segunda-feira, 2 de junho de 2014

Janer Cristaldo- EU, HIPÓCRITA E IGNORANTE DE MÁ-FÉ

Escrevi há pouco sobre a intenção do PT de instalar sovietes no país. Espantosamente, nenhum jornalista percebeu as semelhanças da PNPS com os sovietes russos. Que, na revolução abortada de 1905, até tinham um certo sentido. Não existindo representação parlamentar sob o czarismo, se alguém pretendia uma revolução tinha necessariamente de organizar um poder paralelo. 

Não é o caso do Brasil. Temos um parlamento, que bem ou mal foi eleito em eleições livres. Se o povo não sabe escolher, isto são outros quinhentos. De qualquer forma, a eleição pelo sistema um homem/um voto sempre será mais sensata que a nomeação pelo PT de baderneiros como consultores dos poderes constituídos do país. 

Comentando minha crônica sobre os sovietes que o PT quer instalar, um bom amigo me reproduz este comentário de um de seus interlocutores:

“O Cristaldo não entendeu nada, ou de propósito diz ter entendido uma coisa quando é outra. Vem com uma história antiga, de rebeldia do povo contra o governo como se fosse essa a proposição; bem ao contrário, a proposta, como se possa ter lido, é de atividade de apoio, como era de apoio o Orçamento Participativo, um modelo democrático de ouvir as aspirações da comunidade. Dirás que um governo que não sabe governar estaria solicitando apoio à comunidade, é isso? Ou, não seria o contrário, o governo municipal, (estadual, federal, por associação) não estaria agindo em conformidade aos desejos da população?

“Não te parece que o Cristaldo anda querendo assunto, quer apresentar uma crônica, precisa apresentar uma crônica e utiliza justamente aquilo que o faz ser contraditório. Não entrasse melhor seria, assim perde credibilidade”.

Começo pelo final. Não preciso apresentar crônica alguma e nada recebo por elas, como é o caso dos agitprops da Internet cujos blogs são financiados pelo PT. Faço porque quero, gosto e posso. 

Continuando: este senhor parece ser daqueles que acreditam no imenso e desprendido amor do PT pelo país e pelo povo brasileiro. Ora, uma corja de egressos do marxismo e da igreja, que nem sequer aceitam o óbvio – o mensalão – e incensam criminosos julgados e encarcerados como heróis, se pensa em algo é na manutenção do poder e privilégios. 

Até se entende a existência de marxistas honestos até meados do século passado. Acreditavam na utopia e desconheciam os crimes de Lênin e Stalin, cujas notícias mal chegaram no Brasil. Os crimes do Paizinho do Povo só foram desvelados em 35, 36 e a affaire Kravchenko só ocorreu em 49. O livro de Kravchenko, Eu escolhi a liberdade - que desmascara definitivamente a tirania stalinista - até que foi publicado no Brasil, mas os comunistas conseguiram transformar o título em motivo de troça. Se alguém condenava o regime soviético, respondiam com um sorrisinho de superioridade: “sei, você escolheu a liberdade”. 

O PT não tem esse atenuante, a ignorância de seus “malfeitos”, como diz Dona Dilma. Soube e sabe das falcatruas de seus líderes, mas não as reconhece. Mais fácil encontrar um comunista íntegro que um petista honesto. Seus deputados roubam, são julgados e presos e o PT os defende, reservando suas críticas ao presidente do Supremo, aliás nomeado pelo capo de tutti i capi. Almas candorosas ainda acham que o PT está preocupado com o bem-estar da nação. Ou alguém já teve notícias, ao longo de toda a história do país, de partido mais corrupto? Se alguém tiver, favor informar-me.

O comentário do senhor que acha não entendi nada, curiosamente coincide com o coordenador dos ditos movimentos sociais, o secretário-geral da Presidência da República, ministro Gilberto Carvalho, que classifica de hipocrisia, ignorância e má-fé a tentativa da oposição de derrubar o decreto que instituiu a PNPS. No fundo, está dizendo que discordar de qualquer proposição do governo só pode partir de hipócritas, ignorantes ou gente demá-fé. Pois só tais indivíduos podem opor-se ao partido que porta a verdade. A argumentação é brilhante e denuncia a filiação ideológica do ministro: antes de discutir o mérito de uma questão, desmoralize o oponente.

