminho escorregadio, uma vez que muita coisa hoje poderia ser vista como “apologia ao crime”: defender legalização das drogas, do aborto, ou quando a esquerda justifica a invasão de propriedade privada com base no vago conceito de “justiça social”. Ele tenta traçar uma linha divisória:
Incitação ao crime é critério para punir a fala. Mas é preciso provar que um crime ocorreu causado por ela. Uma coisa é desejar a morte de alguém numa conversa de bar. Outra é clamar pela morte da pessoa, em frente a sua casa, perante uma turba em fúria. Não se pune a mensagem. Punem-se os efeitos concretos da mensagem.
Não haverá nunca um critério perfeitamente objetivo, simples. Será inevitável cair em algumas regiões cinzentas. Mas, como já disse, o liberal vai preferir sempre pecar pelo excesso de liberdade de expressão, doa a quem doer, enquanto a esquerda costuma defender o direito de expressão daqueles com quem concorda, ponto. Doria conclui:
Pode não parecer intuitivo, mas é só quando garantimos o livre discurso dos mais radicais em uma sociedade, à direita e à esquerda, que realmente expomos seus vícios. Só assim somos realmente livres. A internet é uma máquina de livre expressão. Que seja amplamente usada.
A única diferença, ignorada por Doria, é que a esquerda radical já goza de ampla liberdade de expressão, a ponto de ter vários representantes na mídia “mainstream”. Para piorar a situação, vivemos em um quadro tão evidente de hegemonia da esquerda que muitos desses radicais são vistos como moderados, enquanto alguns nem tão radicais assim do outro lado são tachados de ultra-radicais.
O que é novidade é justamente alguns mais radicais (ou enfáticos) do lado direito surgindo em cena, e causando esse furor todo, deixando a esquerda em polvorosa, despertando essa reação autoritária de censura. O que prova, uma vez mais, que todo o discurso da esquerda em prol da pluralidade é da boca para fora, conversa para boi dormir. No caso, a população bovina de eleitores que ainda acredita na moderação dessa nossa esquerda…
Rodrigo Constantino

Caso Eike Batista: se fosse nos Estados Unidos isso dava cadeia!

A atuação de Eike Batista na crise da petroleira OGpar (ex-OGX) vai ser investigada no Rio e em São Paulo. Uma associação que representa minoritários de empresas brasileiras, apresenta nesta terça-feira ao Ministério Público Federal (MPF) paulista uma queixa contra o empresário, contra a Bolsa de Valores de São Paulo e contra seu presidente, Edemir Pinto.
Entre as acusações está a omissão da identidade de Eike enquanto ele vendia ações da ex-OGX durante negociações na Bovespa entre 24 de maio e 10 de junho de 2013. O empresário só informou ao mercado que estava se desfazendo dos papéis em 10 de junho daquele ano. O anúncio derrubou a cotação em 9% naquele dia.
Em outra frente, o MPF no Rio de Janeiro solicitou que a Polícia Federal (PF) instaure um inquérito para apurar a suposta prática de crimes financeiros por Eike, enquanto controlador da petroleira. O pedido foi embasado nas conclusões do relatório de acusação elaborado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), encaminhado ao MPF em 19 de março. O procurador que está à frente do caso é Marcio Barra Lima.
Crime financeiro é coisa muito séria em país sério. Quando houve as primeiras acusações e indícios de “insider trading” por parte de Eike Batista, escrevi sobre o assunto no meu antigo blog. À época, eis minha mensagem, que repito aqui:
O mercado só funciona com regras claras, e punição para quem as descumpre. Leiam Luigi Zingales sobre o assunto: seus dois livros são fundamentais para compreender a importância das instituições no bom funcionamento do capitalismo. Tem libertário que defende o “insider trading”, mas o fato é que esse tipo de atitude vai minando a credibilidade do próprio mercado. E ela é crucial para o progresso.
Fosse nos Estados Unidos, Eike Batista acabaria atrás das grades, caso fique comprovado o “insider trading”. Acho que os americanos não chegaram aonde chegaram à toa, ou porque são bobos. Eles entendem – ou ao menos entendiam – a relevância da confiança nas regras do jogo. O Brasil precisa trilhar esse caminho também.
Guardadas as devidas proporções, Bernard Madoff está preso até hoje, apesar de sua fortuna. No Brasil, ninguém acredita que Eike Batista possa parar atrás das grades. E isso diz muito sobre a diferença entre cada país…
Rodrigo Constantino

Rodrigo Constantino-A infiltração vermelha na Petrobras


Empresa continua aparelhada politicamente, usada por petistas como propriedade particular

‘A Petrobras, a maior empresa industrial do país, a que detém a maior soma de recursos, a que deveria dispor dos melhores técnicos, encontra-se hoje numa situação lastimável, reduzida à função de órgão atuante na comunização do Brasil. Seus índices técnicos e financeiros são, atualmente, dos mais baixos, e os escândalos se sucedem, sem que o governo se anime a dizer um ‘Basta!’ a esse estado de coisas.

