sábado, 24 de maio de 2014

‘Bala para todo lado’, por J. R. Guzzo

Publicado na edição impressa de VEJA
J. R. GUZZO
Alguma coisa acontece na cabeça da presidente Dilma Rousseff quando se cruzam ali dentro a avenida por onde passam os pensamentos que ela quer transmitir ao público e a avenida de onde eles saem para o mundo, depois de transformados em palavras. Ou, ao contrário, alguma coisa que deveria acontecer nessa hora não acontece. Seja por um motivo ou por outro, o fato é que a presidente, de uns tempos para cá, não está fazendo muito sentido, ou mesmo nenhum sentido, quando fala de improviso. Dilma, nessas ocasiões, imagina que está usando a linguagem do “grande público”. Mas a coisa não vai. Ela dá na chave, dá de novo, insiste, mas o motor não pega. O resultado final é que só vem conseguindo tornar-se cada vez mais incompreensível. Não é exagero. Tente, por exemplo, entender o seguinte: “Quando você chega num banco, ele te pergunta qual a garantia que você me dá? Eu vou pagar a vocês, para me aceitar emprestar um dinheiro para você me pagar”. Isso aí foi dito por Dilma em Feira de Santana, no fim de abril, numa viagem de sua campanha eleitoral em que presenteou prefeituras do interior da Bahia com tratores, escavadeiras e outras máquinas. Não é uma distorção do que disse, nem um boato — é o que consta nos registros oficiais do Palácio do Planalto. Não é tampouco uma “frase fora do contexto”; é fora da compreensão humana.
Pelo jeito, a presidente está tendo dificuldades nos circuitos cerebrais que traduzem as ideias em sons, os sons em palavras e as palavras em frases inteligíveis. As cordas vocais não estão obedecendo às ordens enviadas pelo cérebro — ou o cérebro está enviando ordens desconexas para as cordas vocais. No caso de Feira de Santana, não conseguiu acertar nem a pontuação. Poderia ter sido, talvez, apenas um momento infeliz? Infeliz o momento foi, com certeza; mas não foi um momento. Ao contrário, esse caos que Dilma constrói quando fala em público vem sendo um processo, ou pelo menos uma série de muita constância. É só ver o que ela anda falando. “Esse receituário que quer matar o doente, em vez de curar o paciente, ele é complicado”, disse numa viagem recente à África do Sul, referindo-se às ideias de controlar a inflação através da redução do gasto público. “Isso está datado.” Como assim? Matar o doente, como ela diz, não é “complicado”; é simplesmente estúpido. Também não é um tratamento “datado”, que já valeu mas hoje está obsoleto; matar gente nunca foi certo.
Ainda outro dia, numa conversa com jornalistas em Brasília, voltou às suas aulas de economia: “Aí vem uma pessoa e diz que a meta da inflação é 3%. Faz uma meta de 3%… Sabe o que significa? Desemprego lá pelos 8,2%”. De onde vêm esses exatíssimos “0,2%” que ela acrescenta aos 8%, quando seu governo não acerta sequer uma previsão para o dia seguinte? Dilma já disse que “a inflação foi uma conquista desses dez últimos anos de governo, do presidente Lula e do meu governo”. Supõe-se que tenha havido aí um desencontro entre o que pensou e o que falou — e o que pensou era mentira. Num seminário nos Estados Unidos, enfiou-se de repente no tema de ônibus escolares e informou à plateia: “No Brasil não é assim conosco. Estamos criando o ônibus escolar padronizado do início do século XXI”. Logo depois explicou ao investidor privado que, “se quiser fazer o backroll, perfeitamente, ele faça o backroll, se quiser fazer o backbone, perfeitamente, faça o backbone. Nós não queremos 1 mega real de banda larga, nós queremos o padrão, eu não vou dizer qual é o padrão”. Por que não? E essa história de backroll e backbone?
Dilma também foi capaz de fazer, em pleno exercício da Presidência da República, a seguinte oração: “Primeiro, eu gostaria de dizer que eu tenho muito respeito pelo E.T. de Varginha. Este respeito pelo E.T. de Varginha está garantido”. A presidente estava em Varginha, em Minas Gerais, para visitar, acredite-se ou não, um “museu do E.T.”, no qual o governo federal aplicou cerca de 1 milhão de reais. (Iniciado em 2007, o museu nunca ficou pronto, e jamais foi visitado por ninguém. Está abandonado desde 2010.) Outro grande momento foi no Ceará, agora em março. “Os bodes, eu não me lembro qual é o nome, mas teve um prefeito que me disse assim: ‘Eu sou o prefeito da região produtora da terra do bode’. Então nós vamos fazer um Plano Safra que atenda os bodes que são importantíssimos”. É bala para todo lado.
“Pobre Dilma Rousseff”, escreveu a seu respeito o Financial Times. Parecia uma Angela Merkel, com eficiência alemã. Acabou com um desempenho de irmãos Marx.