Segundo editorial do Estado de São Paulo – certamente hipócrita e de má fé – a fórmula não é muito original. “O decreto cria um sistema para que a "sociedade civil" participe diretamente em "todos os órgãos e entidades da administração pública federal direta e indireta", e também nas agências reguladoras, através de conselhos, comissões, conferências, ouvidorias, mesas de diálogo, etc. Tudo isso tem, segundo o decreto, o objetivo de "consolidar a participação social como método de governo". Ora, a participação social numa democracia representativa se dá através dos seus representantes no Congresso, legitimamente eleitos. O que se vê é que a companheira Dilma não concorda com o sistema representativo brasileiro, definido pela Assembleia Constituinte de 1988, e quer, por decreto, instituir outra fonte de poder: a "participação direta".

“Não se trata de um ato ingênuo, como se a Presidência da República tivesse descoberto uma nova forma de fazer democracia, mais aberta e menos "burocrática". O Decreto 8.243, apesar das suas palavras de efeito, tem - isso sim - um efeito profundamente antidemocrático. Ele fere o princípio básico da igualdade democrática ("uma pessoa, um voto") ao propiciar que alguns determinados cidadãos, aqueles que são politicamente alinhados a uma ideia, sejam mais ouvidos”. 

Estamos ante a tentativa de um golpe branco. De um canetaço, uma mudança de regime. Provavelmente não vai colar. Mas quem não arrisca, não petisca. Se colar, colou. A poucos meses das eleições, o PT tira uma carta da manga e escancara sua verdadeira face. 

E se você, leitor, assim pensa, não passa de um hipócrita e ignorante de má-fé. Como este que vos escreve.

Ninguém é contra o combate ao trabalho escravo, mas antes é preciso definir muito bem o conceito

