segunda-feira, 26 de maio de 2014

Ricardo Setti - VER PARA CRER: Angola imita a China e também cria cidade fantasma novinha em folha — cabem lá meio milhão de pessoas, mas não tem ninguém




Angola novinha em folha, e vazia, vazia (Foto: m.publico.pt)
A cidade de Kilamba, projetada para 500 mil habitantes: 3,5 bilhões de dólares de gastos, e praticamente sem moradores (Foto: m.publico.pt)
Publicado originalmente em 23 de agosto de 2012
Com a crise financeira, as atenções do mundo neste aspecto estão invariavelmente voltadas para as enormes dificuldades da Europa, o papel central jogado pela China ou se é firme e vai continuar a recuperação do gigante norte-americano.
Pouca, pouquíssima gente presta atenção em Angola, a ex-colônia que Portugal sugou durante cinco séculos, até 1975, e que desde sua independência até 2002 esteve envolta numa guerra civil que reduziu o país a escombros.
Pois bem, Angola, país de 1,2 milhão de quiômetros quadrados e 18 milhões de habitantes, está literalmente explodindo de crescimento. E a dinheirama proveniente do petróleo — é um dos 20 maiores produtores mundiais, com quase 2 milhões de barris diários — nem sempre está sendo bem gasta. Vejam o caso da cidade de Kilamba, a 30 quilômetros da capital, Luanda, construída para abrigar meio milhão de pessoas mas na qual só vivem… algumas centenas de habitantes!
Angola novinha em folha, e vazia, vazia (Foto: m.publico.pt)
Kilamba vista de outro ângulo: o preço dos apartamentos os torna inacessíveis à maioria esmagadora da população (Foto: m.publico.pt)
Posta em pé em menos de três anos com dinheiro público pelo governo corrupto do ditador José Eduardo dos Santos, foi programada para abrigar mais de 20 mil apartamentos, numa primeira fase, e cinco mil casas populares. Seus imóveis, porém, que custam entre 150 mil e 200 mil dólares, são inacessíveis para a esmagadora maioria da população, que vive com entre 2 e 3 dólares por dia.
Erguida pela estatal chinesa China International Trust and Investment Corporation a um custo de 3,5 bilhões de dólares, Kilamba é uma cidade fantasma — tais como tantas que existem na própria China, já mostradas pelo blog.
Em Angola, as ruas vazias
Ruas e avenidas, meio-fios, iluminação pública, sinais de trânsito — mas nada de movimento (Foto: bbc.com)
Com 750 edifícios já prontinhos, a maioria de oito andares, dotados de acesso à internet e ar condicionado, Kilamba possui 24 creches, nove escolas primárias, oito secundárias e cinquenta quilómetros de vias de acesso, ruas e avenidas — mas não tem gente. Nas ruas, praticamente não há carros, nem caminhões, nem ônibus.
Presidente de Angola, José Eduardo dos Santos (Foto: Já Imagens)
O presidente de Angola, José Eduardo dos Santos, lança a pedra fundamental das 5 mil casas “sociais” que pretende entregar em Kilanga (Foto: jaimagens.com)
A abundância de petróleo permite que o governo de José Eduardo dos Santos, ex-dirigente comunista transformado em entusiasta do capitalismo de Estado, possa apresentar números de crescimento rigorosamente espantosos: do ano 2000 – ainda com a guerra civil em curso – até o ano passado, o Produto Interno Bruto (PIB) do país cresceu a uma inacreditável média de 11,52% anuais.
A partir de 2005, já sobre uma economia mais sólida e com o país parcialmente reconstruído, o PIB bateu por duas vezes o índice de 20%!!! O prognóstico para este ano, com boa parte do mundo desenvolvido em recessão ou estagnado, é de que cresça 8%.
A economia vai bem, o povo nem tanto, e a verdade dos fatos muito menos. O vídeo abaixo mostra uma Kilanga que não existe, repleta de gente feliz, com as escolas cheias de alunos etc etc. Segundo a BBC de Londres, os supostos moradores mostrados são atores contratados.

A “nova classe média” vive de bico?