COLUNA DO CLÁUDIO HUMBERTO

  • A decisão do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, de determinar sigilo da Operação Ararath, da Polícia Federal, foi para não prejudicar as investigações. Segundo fontes da PF, este é um dos mais importantes casos de corrupção dos últimos tempos, que tem como alvos várias autoridades dos três poderes. Foram presos o deputado José Riva (PSD) e o secretário da Fazenda do Mato Grosso, Éder Moraes, e o governador Silval Barbosa (PMDB) teve a casa revistada.
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  • Há anos José Riva se reveza na presidência da Assembleia Legislativa, autêntica central da corrupção, em parceria com Silval Barbosa.
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  • Outro figurão citado nas investigações é o senador Blairo Maggi (PR-MT), bilionário que já foi considerado maior produtor de soja do mundo.
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  • O esquema de corrupção no MT seria ligado ao “comendador Arcanjo”, bandido hoje na prisão de segurança máxima de Porto Velho (RO).
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  • Ararath é sequência da Operação Arca de Noé, de 2002, contra o crime organizado, com 13 presos, que resultou na condenação de Arcanjo.
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  • O dinheiro está fácil para o governo: a Empresa Brasil de Comunicação (EBC) “errou para cima” o salário de 248 funcionários em novembro e dezembro de 2013. Alguns trabalhadores chegaram a receber quase R$ 20 mil a mais em dois meses. Segundo a própria EBC, o total do valor repassado de forma errada aos funcionários ultrapassou os R$ 137 mil. O pagamento extra, segundo a EBC, é um erro comum.
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  • O sortudo funcionário da EBC que recebeu R$ 20 mil a mais aproveitou para pedir “parcelamento” na hora de devolver a grana e foi autorizado.
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  • A EBC diz que o procedimento de devolução parcelada de pagamentos feitos por erros é “normal na administração pública”.
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  • Jorge Hage, Controlador-Geral da União, determinou “apuração”, após descobrir que um de seus funcionários foi beneficiado na EBC.
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  • Junior Friboi esperou por quase 2 anos ganhar do PMDB a candidatura ao governo de Goiás. Curiosamente, sem gastar dinheiro. Pretendia que os políticos do partido não o vissem como um bilionário, mas sim como “redentor”, verdadeiro “líder de massas”. Virou motivo de piada.
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  • O ministro César Borges (Transportes) já se conformou com a lentidão do governo. Disse ter “esperança” de lançar 1º leilão de ferrovias antes que o Programa de Investimento em Logística complete dois anos.
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  • No ranking de assuntos mais falados do Twitter/Brasil de ontem estava a hashtag #DilmaCadeODinheiroDoPovo? Internautas não perdoaram, citaram do porto cubano à cueca de Lula como o paradeiro da grana.
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  • As previsões do governo para a arrecadação de 2014 foram elevadas para mais de R$ 1 trilhão. Esse número será registrado no Impostômetro logo após o final da Copa do Mundo do Brasil.
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  • Mendonça Filho (DEM-PE) retirou pedido de convocação do chanceler Luiz Figueiredo para explicar a decisão de não exigir consulta ao Brasil para conceder vistos a nacionais de países como Afeganistão, Iraque e Irã. Seria votado esta semana, mas deve ficar para semana que vem.
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  • A operadora de celular Claro tenta entrar no mercado da TV paga à força: usuários de outras operadoras recebem mensagens insistentes todos os dias, com suas ofertas. E o Ministério Público?
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  • Duas turistas de Cingapura publicaram no Yahoo! Sports relato de como “sobreviveram” visita a Salvador no dia da greve da polícia, em abril: a pedido do hotel se trancaram lá, só saíram acompanhadas por funcionários “nativos” e ainda assim foram assaltadas no último dia.
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  • O canal de notícias Russia Today reagiu à comparação feitas pelo príncipe Charles entre Putin e Hitler. O canal disse que, “é preciso ser um para reconhecer outro” e divulgou foto do rei Edward VIII com Hitler. “Se alguém conhece nazistas de verdade é a família real”, ironizaram.
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  • …quem deveria levar uma boa palmada são os deputados que se acham no direito de interferir na educação dos filhos dos outros.
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Nada na hora do Brasil

Sem quorum
Plenário deverá ficar como na imagem acima…
Saiu o calendário oficial de junho da Câmara, durante a Copa do Mundo. Se a turma já não costuma pegar no pesado ao longo do ano, imagina nesse período. Nos dias de jogos do Brasil e quando houver partidas no Mané Garrincha, nada de votações. Ou seja, melhores momentos: entre os dias 12 e 30 de junho, os deputados terão míseras duas sessões deliberativas.
Por Lauro Jardim

Governo gasta apenas 37% do previsto em “ações contraterrorismo” para a Copa. Saiba quanto

Primeira estação, Porto Velho
Cardozo: menos investimentos que o anunciado
O governo, de acordo com dados oficiais, investiria 9 milhões de reais em “ações contraterrorismo” para a Copa. Até agora, no entanto, só contratou 3,4 milhões de reais para executar as operações – embora nada tenha sido pago ainda.
Por Lauro Jardim