A tentativa por parte da esquerda de monopolizar as boas intenções é uma constante no debate político nacional. Não seria diferente com o caso do trabalho escravo. Pensemos seriamente no assunto: quem, em sã consciência, pode defender o trabalho escravo em pleno século 21? Alguém realmente acredita naquela imagem caricata de latifundiários acorrentando pobres trabalhadores e lhes dando chibatadas para labutarem no campo de sol a sol?
Claro que não é isso que está em jogo aqui. A imensa maioria dos brasileiros apoiaria qualquer intervenção estatal contra um absurdo desses, inclusive os produtores rurais. Quando a PEC do Trabalho Escravo empaca no Congresso por conta da reação da “bancada ruralista”, é porque há algo mais em risco ali. E ela foi finalmente aprovada pelo Senado apenas porque os ruralistas tiveram sucesso ao incluir a necessidade de uma definição legal e mais precisa sobre o que é considerado trabalho escravo.
Eis o xis da questão. Para a esquerda revolucionária, cujo objetivo é expropriar terras e acabar com os “latifúndios” no país, trabalho escravo não tem nada a ver com essa descrição feita acima. Bastaria não cumprir alguns dos mais de 230 itens das leis trabalhistas para ser considerado trabalho escravo e ficar sujeito à expropriação estatal.
Por isso é tão importante amarrar o conceito a uma definição objetiva, como defendem os ruralistas. Aqueles que lamentaram a inclusão deste “detalhe” na PEC expõem seu real objetivo, que não tem ligação alguma com o combate ao trabalho escravo de fato. Esse foi o tema dacoluna da senadora Kátia Abreu neste fim de semana na Folha, em que disse:
A PEC do Trabalho Escravo, recentemente aprovada pelo Senado -por unanimidade, aliás-, prevê a expropriação de terras nas quais for constatada essa prática, destinando-as para a reforma agrária e para os programas de habitação popular.
Isso implica que se defina precisamente, na “forma da lei”, o que significa “trabalho escravo”. Não se pode deixar a critérios arbitrários uma definição cujas consequências são de grande alcance. Devemos, sobretudo, descartar qualquer viés político e ideológico nessa questão.
Com efeito, a ideologização pode configurar um risco à própria liberdade defendida. É evidente, por exemplo, que a servidão por dívidas não pode ser confundida com questões trabalhistas ou sanitárias, que são objeto de outra forma de legislação e de punição.
Se um produtor rural não seguir uma determinada regra no que diz respeito à distância dos beliches entre si, não estará ele abrigando uma forma “análoga” à do trabalho escravo. Trata-se de uma questão de bom senso!
Mas bom senso é tudo aquilo que essa ala da esquerda mais despreza, em nome de sua ideologia revolucionária. O que seria, então, um trabalho escravo na modernidade? A senadora, por meio das normas da OIT, dá a resposta:
Busca-se, portanto, clareza nessa definição, como estabelece a convenção 29 da OIT: a) submissão a trabalho forçado, via uso da coação e restrição da liberdade pessoal; b) proibição da liberdade de ir e vir, sendo o trabalhador obrigado a ficar em seu local de trabalho; c) vigilância ostensiva do trabalhador, com a retenção de seus documentos pessoais, d) servidão por dívida, obstaculizando a liberdade do trabalhador.
Em outras palavras, o uso de coerção ou ameaça de coerção, que fere a liberdade básica de qualquer indivíduo para realizar apenas trocas voluntárias com seus empregadores. A coerção pode ser dissimulada, disfarçada, indireta, mas para se caracterizar trabalho escravo ela deve estar presente. Caso contrário, podemos lamentar a precariedade das condições de trabalho em um país pobre, os riscos envolvidos, mas não podemos falar em escravidão.
Um policial assume risco de vida constante em seu ofício, ganha mal, e nem por isso falamos em trabalho escravo. É uma escolha voluntária, e ele é livre para abandonar o emprego quando quiser. Liberdade não é poder, e essa é uma confusão comum. Eu sou livre para muitas coisas que não posso fazer, por falta de capacidade física ou financeira. Mas ninguém me impede de tentar, de correr atrás, logo não sou um escravo. Escravidão demanda o uso de coerção por parte de terceiros.
Que fique bem claro de uma vez: ninguém é contra o combate ao trabalho escravo, mas sim contra sua definição vaga, ambígua e arbitrária, que gera profunda insegurança jurídica e coloca em xeque um pilar básico das civilizações avançadas e capitalistas, que é a propriedade privada – justamente o alvo preferido da esquerda socialista. Todo cuidado é pouco com essa gente e seus projetos de lei.
PS: O lamentável nisso tudo é lembrar que a senadora Kátia Abreu, com esta visão clara da coisa, debandou-se para o lado de lá e hoje apoia a reeleição da presidente Dilma do PT, partido que é o ícone dessa linha revolucionária que ameaça a propriedade no campo – e nas cidades também.
Rodrigo Constantino