A “nova classe média” vive de bico?

editorial do Estadão hoje mostra em pesquisa como uma parcela razoável da “nova classe média” depende de “bicos” para se manter nesse patamar social:
Uma parte da “nova classe média” brasileira depende de bicos para manter-se no patamar socioeconômico que alcançou. Essa constatação está em uma pesquisa que acompanhou o modo como as famílias dessa classe gerenciam sua renda. O levantamento, divulgado pelo Estado, indica uma grande dificuldade de obter estabilidade apenas com os ganhos do emprego formal, obrigando as famílias a complementar a renda com diversas atividades de caráter incerto. Dependentes da demanda por esses serviços informais, os pesquisados podem passar da classe B para a D em um curto espaço de tempo, às vezes de um mês para o outro.
Embora não tenha abrangido o País todo, a pesquisa é um claro indício de que a má qualidade do emprego no Brasil condena uma parcela importante dessa festejada classe de renda ao aperto permanente em razão das dívidas, da ignorância em relação à sua situação real e do despreparo técnico e educacional para buscar uma colocação mais rentável e estável.
[...]
Isso acontece porque essas famílias têm um ganho fixo muito baixo, que frequentemente nem é fruto de trabalho formal, e só de benefícios sociais, como aposentadoria e Bolsa Família. A renda, portanto, tem de ser complementada com serviços eventuais – que muitas vezes resultam em ganhos maiores do que os proporcionados pelo fixo.
[...]
Um aspecto importante do levantamento é que muitos entrevistados só entendem que estão endividados quando não conseguem pagar as prestações ou renegociar os débitos. Parte da “nova classe média” não reconhece como dívida as prestações que ainda não venceram nem as que já estão em atraso, mas somente aquelas que o credor não aceitou renegociar. Isso significa que, mesmo endividadas, as famílias dessa classe continuam a consumir sem fazer provisão para pagar os débitos. Ao contrário: para seguir o padrão imaginado para a classe, elas ampliaram o cardápio de consumo, incluindo TV por assinatura, internet, plano de saúde e escola particular, estreitando ainda mais sua margem de manobra para enfrentar a oscilação de renda.
Sabemos como o governo Dilma, munido pelos estudos de Marcelo Neri (o Mr. M. do Ipea), tem alardeado esse espantoso crescimento da “nova classe média”, que inclui até gente que vive em favelas e depende de “bicos”. Mas muito disso não passa de engodo, de aparências.
Muitos são membros da “nova classe média” graças ao crédito farto, que não é sustentável, como podemos observar pela alta na taxa de juros e na inadimplência. A falta de conhecimento sobre finanças é algo assustador também. Quando junta o consumismo típico dos brasileiros, com essa ignorância financeira, o resultado é um excesso de alavancagem só porque a prestação cabe (por enquanto) no orçamento mensal. Até o dia em que isso não for mais verdade.
Não quero parecer alarmista, mas é preciso ser realista. Desenvolvimento sustentável só se consegue com aumento da produtividade, com uma mão de obra mais qualificada em um ambiente mais competitivo de livre mercado. O resto é sonho de uma noite de verão, que costuma acabar como pesadelo quando chega o inverno…
Rodrigo Constantino

Olho para o meu título de eleitor, e em lágrimas pergunto: Filho, o que estamos fazendo com você?

O Brasil? O Brasil, infelizmente, é um país que sempre caminha para o bolso de alguém.