“O único diretor não comunista, [...] foi demitido por pressão dos sindicatos controlados pelos vermelhos. Era o único técnico na diretoria, seus serviços sempre foram considerados valiosíssimos, mas excomungado pelas forças da subversão, que com ele não contam, teve de dar lugar a outro, julgado mais dócil e cooperativo.

“A diretoria não se reúne, os processos se acumulam, nada se resolve. Ou melhor, só se resolve aquilo que tem sentido político. Paga-se, por exemplo, rapidamente a divulgação de manifestos do CGT, alugam-se veículos para transportar figurantes em comícios políticos, custeia-se com o dinheiro do povo, a campanha de agitação e subversão.

“Até quando persistirá tal panorama? Quando será a Nação satisfeita pela verificação de que o governo resolveu tomar uma atitude, expulsando da Petrobras aqueles que a transformaram num instrumento de sovietização do país e entregando a companhia a uma direção de técnicos apolíticos, que possam fazê-la progredir?”

Quem escreveu isso? Seria Jair Bolsonaro acusando o PT de utilizar a Petrobras como instrumento bolivariano? Seria Olavo de Carvalho com alguma “teoria conspiratória” sobre a infiltração comunista na maior empresa do país?

Nada disso. Trata-se do editorial do GLOBO, publicado em 7 de setembro de 1963, data adequada por representar o Dia da Pátria (espero que o jornal não se arrependa desse editorial também). Era um grito patriótico contra a infiltração comunista na estatal, sob a conivência do presidente João Goulart.

Reparem como o Brasil parece andar em círculos. Hoje, a Petrobras continua financiando uma “campanha de agitação e subversão”, ao bancar os invasores do MST, por exemplo. Continua aparelhada politicamente, usada por petistas como propriedade particular. Petrodólares usados para disseminar o marxismo, enquanto o endividamento da empresa se avoluma por incompetência ou corrupção.

Alguns gostam de repetir, com ar de superioridade, que a Guerra Fria acabou, tentando, com isso, pintar anticomunistas como seres ultrapassados, gente parada no tempo. Há só um detalhe: tem que avisar aos próprios comunistas que a Guerra Fria não só acabou, como foi com a derrota dos comunistas!

Tem uma turma que ainda não sabe disso. E pior: essa turma está no poder! Basta ver a própria Venezuela, mergulhada em uma tragédia justamente porque insistiu no modelo socialista fracassado. Mas não é só lá. Aqui tem um pessoal bolivariano doido para transformar o Brasil em uma nova Cuba, o sonho (pesadelo) perdido na década de 1960. Se a PDVSA foi útil ao projeto de Chávez, a Petrobras é útil aos planos de perpetuação do PT no poder.

Como evidência de que os comunistas, infelizmente, ainda não desapareceram da cena política nacional, a deputada Luciana Santos, do PCdoB, encaminhou ao Congresso projeto de lei que cria o Fundo de Desenvolvimento da Mídia Independente. Só mesmo um comunista poderia falar em “mídia independente” criando uma total dependência dos recursos estatais!

Talvez esteja ficando escancarado demais financiar indiretamente a imprensa chapa-branca com recursos das estatais, e os vermelhos, ligados ao governo do PT, pretendam oficializar logo a criação de seu exército de “jornalistas” sustentados por nossos impostos. Essa coisa de imprensa independente é muito chata, fica expondo os infindáveis escândalos da Petrobras...

Para concluir, o editorial de 1963 diz: “Deveria o presidente João Goulart iniciar pela Petrobras a purificação de seu governo. Afaste, imediatamente, os diretores comunistas, faça voltar os técnicos, ponha a empresa à margem da política, e a decepção que ele vem causando ao povo brasileiro se transformará em novas esperanças. Ao mesmo tempo dará Sua Excelência à Nação — se assim proceder — uma cabal demonstração de seus propósitos, provando que deseja governar afastado dos extremos, cujo facciosismo tantos males vem causando ao Brasil.”

