terça-feira, 3 de junho de 2014

SÃO PAULO INAUGURA CRACKGARTEN

Janer Cristaldo
Segundo o secretário nacional de Políticas sobre Drogas, Vitore Maximiano, "temos uma pesquisa recente que indicou uma prevalência de 0,8% da população brasileira (1,6 milhão). Estamos falando de quem faz uso regular do crack. Embora essa pesquisa reflita a prevalência das capitais, a nosso ver ela mostra um retrato do País. Em São Paulo, a média de uso estaria dentro da média nacional". O estudo foi feito pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em parceria com pesquisadores da universidade de Princeton, nos Estados Unidos, para a Secretaria Nacional de Políticas Sobre Drogas (Senad). 

Consta que na cidade de São Paulo o número de viciados (perdão, leitor! Viciado é quem fuma cigarros. Quem fuma crack é usuário) é de 350 mil. Os números divergem conforme a fonte. Para o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, articulador da política antidrogas paulista, a quantidade de usuários de crack é maior. "Existe 1 milhão no Brasil – 40% no Estado de São Paulo", afirma. 

Segundo pesquisas, o número de usuários (disse-o bem?) de cocaína ainda é maior. Isso sem falar na maconha. Há muito venho me divertindo com os bobalhões que falam em legalizar a droga no Brasil. Se pelo menos uns três, quatro ou cinco milhões de brasileiros – cálculo por baixo – usam crack, cocaína e maconha, com conhecimento das autoridades, a droga há muito está legalizada. Os fatos venceram as boas intenções. 

Se é crime, como punir? Há pelo menos 150 mil criminosos julgados e condenados à prisão no país, circulando pelas ruas livres como passarinhos, por falta de vaga em prisões. Onde colocar três milhões? A droga venceu a lei e deu de dez a zero nos legisladores.

Estadão publicou na semana passada uma série de reportagens que mostra o estrago que vem sendo feito pelo crack em todo país. Droga baratinha, é consumida tanto por miseráveis como pela classe média. A praga grassa por metrópoles e pequenas cidades de todo o país. Nas grandes, formam-se as cracolândias, onde os viciados (perdão, de novo), digo, os usuários, consomem a droga ao ar livre, sob o olhar protetor da polícia. Nas menores, existem quartos para o consumo, à semelhança das casas de ópio do Oriente, pagos inclusive com a própria droga.

Segundo Laranjeira, "o crack está em todos os municípios, isso a gente pode falar". Em sua opinião, o avanço pelo interior segue "um fenômeno nacional" de pulverização do mercado da droga, movido pela melhoria das condições econômicas da população. "A droga segue o dinheiro. No Estado, ocorreu a pulverização dessa rede de distribuição. O tráfico não é só mais na favela.

Não bastasse assolar as cidades, o crack foi para a roça. Diz a reportagem doEstadão

“Nos canaviais, o problema é antigo e diminuiu significativamente com a substituição do corte manual pela colheita por máquinas. "Caiu mais de 70% a migração de pessoas do Nordeste e do Norte para regiões produtoras de cana de São Paulo", conta o padre Antônio Garcia Peres, da Pastoral do Migrante, que atendeu por 20 anos cortadores de cana na região de Guariba, onde havia muitos casos de crack nas lavouras. 

“Mas, nos laranjais e cafezais, produtores e sindicatos ainda têm de lidar com o vício entre os agricultores, principalmente os mais jovens. Já chamada de "criptonita", em referência ao mineral que acaba com a força do Super-Homem, a droga é usada como combustível pelos trabalhadores rurais e também como válvula de escape, depois de extenuantes jornadas. Muitos alojamentos de trabalhadores que migram para passar seis meses no Sudeste e conseguir um pouco de dinheiro acabam virando casas de consumo. "A gente tem trabalhador da colheita de laranja e temporário da colheita do café. Gente que vem de fora, como ocorre muito em Gália e Fernão, e acaba se envolvendo com o crack, não no ambiente de trabalho, mas no local onde dorme e passa o fim de semana", afirma o coordenador do Caps AD de Garça, José Roberto Ottoboni”.

Na capital, os usuários (ah! agora finalmete acertei!) gozam de mordomias. Para estimular o uso da pedrinha, o prefeito Fernando Haddad, do PT, ofereceu trabalho, salário, hotel e comida de graça aos nóias, digo, usuários. O resultado foi um pouco contraproducente: o preço da pedra subiu em flecha. 