Reescrevendo a história e nivelando por baixo: o culto à mediocridade

Alguns leitores podem ter estranhado o fato de que ainda não me manifestei sobre as “adaptações” das obras de Machado de Assis para uma linguagem mais, digamos, simples e popular. É que certas aberrações eu procuro evitar, pois já lido com uma cota excessiva de lixo diário, tendo de acompanhar as falcatruas do PT na política e a mediocridade dos resultados econômicos.
Mas creio que minha opinião sobre o assunto não seja algo difícil de inferir. Condeno o culto à mediocridade, o “igualitarismo” de resultados que nivela todos pelo menor denominador comum. Logo, é claro que considero um acinte a iniciativa da tal “escritora”, financiada com vastos recursos públicos, de “popularizar” a linguagem do grande escritor brasileiro para torná-la mais acessível.
Este foi o tema da coluna de João Ubaldo Ribeiro hoje no GLOBO. Com sua fina ironia, o escritor baiano ridicularizou a coisa toda, e ainda antecipou algumas prováveis conseqüências desse marco inicial, que abre as porteiras para novas medidas “democráticas” na literatura. Por que parar aí? Se o estilo da escrita não é parte indissociável de uma obra, e se o único objetivo em mente é “popularizar” tudo, então há muito mais que ser feito. Por exemplo:
Os laços lógicos desse paternalismo condescendente desafiam a imaginação e, num contexto em que cada vez mais o Estado (ou seja, no nosso caso, o governo) mete o bedelho na vida individual de seus súditos, podemos temer qualquer coisa. Quanto a Machado de Assis, não se pode fazer mais nada, além de reescrever seus textos. Mas, quanto aos autores vivos, pode-se incentivá-los (ou obrigá-los, conforme o momento) a ater seus escritos ao Vocabulário Popular Brasileiro, que um dia destes pipoca por aí, tem muita gente no governo sem ter o que fazer. Constará ele das 1.200 palavras compreensíveis pela melhor parte da juventude e do povo brasileiros e, para não ser elitista, quem publicar livro ou matéria de jornal não deve passar delas e quem usar uma palavra considerada difícil não apenas será sempre vaiado quando em público, como pagará uma multa por vocábulo metido a sebo.
Novos empregos serão abertos, para enfrentar a tarefa hercúlea de atualizar nossa literatura. Para que os poetas precisam de tantas palavras, quando as do Vocabulário seriam suficientes para exprimir qualquer sentimento ou percepção? Ou o elitista diria o contrário, menosprezando preconceituosamente a sensibilidade e a criatividade do povão? E rima, meu Deus do céu, para que se usou tanto rima, uma coisa hoje em dia completamente superada? E ordens inversas, palavras postas fora do lugar, que só podem confundir o leitor comum? Por essas e outras é que os jovens também não lêem poesia.
A gente ri para não chorar. Não dê ideia, João Ubaldo! Em nome da “democracia”, da “inclusão social” e do combate ao “elitismo”, os ressentidos estão dispostos a atacar com todas as armas tudo aquilo que presta. É a revolta dos recalcados e rancorosos, contra tudo que vem de cima, superior, melhor. “Nóis pega o peixe” é uma forma “apenas diferente” de se expressar, e ai de quem disser que está errado!
O relativismo é total, estético e, por tabela, ético. Quem disse que lixo não é arte? Lixo é arte sim! Tudo é arte, logo, nada é arte. E assim os incompetentes, sem vocação e habilidade verdadeiras, incapazes de produzir uma obra de valor, conseguem matar a arte legítima. “Chega da ditadura do belo!”, eles bradam. É preciso dar um espaço ao feio, ruim, medíocre, “popular”. E João Ubaldo tem mais algumas dicas a essa turma:
E a lição se estende da literatura às outras artes. O povo não gosta de música erudita porque são aquelas peças vagarosas e demoradas demais. De novo, a solução virá ao adaptarmos Bach a ritmos funk, fazermos arranjos de sinfonias de Beethoven em compasso de pagode e trechos de no máximo cinco minutos cada e organizarmos uma coleção axé das obras de Villa-Lobos. Tudo para distribuição gratuita, como acontecerá com os livros de Machado reescritos, pois continuamos a ser um dos poucos povos do mundo que acreditam na existência de alguma coisa gratuita. E talvez o único em que o governo chancela, com dinheiro do cidadão, o aviltamento de marcos essenciais ao autorrespeito cultural e à identidade da nação, ao tempo em que incentiva o empobrecimento da língua e a manutenção do atraso e do privilégio.
Bach a ritmo de funk e Beethoven em compaso de pagode? É, a gente ri para não chorar. O culto à mediocridade venceu. Parabéns aos invejosos e niilistas…
Rodrigo Constantino

Janer Cristaldo-A MOSCA E A VACA - Ney Messias

A MOSCA E A VACA
Ney Messias
 


Não sei quem é o deputado Geraldo Freire, mas vejo que ele é esplêndido como deputado que se esqueceu do resto. Comentam os jornais que esse parlamentar, indagando sobre se sabia alguma coisa acerca da suspensão do recesso parlamentar, respondeu: “Não sei dizer nada. Ainda não pude habituar-me à idéia do recesso. Venho diariamente à Câmara, como se tudo estivesse normal”. Depois citou um filme do Gordo e do Magro, em que o Magro, durante uma guerra, foi posto de sentinela na fronteira da Alemanha com a Alsácia. Veio a paz e esqueceram de comunicar a novidade ao Magro que, depois de vinte anos, foi encontrado em seu posto, caminhando de um lado para o outro. E o deputado Geraldo Freire conclui: “Estou como o Magro, na minha trincheira. Esta sala... o edifício do Congresso! Ainda não me dei conta do recesso”.