Prejuízos decorrentes dos ‘feriados’ impostos pela inépcia do governo aumentam a gastança da Copa em mais de R$ 60 bi

BRANCA NUNES
Os R$ 1,7 bilhão que transformaram a Arena Mané Garrincha, em Brasília, num dos estádios mais caros do mundo, ou a bolada de R$ 1,7 milhão consumida no puxadinho construído para fingir por 90 dias que o aeroporto de Fortaleza ficou maior, vão parecer “dinheiro de pinga” – expressão cada vez mais comum entre os figurões federais – perto dos prejuízos decorrentes dos feriados impostos pela conjugação da inépcia do governo com as correrias da Copa prestes a começar. O país deixará de produzir pelo menos R$ 60 bilhões nos dias em que terá de parar porque é incapaz de mover-se normalmente quando a Seleção Brasileira entra em campo.
A conta é tão simples que até Guido Mantega pode entender. Graças aos oito feriados de verdade que caíram ou cairão no meio da semana, 2014 terá um calendário de 244 dias úteis. Baseado no PIB de 2013 (R$ 4,8 trilhões), André Perfeito, economista chefe da corretora Gradual Investimentos, calcula que a perda por dia parado seja de R$ 19,7 bilhões.
Só na primeira fase da Copa, a seleção de Luiz Felipe Scolari vai paralisar o país três vezes. Embora o governo federal tenha feito de conta que não haverá feriados nacionais, feriados informais já foram programados por escolas, fábricas, empresas e órgãos públicos. Todos avisaram que, se não estiverem fechados o dia inteiro, depois do meio-dia até creches e pré-escolas onde os alunos mal aprenderam a falar gol, deixarão de funcionar.
Os argumentos para justificar as interrupções das atividades vão desde questões logísticas com transporte até preocupações com segurança por causa de possíveis manifestações. Mas todas essas hipóteses convergem para mascarar a verdade solar: a inépcia do poder público não permitiu que o Brasil cumprisse o que prometeu. E a decretação desses “feriados” é a prova contundente de que as obras de mobilidade urbana não foram feitas. O país precisa parar pela simples razão de que não tem condições de andar.
As contas feitas por André Perfeito indicam que nem mesmo as horas extras programadas por algumas empresas ou os possíveis lucros do comércio varejista com a venda de aparelhos de televisão ou geladeiras, conseguirão compensar o tempo perdido. O aumento de 30% nas vendas do comércio popular, esperado pelos comerciantes da Rua 25 de Março, em São Paulo, também serão infinitamente menores do que os ganhos que o país poderia ter com o Mundial.
“Não é exatamente a Copa que faz crescer um país”, explica Perfeito, baseando-se num estudo feito com os países que sediaram os jogos nos últimos 30 anos. “O campeonato permite principalmente melhorar gargalos de infraestrutura, forçar o poder público a investir em determinadas áreas e gerar um potencial de crescimento para os anos seguintes. Este definitivamente não foi o caso do Brasil”.
Se depender dos esforços do governo, nem o turismo será alavancado da maneira como poderia. Além de ser um fato que os turistas brasileiros continuarão a gastar mais nas viagens ao exterior, os estrangeiros têm cada vez menos motivos para desembarcar por aqui. Numa de suas últimas entrevistas, Aldo Rebelo, ministro do Esporte, usou um argumento no mínimo esdrúxulo para tentar atrair para o país os visitantes preocupados com a violência: “Não creio que o Brasil vá trazer mais riscos para os ingleses do que o risco que eles enfrentaram nas províncias iraquianas, nas guerras que praticaram recentemente”.
Se o Brasil tem muito o que lamentar, Joseph Blatter e outros dirigentes da Fifa estão rindo à toa. Uma reportagem publicada no Estadão desta quinta-feira mostrou que a renda da entidade com a Copa no Brasil ultrapassará a marca de US$ 4 bilhões, mais de US$ 800 milhões do que faturou na África do Sul em 2010.
Também nesta quinta, números publicados na Folha de S. Paulomostram que os gastos e os empréstimos dos governos federal, estaduais e municipais com os jogos somam R$ 25,8 bilhões. O valor equivale, por exemplo, a um mês de gastos públicos com educação e ao triplo do que se planeja gastar na transposição do Rio São Francisco. Só com estádios foram R$ 8,5 bilhões, 36% a mais dos que os iniciais R$ 5,9 bilhões.
Em julho de 2010, o ex-presidente Lula disse, durante a Copa da África do Sul, que era “descabido alguém se preocupar com alguma coisa sobre a Copa de 2014″. “O Brasil vai investir em infraestrutura até 2014 o que não investiu em 30 anos”, delirou o palanque ambulante. “Se com tudo isso o Brasil não tiver condições de realizar uma Copa, volto ao país a nado”. Pouco depois, Lula voltou ao país. De avião.
A menos de 20 dias do início dos jogos, não há dúvida: vai ter Copa. Também está fora de dúvida que o que foi planejado para ser o grande acontecimento esportivo-eleitoreiro para 2014 não passará de um fiasco político-econômico.

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