Mês passado, para não perturbar o consumo público da droga, Haddad decidiu colocar um "cercadinho" na região da Cracolândia, no centro de São Paulo.

"Nós organizamos o território para que não haja obstrução. As pessoas têm o direito de transitar. Às vezes quando você toma uma medida causa uma reação até as pessoas compreenderem", disse o prefeito, que apontou ser uma medida que depende de um "pacto" com as pessoas que frequentam a área. 

Um cercado de metal foi erguido na esquina da alameda Cleveland e da rua Helvetia. A idéia, segundo o prefeito, era organizar o fluxo de pessoas que passam por ali, pois moradores têm reclamado da presença dos usuários obstruindo as ruas, principalmente a alameda Dino Bueno. 

Na Alemanha, os bares delimitam uma área nas calçadas para seus clientes, chamada Biergarten. Ou seja, jardim da cerveja. São Paulo, a pioneira – non ducor, duco – criou, para exemplo das nações, os crackgarten.

VENEZUELA- ‘Suicídio político’, de Fernando Tibúrcio Peña

Publicado no Globo
FERNANDO TIBÚRCIO PEÑA
A surreal coletiva de imprensa do Alto Comando Político da Revolução, quarta-feira em Caracas, mostrou o lado frágil da ditadura venezuelana. O regime, acuado, está com medo.
Não é preciso ser um especialista em análise do discurso para enxergar o que está escrito nas entrelinhas. A estratégia desesperada de acusar a deputada María Corina Machado de conspirar para assassinar o presidente Nicolás Maduro é um claro sinal de que o cisne vermelho da ditadura venezuelana está morrendo. Os grasnados psicóticos do psiquiatra Jorge Rodríguez são o seu canto derradeiro.
As últimas palavras podem parecer contaminadas pelo extremismo daqueles aos quais são dirigidas, mas são precisas. Quem viu o indisfarçável e cínico sorriso no rosto do homem que já foi vice-presidente da Venezuela, no momento em que este ameaçou tornar públicas informações sobre personalidades da oposição — “em outro horário”, quando as crianças não estejam assistindo à televisão —, não pôde deixar de compará-lo ao eterno diretor do FBI John Edgar Hoover e à sua compulsão por investigar a vida sexual dos que que não comungavam da sua ideologia anticomunista (em outras palavras, os comunistas e os que ele queria que fossem comunistas).
E quem está familiarizado com a escrita de María Corina sabe que ela não é a autora dos e-mails divulgados no show midiático do Teatro Nacional. A questão é irrelevante, no entanto. O que está em jogo é que o governo Maduro confessou publicamente que espionou e continua espionando a oposição. Por algo parecido, mas sem violência, o presidente americano Richard Nixon foi forçado a renunciar.
No Brasil, no começo da década de 90, milhões de pessoas exigiram a renúncia do presidente Fernando Collor de Mello. Conseguiram. Os estudantes brasileiros se recusaram a atender a um pedido de socorro do próprio presidente, um chamado para que saíssem às ruas vestidos de verde e amarelo. Preferiram sair de preto, com as caras, sim, pintadas com as cores do Brasil, e essa atitude representou o ponto de inflexão para um governo que vinha devastando o país economicamente. Estou certo de que a farsa montada da quarta-feira, assim como aconteceu no Brasil, será respondida nas ruas com milhões exigindo a renúncia de Nicolás Maduro.
Ao repetir inúmeras vezes que os e-mails dos oposicionistas provinham de uma investigação judicial, talvez no intento matreiro de justificar a maneira ilegal com que foram obtidos, o prefeito de Libertador cometeu um segundo pecado: confessou que a Justiça está nas mãos do governo. Com isso feriu de morte o presidente Nicolás Maduro. Então, se há algum magnicida nessa história, o nome dele é Jorge Rodríguez.
Pensando bem, talvez seja melhor colocar as coisas de outra maneira: o circo montado pelo Alto Comando Político da Revolução não provou aos venezuelanos que o magnicídio do presidente estava sendo tramado por María Corina Machado. Provou, sim, que o presidente Nicolás Maduro cometeu suicídio político.