Isso é admirável. Dizem que o pingüim choca os seus ovos nas patas, e que se alguém substitui os ovos por pedrinhas, ele continua chocando sem se aperceber de que não conseguirá descascar pingüins: heroísmo cego da maternidade que choca. Há ainda o caso dos místicos mergulhados nas suas visões transindividuais: com as mãos fechadas não notam o crescimento das unhas nem a passagem do tempo, motivo pelo qual as unhas crescem e atravessam a palma das mãos e vão sair triunfantes no dorso. São casos heróicos como o do Magro posto de sentinela durante vinte anos, sem saber da paz. Tudo isso me lembra a parábola da mosca encharcada de metafísica. “Esta sala... esta cadeira... o edifício do Congresso! Ainda não me dei conta do recesso” — eis o que uma mosca metafísica bem que poderia pensar indefinidamente.

Querem a história da mosca? Pois vou contá-la.

Ela estava pousada na grama do campo, a pensar na definição do indefinível, quando a vaca veio e comeu a grama em que ela sonhava. A divina mosca não interrompeu as suas meditações. Quando foi engolida estava pensando no «elã vital» de Bergson, e em suas relações com a «enteléquia» de Driesch. Quando passou pela garganta da vaca, sem saber de nada a não ser dos seus transcendentes pensamentos, meditou em que, segundo os ensinamentos de Aristóteles em seu tratado De Anima, Plotino chama a inteligência de «nous poiêticos», o que quer dizer «mente ativa», distinguindo-a do «nous patéticos», o que quer dizer «mente passiva». 

Embora toda a escuridão em que estava mergulhada, a mosca de heróica metafísica continuou pensando: atrás do universo material, de que nosso corpo faz parte, Plotino e os antigos pensadores da índia divisam a torrente da vida cósmica que se manifesta no Universo, e da qual o Universo é a expressão. Tudo isso não passa - pensava a mosca - de «longe» de Heráclito e dos estóicos, a razão imanente do fluir perpétuo das coisas. Mas os estóicos, que professavam um singular panteísmo, faziam do «Logos», ou da «razão seminal» como eles diziam, a causa primária da existência. 

A mosca mal sentiu um baque surdo que sacudiu toda a sua estrutura entomológica, e continuou pensando: talvez estivesse na «razão seminal» estóica, a «natureza naturante» de Jacob Bohème, que é o Deus que demarrou da «natureza inaturada» para acabar sendo, como todas as moscas, e os demais seres menos importantes da escala animal, a «natureza naturada» que está perto do júbilo do ser, que é a alegria dos entes que perderam a transcendência mas que ganharam o gozo do pecado e a suprema possibilidade da reconciliação que decorre das paixões dominadas e dos instintos refreados.

Pensava nisto a mosca quando abriu os olhos para o mundo aqui e agora do real. Viu então, com espanto, que a vaca já ia longe: viu-a de costas, sacudindo o rabo, no gesto magnífico da plena exoneração. Mas continuou pensando: «O processo mediante o qual, segundo Plotino. o «Uno» se manifesta através do “Nous” e do “Logos” não possui um caráter cronológico, mas lógico. É um processo eterno, a processão criadora, a que corresponde, na natureza naturada, o contraprocesso da ascenção reintegradora». 

É como se pensasse: «Esta sala... esta cadeira... o edifício do Congresso! Ainda não me dei conta do recesso», enquanto a vaca se sumia no horizonte, que por acaso não é horizonte algum. 