O presidente não deu ouvidos. Sabemos como tudo acabou, e não foi nada bom. Resta torcer para que dessa vez seja diferente, pois, como dizia o próprio Marx, a história se repete primeiro como tragédia, e depois como farsa.

Liberdade de expressão para os radicais

Usando como pano de fundo a tentativa de censura à apresentadora do SBT Rachel Sheherezade, que surtiu o efeito desejado pela esquerda, Pedro Doria defendeu, em sua coluna de hoje no GLOBO, uma liberdade de expressão ampla, que inclui o direito de os mais radicais também colocarem seus pontos de vista. Doria cita Thomas Jefferson, ele mesmo um radical, para sustentar seu raciocínio:
Thomas Jefferson, cuja data de nascimento foi celebrada domingo, disse que “a liberdade de expressão não pode ser limitada sem ser perdida”. Os EUA, país que ajudou a fundar, têm a legislação mais incisiva na defesa da livre expressão. Não quer dizer que seja absoluta. Mas que, antes de punir o discurso, pesam se vale o risco. Porque, a não ser que os critérios para punir o discurso sejam extremamente rigorosos, fica fácil demais. E a censura se estabelece.
Entre um governo sem imprensa ou uma imprensa sem governo, o “pai fundador” dos Estados Unidos não tinha dúvida de qual escolher: a imprensa sem governo. Doria é autor de um livro novo sobre Tiradentes, que li nesse fim de semana. Sabe do que está falando, portanto, pois Tiradentes, outro radical, foi influenciado pelas ideias de Jefferson e acabou morto por falar demais, por defender ideais iluministas e republicanos no Brasil colonial. Faltava liberdade de expressão.
Defender a liberdade apenas quando estamos de acordo com o que é dito é muito fácil. O teste vem justamente quando precisamos defender essa liberdade para ideias que abominamos, que rejeitamos com toda a nossa força, que batem de frente com nossas ideologias. E, como reconhece Doria, o “radicalismo” de Sheherezade encontra eco em pelo menos um quarto da população brasileira, que deve ser escutada (ainda que para poder ser contestada, se for o caso).
Não quer dizer que não haverá algum limite, mas sim que o liberal tenderá a ser muito mais tolerante com o discurso de quem discorda, enquanto a esquerda e a direita mais autoritárias costumam optar por maiores restrições.
No caso de incitação ao crime, Doria lembra como pode ser um caminho escorregadio, uma vez que muita coisa hoje poderia ser vista como “apologia ao crime”: defender legalização das drogas, do aborto, ou quando a esquerda justifica a invasão de propriedade privada com base no vago conceito de “justiça social”. Ele tenta traçar uma linha divisória:
Incitação ao crime é critério para punir a fala. Mas é preciso provar que um crime ocorreu causado por ela. Uma coisa é desejar a morte de alguém numa conversa de bar. Outra é clamar pela morte da pessoa, em frente a sua casa, perante uma turba em fúria. Não se pune a mensagem. Punem-se os efeitos concretos da mensagem.
Não haverá nunca um critério perfeitamente objetivo, simples. Será inevitável cair em algumas regiões cinzentas. Mas, como já disse, o liberal vai preferir sempre pecar pelo excesso de liberdade de expressão, doa a quem doer, enquanto a esquerda costuma defender o direito de expressão daqueles com quem concorda, ponto. Doria conclui:
Pode não parecer intuitivo, mas é só quando garantimos o livre discurso dos mais radicais em uma sociedade, à direita e à esquerda, que realmente expomos seus vícios. Só assim somos realmente livres. A internet é uma máquina de livre expressão. Que seja amplamente usada.
A única diferença, ignorada por Doria, é que a esquerda radical já goza de ampla liberdade de expressão, a ponto de ter vários representantes na mídia “mainstream”. Para piorar a situação, vivemos em um quadro tão evidente de hegemonia da esquerda que muitos desses radicais são vistos como moderados, enquanto alguns nem tão radicais assim do outro lado são tachados de ultra-radicais.
O que é novidade é justamente alguns mais radicais (ou enfáticos) do lado direito surgindo em cena, e causando esse furor todo, deixando a esquerda em polvorosa, despertando essa reação autoritária de censura. O que prova, uma vez mais, que todo o discurso da esquerda em prol da pluralidade é da boca para fora, conversa para boi dormir. No caso, a população bovina de eleitores que ainda acredita na moderação dessa nossa esquerda…
Rodrigo Constantino