Coluna do Cláudio Humberto

  • O comandante do Exército, general Enzo Peri, está sujeito a ação penal pelos crimes de responsabilidade e prevaricação por não cassar a Medalha do Pacificador concedida ao mensaleiro e ex-deputado José Genoino (PT-SP), segundo especialistas consultados pela coluna. Pelo Decreto 4.207 de 2002, o general é obrigado a cassar a medalha ex officio quando o agraciado, como Genoino, é condenado por corrupção.
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  • Exército, Ministério da Defesa e Ministério Público Federal fazem jogo de empurra. Todos parecem temer uma posição sobre o caso Genoino.
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  • Esta coluna aguarda há meses explicação sobre o caso Genoino, pedida ao gabinete de Enzo Peri por meio do coronel Amauri Silvestre.
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  • Juristas consultados são taxativos: a ação contra Peri não é exclusiva ao âmbito militar. Pode ser acionado na Justiça Federal, por exemplo.
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  • Genoino foi condenado em 2012 pelo Supremo Tribunal Federal, no caso do mensalão. Há quase dois anos, Peri ignora o problema.
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  • Quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Lava Jato, havia contra o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa apenas mandado de “condução coercitiva” para depor. Mas, ao concluir seu depoimento, ele teria ligado a familiares (filhas, genros) para fazerem uma “limpeza” em seu escritório. Como o telefone era monitorado, a PF fez o flagrante da destruição de provas e obstrução da Justiça, e sua prisão foi decretada.
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  • Além do que o processo da Lava Jato dita, Paulo Roberto Costa e familiares respondem agora por obstrução da Justiça. Isso dá cadeia.
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  • Único dos presos sob a grave acusação de tentativa de destruição de provas, Paulo Roberto Costa foi o único a ser solto pelo Supremo.
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  • A permanência de Paulo Roberto Costa na prisão, e sob pressão para abrir o jogo, tirou o sono de figurões da política e do meio empresarial.
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  • Apesar de ter contas rejeitadas pelo Tribunal de Contas da União e responder a ação civil pública na Justiça do Ceará, o presidente da Fecomércio-CE, Luiz Gastão Bittencourt, foi nomeado interventor do Sesc-RJ pelo eterno presidente da CNC, Antonio Oliveira Santos.
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  • A Operação Ararath, da Polícia Federal, foi batizada em homenagem ao monte na Turquia, onde – de acordo com livro de Gênesis – estaria a Arca de Noé; uma espécie de “loteria” de proporções bíblicas.
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  • À beira do Conselho de Ética pela enrolada amizade com o doleiro Alberto Youssef, o deputado André Vargas (ex-PT-PR) não poupa verba: contratou mais um secretário comissionado para seu gabinete.
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  • Servidores do IBGE em dez estados decretam greve a partir de hoje. A crise no instituto ocorre desde abril, quando a presidência do órgão tentou suspender nova metodologia de pesquisa. Grevistas apontam, em ano eleitoral, que a taxa de desemprego é maior que o divulgado.
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  • Portaria de Joaquim Barbosa (STF), presidente do Conselho Nacional de Justiça, pôs um ponto final no currículo dos políticos presos do mensalão: estão inelegíveis Genoino, Valdemar e Roberto Jefferson.
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  • Novo pânico no submundo da corrupção: áudios de conversas do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, com empresários e políticos, em animadas negociatas, podem ter vazado da operação Lava Jato.
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  • Internautas já começaram a cobrar “alongamento” do ex-presidente Lula. Ele prometeu, em 2010, que voltaria “a nado” da África do Sul se o Brasil não estivesse pronto para a Copa do Mundo de 2014.
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  • Foi de Copa a conversa do líder Vicentinho (PT-SP) com os colegas de CPI da Petrobras: “No ataque, Sibá Machado. Goleiro, Marco Maia, retaguarda, Arlindo Chinaglia; na defesa, Iriny Lopes”. Pano rápido.
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  • O ministro Teori Zavascki estragou o São João do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, que dançará a quadrilha sozinho.
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BRASIL/ARGENTINA- “Não é só a beleza. Às vezes também a feiura vem acompanhada pela burrice.” (Mim)

Vamos ver Copa de Jeque? Agacha aí Lula...