* Ney Messias foi um dos mais brilhantes cronistas que o Brasil já teve. Como não participava de igrejas literárias ou ideológicas, morreu praticamente desconhecido, em Porto Alegre, em 1970. Boa parte das crônicas escritas enquanto agonizava foram por mim compiladas na antologia O Construtor de Mistérios, hoje só encontradiça em sebos.

Etanol vai chorar no ombro da oposição



Aécio Neves
O setor de etanol terá uma segunda-feira de alta octanagem.
Os pré-candidatos à Presidência vão se encontrar com os empresários do setor no Top Etanol, o evento anual dos produtores de cana de açúcar.
Para a Presidente Dilma, vai ser um evento difícil. O congelamento de fato dos preços da gasolina nos últimos anos tirou a competitividade do etanol e quebrou dezenas de usinas, levando os empresários a chorar sobre o álcool derramado nos ombros de Aécio Neves e Eduardo Campos.
Já se vão cinco anos desde que o então presidente da Petrobrás, José Sergio Gabrielli, profetizou que “o etanol no Brasil vai ser o principal combustível, e a gasolina será o alternativo”.
De lá pra cá, o Governo segurou o preço da gasolina na bomba para controlar a inflação e manter sua popularidade em alta. Quem não gosta de gasolina barata?
Resultado: a Petrobrás viu seu balanço apodrecer e seu valor de mercado implodir, e os produtores de etanol, que viviam um bom momento graças à popularização do carro flex, começaram a sangrar. Nos últimos cinco anos, de acordo com a UNICA, a entidade que representa o setor, 43 usinas foram desativadas e outras 36 entraram em recuperação judicial. Mais: desde 2008, nenhuma decisão de instalação de nova usina foi tomada no País.
Além de congelar o preço na bomba, o Governo também acabou com a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico, a famigerada Cide. Para os contribuintes, a Cide era um monstrengo, mas para os empresários do setor, servia pra dar competitividade ao etanol porque incidia apenas sobre a gasolina e o diesel.
O fim da Cide equivaleu a uma renúncia fiscal da ordem de R$ 24 bilhões nos anos fiscais de 2011 a 2013. Detalhe: os recursos da Cide eram compartilhados com Estados e municípios para financiar projetos de transporte coletivo.
A situação do etanol é tão complicada que os empresários recentemente convocaram Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura do Governo Lula, para ser o presidente do conselho deliberativo da UNICA. Ele próprio um plantador de cana, Rodrigues tem amplo trânsito em Brasília para passar o recado do setor a qualquer que seja o governo.Eduardo Campos
Com os preços manipulados — estima-se que no primeiro trimestre a defasagem da gasolina foi de 15% e do diesel, 17% — o governo tenta amenizar a situação fazendo “consertos” na margem.
Na semana passada, anunciou o aumento da mistura de biodiesel no diesel de 5% hoje para 6% em julho e 7% em novembro. O anúncio foi interpretado como um aceno do Governo ao agronegócio, onde vários empresários da soja tem se mostrado mais simpáticos à oposição.
Analistas do setor esperam, para breve, que o governo também aumente o etanol anidro na gasolina. A mistura, que hoje é de 25%, poderia ir para 27,5%, mas a indústria automobilística ainda está fazendo as contas para entender o efeito na performance dos motores.
Na verdade, o chamado “problema do etanol” não se restringe apenas ao setor. O populismo com os preços da energia está na interseção de várias distorções na economia brasileira — incluindo no setor elétrico, um capítulo à parte na capacidade do governo de reinventar a roda… para dar marcha à ré.
O economista Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIE), projeta que, só este ano, a manutenção do represamento das tarifas de energia elétrica e dos preços da gasolina e do diesel totalizará 80,50 bilhões de reais. Para comparar, no ano passado o total gasto pelo governo em programas sociais, incluindo o Minha Casa, Minha Vida, foi de 63,2 bilhões de reais.
Por Geraldo Samor

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LIBERDADE COMO NOSSO DOM MAIOR

Ser livre para ir e vir!Pela liberdade de expressão.Pela humanidade contra os pregadores da escuridão que assolam nosso mundo moderno.Democracia verdadeira sempre,não aquela de fachada que persegue quem não compartilha de suas idéias.