O mais impopular é a esquerda que diz seu nome

A marca registrada da esquerda o leitor já conhece: inverter tudo. Foi o que fez Vladimir Lênin, digo, Safatle em sua coluna de hoje na Folha. Ao ler essa verdadeira peça de ficção, o leitor sai convencido de que a enorme taxa de rejeição ao socialista Hollande na França se deve à sua migração para a direita. O rabo é que balança o cachorro!
Hollande não é o mais impopular de todos porque seu governo é medíocre em resultados, pois ignorou o bom senso da austeridade, resolveu sobretaxar os ricos, nada disso; é porque ele é “transformista” ideológico, fez como um tocador de violino: pegou o poder com a esquerda e tocou com a direita. Ou assim quer Safatle que seus leitores pensem. Diz o membro do PSOL:
Suas políticas econômicas não têm nada, mas absolutamente nada a oferecer de diferente em relação às receitas vigentes de “austeridade”. A mesma ladainha a respeito da diminuição do “custo do trabalho” e dos “gastos públicos” (ou seja, precarização do trabalho, menores salários e bancos com lucros recordes).
É mesmo? Nenhuma menção ao imposto de 75% sobre os mais ricos, responsável pela fuga de capitais e gente da França, com resultados terríveis para o país? Que austeridade é essa se Hollande veio com aumento de gastos e do papel do estado?
O discurso atual, que prega mais austeridade, é justamente conseqüência do fracasso das bandeiras de esquerda. Isso já aconteceu com Mitterrand no passado. A história se repete, ou rima muito. A esquerda, com um mapa de voo totalmente equivocado, faz um monte de besteira e depois precisa fazer concessões à realidade, com reformas mais liberais. Podemos pensar no PT tendo de privatizar…
Safatle conclui, invertendo uma vez mais tudo na equação cronológica:
Qual dos dois é o nosso Vlad?
Qual dos dois é o nosso Vlad?
Prova disso é a nomeação de seu novo primeiro-ministro, o senhor Manuel Valls, alguém que como ministro do Interior era exímio patrocinador das milenares tradições da caça aos ciganos, um verdadeiro marco do Iluminismo. Seu discurso securitário, exaltador dos “valores nacionais” e brutalizado fez dele alguém muito mais popular entre os eleitores de direita do que aqueles de esquerda. Foi a ele que Hollande recorreu depois de ter levado uma das maiores surras eleitorais na eleição municipal de semanas atrás.
Com esse mimetismo ideológico e essa prova de ausência completa de ideário próprio, os eleitores franceses se perguntam por que não entrar logo com os dois pés na direita do tipo Front National (frente nacional, em francês), não por acaso o partido que mais cresce atualmente. Tudo isso demonstra que nada pior do que uma esquerda que tem medo de dizer seu nome. 
É o contrário. O socialista precisou apelar para alguém menos radical de seu partido justamente porque o povo cansou do socialismo. A extrema-direita de Le Pen cresce sem parar justamente por causa das burradas que a esquerda tem feito, com péssimos resultados. É o cachorro que balança o rabo, Safatle…
Se a esquerda radical que o próprio Safatle defende não tivesse medo de dizer seu nome (“revolução”, “socialismo”), aí mesmo é que seria mais impopular ainda! Parte do relativo sucesso eleitoral dessa esquerda tem sido exatamente esconder seu nome, suas intenções, sua ideologia totalmente anticapitalista. Mostrando a cara, teria ainda menos voto.
Como o PSOL aqui no Brasil, que já percebeu isso e vem trabalhando na maquiagem e na falsa embalagem justamente para ocultar seu nome e deixar de ser um partido nanico…
Rodrigo Constantino