De Carlos Lacerda para Letícia Spiller



leticia_spiller_insta
A atriz Letícia Spiller já é velha conhecida dos leitores deste blog. Afinal, foi uma carta a ela a publicação recordista de audiência por aqui, com mais de um milhão de visualizações e quase 300 mil curtidas. Falei para a atriz, que chegou a dizer que foi idiota no passado ao usar camisa com a bandeira americana em vez de Che Guevara, usar o recente assalto que sofreu para refletir sobre as ideias equivocadas que disseminava.
notícia publicada ontem no Ego, portanto, de que a atriz resolveu passar as férias com os filhos na… Disney, não irá surpreender tantos assim. Por que Disney? Por que não Cuba? Esse pessoal adora adorar Cuba de longe, e odiar o “imperialismo ianque” bem de perto, divertindo-se com aquilo que só os americanos capitalistas sabem oferecer bem.
Incoerência. Hipocrisia. Essas são as palavras que definem a atitude desses artistas. Letícia elogia Cuba e vai para os Estados Unidos, onde pode usar a sua camisa do Che Guevera em paz, ao lado do Mickey e do Pateta (quem é o pateta nessa história?). Se fosse o contrário, se elogiasse os Estados Unidos e fosse para Cuba com a camisa do Tio Sam, seria expulsa, presa ou fuzilada. Isso prova o abismo intransponível entre ambos os regimes, e também nos fala muito sobre a hipocrisia da esquerda caviar.
Nada disso é novo. Nelson Rodrigues já pegava no pé da “festiva” na década de 1960. Roberto Campos já havia resumido bem o fenômeno quando disse: “É divertidíssima a esquizofrenia de nossos artistas e intelectuais de esquerda: admiram o socialismo de Fidel Castro, mas adoram também três coisas que só o capitalismo sabe dar – bons cachês em moeda forte, ausência de censura e consumismo burguês; trata-se de filhos de Marx numa transa adúltera com a Coca-Cola…”
Outro que percebeu a hipocrisia dos nossos artistas engajados de esquerda, usando como exemplo o maior ícone deles, foi Carlos Lacerda, não por acaso odiado pelos socialistas tupiniquins. Eis o que ele escreveu no livro Depoimento, no ano em que nasci, 1976:
“Eu nunca fui, em outras palavras, da esquerda festiva. Essa glória eu tenho, nunca pertenci à esquerda festiva, que inclusive é um fenômeno relativamente novo. Eu nunca seria capaz de fazer o papel do Chico Buarque de Holanda, cuja música eu aprecio muito e cujo caráter não aprecio nada. Estou falando dele, mas não especialmente dele. Só citando um exemplo. Digo isso porque é uma esquerda festiva, que é contra um regime do qual ele vive, no qual se instala, do qual participa lindamente, maravilhosamente, etc. Eu não conheço nenhum sacrifício que ele tenha feito senão a censura em suas músicas por suas ideias. Agora, acho que se ele tem essas ideias, então seja coerente, viva essas ideias, viva de acordo com elas. Isso não é nenhum caso particular com Chico… Estou apenas dando um exemplo. Enfim, tenho horror à esquerda festiva, porque acho que é uma forma parasitária de declarar guerra a uma sociedade da qual se beneficia e participa integralmente.”
Nada mudou. Ou uma coisa ao menos mudou: hoje em dia eles continuam esfregando toda essa hipocrisia em nossas caras, mas há forte reação! Como a esquerda vem finalmente perdendo a hegemonia cultural no país, agora já temos sites, blogs, jornalistas e milhares de indivíduos nas redes sociais se manifestando, condenando, criticando e cobrando um mínimo de coerência dessa turma.
Não são mais uns poucos corajosos isolados em uma coluna de jornal, mas um monte de gente que contesta a falta de coerência dos artistas que cospem no capitalismo somente da boca para fora. O preço da hipocrisia será cada vez mais alto para eles, o que pode representar um freio em tanta cara de pau…
PS: Assim como a esquerda caviar, eu também vou à Disney, mas ao contrário dela, eu elogio suas qualidades e até chego a afirmar que ela é muito melhor do que Foucault!
Rodrigo Constantino

Caio Blinder- Rabiscos eleitorais (Colômbia)

A eleição colombiana, cujo primeiro turno aconteceu no domingo, é basicamente um plebiscito sobre como lidar com as FARC e as divergências a respeito resultaram em uma guerra civil (política) dentro da elite colombiana.
Para o segundo turno em 15 de junho vão o presidente centrista Juan Manuel Santos e o conservador Óscar Iván Zuluaga, hoje um marionete do ex-presidente Álvaro Uribe, que também guiou Santos para o poder no seu primeiro mandato. Santos, aliás, terminou em segundo lugar no primeiro turno, numa competição que contou ainda com três outros candidatos de peso eleitoral.
A disputa feroz dentro da elite colombiana dá uma medida de como a esquerda foi destroçada na política colombiana. Ela foi marginalizada pelos rebeldes das FARC, com origem na guerrilha marxista e camponesa e hoje um grupo sem credibilidade ideológica, basicamente mergulhado em atividades do crime comum, devido a seus laços com o narcotráfico.
A Colômbia urbana repudia as FARC e ela pendeu para a direita, o que a natural como reação a este grupo criminoso fundado há 50 anos. O debate nacional é como absorver seus remanescentes. E já que são deliquentes, podemos usar o termo reabilitação. Uribe hoje acusa de forma estridente o seu ex-ministro da Defesa Santos de ser um “castrochavista” por ter investido nas negociações de paz com as FARC, que acontecem em Havana, e precipitado um processo para permitir que as FARC participem do jogo político convencional.
A proposta de Santos é razoável e foi recebida inicialmente com simpatia pela população cansada, embora haja ceticismo sobre a implementacão e o presidente nunca vendeu de forma convincente seu projeto. O resultado foi a perda do franco favoritismo eleitoral de Santos e a ocupação do espaço político de forma virulenta pelo “uribismo”, que bate na tecla de paz sem impunidade.
A proposta uribista é de uma postura bem mais incisiva em relação à guerrilha narcotraficante, exigindo dela um cessar-fogo unilateral, e cabe agora a Santos realizar uma campanha para o segundo turno que convença os colombianos que compensa o risco das negociações de paz com o objetivo de normalizar a vida colombiana. E em termos de pluralismo democrático, será ótimo para o país caso se revitalize uma esquerda política hoje marginalizada.
A projeção insegura do Instituto Blinder & Blainder é de vitória de Juan Manuel Santos em 15 de junho, o que será um bom resultado para a Colômbia e para a América Latina.