Cálculos ucranianos (V),por Caio Blinder

A credibilidade de Vladimir Putin é um farrapo. Eu não tenho motivos para acreditar nas suas palavras quando garante não ter planos de invadir, anexar parte da Ucrânia ou desmembrar o país. Mas, quem sabe, não haja uma meticulosa estratégia de longo prazo. A crise é volátil, oportunidades se apresentam, assim como os perigos. Dizem que o Afeganistão foi o Vietnã dos soviéticos no final dos anos 70, enquanto a Ucrânia pode ser agora o Iraque dos russos. Ocupação é um cenário penoso. Nem na sua suprema fantasia, Putin acredita que os tanques serão recebidos apenas com flores.
O custo de ocupação é muito alto. Nem dá para comparar com o que aconteceu na Crimeia, que realmente foi um passeio para os russos. Portanto, ocupar o leste da Ucrânia não é plano C, pois não irão se repetir as condições da Crimeia e está ausente o fator surpresa. Pode ser o B? Sim, desde que Putin não consiga garantir alguns interesses estratégicos básicos, como manter a Ucrânia fraca, dividida e incapaz de pender definitivamente para o lado ocidental (aliás, por si, o país consegue esta façanha). Não interessa ao Kremlin uma degringolada ucraniana ou uma guerra civil. Aliás, a quem interessa? Apenas a grupos ultranacionalistas ucranianos ou russos.
Algo mais plausível é uma intervenção militar cirúrgica para conseguir objetivos limitados, como dar um recado, testar o Ocidente ou assegurar os setores mais inquietos da minoria étnica russa no país. A possiblidade desta intervenção ganhou um senso de urgência com o anúncio das autoridades interinas ucranianas nesta terça-feira do início de operações militares contra militantes pró-russos que ocuparam edifícios públicos e delegacias policiais em cidades do leste do país. Até onde for possível, os russos irão operar em uma área cinzenta de intervenção, permitindo ao Ocidente, especialmente a relutante União Europeia, se eximir de uma resposta vigorosa.
Para Moscou melhor concretizar os objetivos com uma campanha de desestabilização, embora seja hilário os russos tentarem convencer o mundo de que não estão envolvidos diretamente na agitação e tomada de edifícios públicos em cidades do leste ucraniano, como Putin fez na segunda-feira em mais uma conversa telefônica com Barack Obama.
O essencial para Putin é influenciar o processo antes das eleições gerais de 26 de maio, tendo poder de veto sobre alguns desfechos ou condições de dissuadir politicos, como a veterana e ladina candidata Yulia Tymoshenko, a ter uma postura mais palatável aos interesses do Kremlin. A ocupação de setores urbanos no leste do país empreendida por ativistas pró-russos, que podemos chamar de informal, embora orquestrada por Moscou, aumenta o poder de barganha de Putin com qualquer governo que emergir em Kiev das eleições de maio (e esperamos que haja este governo).
A ideia de mais autonomia para o leste ucraniano (assim como para o sul) em tese é razoável diante da complexidade étnica do país e a profunda afinidade da região com a Rússia. O problema é se esta dinâmica não é conduzida pelo governo central em Kiev. Não cabe a Moscou ditar regras sobre a “federalização” do país vizinho. A situação é tão frágil e desesperadora para as autoridades de Kiev que o presidente interino Oleksandr Turchynov jogou um balão de ensaio para um referendo nacional sobre maior autonomia regional.
A ironia é que Putin fala agora em projeto de federalização na Ucrânia, mas sua gestão tem sido marcada pelo tarefa ferrenha de desmantelar a estrutura federal russa para centralizar o poder em Moscou. Desde que assumiu o comando há 14 anos, Putin canalizou a arrecadação tributária para Moscou, limitou a autoridade local ao escolher candidatos para governos  regionais e recorreu a métodos brutais para conter rebeliões separatistas no Cáucaso.
Para Putin, o que é bom para a Ucrânia não é bom para a Rússia.

Em Putingrado,1984 em 2014,por Caio Blinder

A Rússia deu ao mundo Leon Tolstoy, do romance épico Guerra e Paz. Deu ao mundo também os Vladimirs (Lênin e Putin). E existe ainda Vladimir Tolstoy, tataraneto do escritor e assessor cultural do Kremlin cada vez mais orwelliano que converte o estado autoritário do pós-comunismo no estado totalitário do putinismo. A novilíngua do épico 1984 diz presente em 2014.
Na narrativa azeitada pelo rolo compressor de propaganda, desinformação e mentiras que é a televisão russa, guerra é paz. Os separatistas russos são vítimas de cerco na Ucrânia e haverá uma carnificina se os ucranianos atacarem as vítimas que apenas desejam liberdade. São estas vítimas que, armadas, mascaradas e em uma ação orquestrada, tomaram edifícios públicos no leste do país. A responsabilidade por uma banho de sangue será do governo ilegítimo de Kiev, sustentado pelo Ocidente decadente e devasso. A Rússia tem tropas na fronteira. Ataque é defesa.
Parece paródia, mas Sergei Lavrov, ministro das Relações Exteriores russo (ministro da Verdade?), emitiu um comunicado no domingo advertindo que “agora é responsabilidade do Ocidente impedir uma guerra civil na Ucrânia”. O mesmo tom foi emitido horas mais tarde por Vitaly Churkin, embaixador russo nas Nações Unidas, em pronunciamento feito na reunião de emergência do Conselho de Segurança. Churkin eximiu seu país de qualquer responsabilidade na crise, simplesmente ignorou as ações orquestradas por setores pró-russos no leste ucraniano e denunciou a “russofobia grotesca” no Parlamento em Kiev.
No relato do New York Times, no pós-comunismo russo são dias de um sinistro jingoísmo, exacerbado pela invasão e anexação da região ucraniana da Crimeia. Existem os alertas de um país atacado de fora e por dentro por fascistas e traidores. Cuidado com a quinta coluna. Mas, haverá resistência, como na Segunda Guerra Mundial: Putingrado.
Na nova política cultural do estado, este Tolstoy,  o Vladimir, está encarregado de rechaçar os conceitos de tolerância e de multiculturalismo. A ênfase é o caráter singular da civilização russa. Rússia não é Europa. Existe o triunfo do kitsch com bandeiras soviéticas sendo desfraldadas e a nostalgia sinistra da foice e o martelo, que trouxe coletivização forçada, os filhos que delatavam os pais, o Gulag e o ritual de tanques rolando pela Europa Oriental para proteger as democracias populares.
A xenofobia russa em 2014 é acompanhada de uma operação-arrastão com prisão e amordaçamento de dissidentes. Boris Nemtsov, um dos líderes da oposição, que é denunciado nominalmente como um traidor na propaganda oficial, escreveu no Facebook que a situação parece pior do que na Guerra Fria. “Na minha opinião, nem na União Soviética era assim”, disse Nemtsov. Exagero aqui, oposição também tem a sua novilíngua.
Mas, nem de longe a diatribe de Nemtsov se compara à novilíngua do governo (regime, na verdade) russo. O ataque é insidioso. O Grande Irmão precisa ficar vigilante. O novo filme do Capitão América explodiu nas bilheterias russas. Abaixo a tolerância e o multiculturalismo. Foice e martelo contra os fascistas ucranianos e a quinta coluna doméstica. Putingrado resistirá!
***

Yoani Sánchez- Carnet ou passaporte

O bairro todo o chama pelo peculiar apelido herdado do seu avô basco. Vertical em questões ideológicas, sempre deixou claro que era um “homem da causa”. Reunião atrás de reunião, informe atrás de informe, denúncia atrás de denúncia, poucos o superavam nas provas de fé ao sistema. Também se caracterizava pelo rosto sombrio frente aos inconformados e o abraço ágil para os que compartilhavam da sua ideologia. Foi assim até uma semana.
A árvore genealógica deu frutos e o combativo homem acaba de tirar seu passaporte espanhol. No seu núcleo do Partido Comunista lhe deram a escolha: a nacionalidade estrangeira ou continuar militando nessa organização. Fiel, porém sem ser tonto, optou pela primeira. Desde apenas uns dias estréia sua nova vida sem carnet nem estatutos. E já começou a dar umas piscadelas para os dissidentes da vizinhança: “Tu sabes que sempre poderás contar comigo” insinuou-se ontem a um a quem vigiava até a pouco.
Organização partidária curiosa que se pavoneia de exercer a solidariedade internacionalista, porém não quer em suas fileiras comunistas com duas nacionalidades. Pelo menos a visão estreita está ajudando a conversão de certos extremistas em “estrangeiros mansos”. Dada a rapidez com que mudam, fica a pergunta se antes acreditavam no que faziam ou eram simples oportunistas. Talvez ao preferirem um passaporte comunitário só estejam escolhendo outra máscara, um novo tom para sua pele camaleônica.
Tradução por Humberto Sisley

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Ser livre para ir e vir!Pela liberdade de expressão.Pela humanidade contra os pregadores da escuridão que assolam nosso mundo moderno.Democracia verdadeira sempre,não aquela de fachada que persegue quem não compartilha de suas idéias.