Caio Blinder- Rabiscos eleitorais (Ucrânia)

A eleição ucraniana deu em chocolate. Com tudo tão melado no país que vive uma situação de guerra civil de baixa intensidade devido à desestabilização russa no leste, até que as coisas foram bem no domingo. Era crucial uma vitória categórica do favorito Petro Poroshenko, conhecido como o “Rei do chocolate” por suas indústrias no setor. O czar Vladimir Putin faz o que pode para a Ucrânia “melar” e acabar em pizza, mas parece se acomodar minimamente à realidade. Afinal, ele é perdedor nesta eleição. Paga pelos erros de cálculo por seu aventureirismo ucraniano.
E esta realidade é um presidente achocolatado que terá um mandato legítimo e incontestável, especialmente com sua vitória já no primeiro turno. Era fundamental encurtar o período de incerteza eleitoral, algo que daria vantagem para os separatistas pró-russos e aumentaria a margem de manobra de Putin. A agitprop russa bombardeia que fascistas deram um golpe que resultou na queda do governo de Viktor Yanukovich em fevereiro. No entanto, aí está o governo interino que convocou as eleições que devem dar legitimidade ao novo governo. E os fascistas fabricados pela agitprop russa? Pois bem, a extrema direita teve 1% dos votos na Ucrânia, enquanto nas eleições para o Parlamento europeu no domingo, em alguns países, como a França, ela conseguiu mais de 25% dos votos.
Porém, não vamos exagerar na nobreza política ucraniana. O país é mal servido por sua elite política desde a independência em 1991, o que ajuda a explicar o desastre nacional, acelerado pelo pendor russo de querer ditar os rumos do vizinho. Poroshenko é mais um oligarca bilionário e foi ministro de governos anteriores, mas ao menos foi à praça Maidan, em Kiev, em fevereiro, dar apoio ao povo revoltado contra o governo corrupto, venal e pró-russo de Yanukovich. Outros oligarcas fazem jogo duplo ou esperam as coisas se assentarem para tomar partido.
Poroshenko obviamente não é nenhum anjo. Foi ministro das Relações Exteriores do primeiro Viktor (Yushchenko), o herói da Revolução Laranja de 2004, que trouxe tanta desilusão, mas também serviu como ministro da Economia do segundo Viktor (Yanukovich), que trouxe para lá de desilusão. O jogo corporal do “Rei do chocolate” dá uma medida de como tudo é embolado e embolorado no país.
Poroshenko, porém, expressa convicção sobre a necessidade de uma Ucrânia unida e pró-Ocidente, embora descarte adesão à Otan. Ele descarta também reconhecer a ilegal anexação da Crimeia por Putin, mas, com realismo, acena para o vizinho russo (que estará lá para sempre). Os laços econômicos, políticos e culturais com a Rússia não podem ser simplesmente eliminados. E isto nem é do interesse do Ocidente. Putin sinalizou disposição para transacionar com Poroshenko, mas vamos ver como isto vai funcionar na prática.
O presidente russo mantém uma alavanca perigosa e destrutiva no leste ucraniano, com os bandoleiros separatistas, que contam com pouco apoio popular, mas têm condições de desestabilizar a situação. No leste, não existe entusiasmo com Kiev e mesmo na capital há muito ceticismo popular sobre oligarcas como Poroshenko, embora com habilidade na campanha eleitoral ele tenha se distanciado da classe política desacreditada e enfatizado sua capacidade gerencial.
A situação continua muito salgada na Ucrânia, mas o chocolate meio amargo de Poroshenko é digerível.

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