Fascismo light: a cruzada antitabagista dos engenheiros sociais



Quem me acompanha há mais tempo sabe que considero a Anvisa uma das entidades mais fascistas do Brasil atualmente, e que abomino essa cruzada pela “saúde perfeita” que tomou conta da sociedade cada vez mais histérica. Sua face mais evidente é a luta política contra o cigarro. É a face de Dráuzio Varella (não sei quanto ao leitor, mas não me parece a face da saúde perfeita).
Com base nesse paternalismo, os engenheiros sociais, tutores de nossas almas, seguem avançando sobre liberdades básicas individuais. Não respeitam mais a propriedade privada, o direito de cada um escolher como viver a própria vida, desde que o direito de terceiros seja respeitado. Isso é muito pouco para os “fascistas do bem”: eles precisam salvar cada um de suas próprias “fraquezas”.
Reinaldo Azevedo falou sobre o assunto no dia do combate ao tabaco, e João Pereira Coutinho volta a ele hoje, endossando os alertas de Azevedo. Em sua coluna na Folha, Coutinho chama a atenção para onde vamos chegar: no mesmo caos paranóico da União Europeia. Só importamos o que há de pior dos países desenvolvidos, é impressionante. Diz o colunista português:
Os médicos podem “desaconselhar” o tabaco. Os cientistas podem provar os malefícios do fumo para a saúde do fumante (ativo), embora ainda esteja por provar qualquer relação consequente entre fumo (passivo) e câncer, por exemplo. Depois, em liberdade, cada um escolhe o modo de vida que entende com a informação de que dispõe.
Coisa diferente é afirmar que o fumo também pertence ao mundo do poder político. Não pertence. Se, como escreve Reinaldo Azevedo, os cigarros não são ilegais, não compete ao governo tratá-los como substâncias ilícitas. Sobretudo quando esse governo cobra impostos sobre o consumo, beneficiando os cofres do Estado com um vício que publicamente condena.
A hipocrisia do gesto fura os olhos de qualquer um: sob a capa da virtude, o governo rejeita os pulmões dos fumantes mas não o dinheiro deles.
Além disso, e mesmo que as proibições sejam em nome da saúde, não compete ao governo ser o “babysitter” de ninguém. Tentar aprimorar a qualidade da raça é coisa de regimes totalitários, não de democracias pluralistas.
Em democracias pluralistas, os indivíduos têm todo o direito de arruinar a própria saúde. Fumando. Bebendo. Transando sem camisinha. Rejeitando o “jogging” e abraçando o “zapping”.
Aliás, não é apenas o direito de cada um dispor da sua saúde que deve ser respeitado. Existe um direito ainda mais básico que a proibição do fumo em lugares fechados viola clamorosamente: é o direito à propriedade privada.
Levar uma “vida saudável” deve ser uma escolha individual, não algo imposto pelo estado. Essa “reeducação” forçada é típica de regimes totalitários. O fumante hoje é tratado como um “verme”, um “pária” da sociedade, um fraco incapaz de cuidar da própria saúde.
O argumento de que custam caro ao próprio estado não se sustenta e é muito perigoso. O ócio faz mal à saúde: será que o governo vai obrigar exercícios físicos também? Fritura, gordura, sal: tudo pode ser veneno dependendo da dose. Teremos cardápios de dieta obrigatórios também?
Todos pagamos impostos, e os hospitais públicos existem para todos. “Os hospitais não existem para tratar gente saudável. Relembrar o óbvio é o melhor retrato do ‘fascismo light’ em que vivemos”, diz Coutinho. Se o SUS é o problema, então o modelo coletivista é o problema, não o que cada um faz com sua liberdade individual.
No mais, pelo puro utilitarismo, pela conta estritamente monetária, o argumento seria o contrário: como o fumante tende a viver menos na média, ele custa menos ao erário, pois a Previdência Social é o maior custo disparado. Será que o governo deveria incentivar o fumo para cortar custos de aposentadoria?
Rodrigo Constantino

Do bolso da Fifa


maracanã
Maracanã: elogiado pela Fifa
A Fifa está comendo o pão que os governantes estaduais amassaram nesta reta final. Sobretudo em Natal, São Paulo, Porto Alegre, Manaus e Curitiba.
De acordo com a turma da Fifa, essas cidades-sedes nem respondem mais aos apelos ou telefonemas. Está tudo na base do “se virem, o dinheiro acabou”. Não há mais interlocutores – quer dizer, há no papel, mas evaporaram.
A Fifa está tirando dos seus cofres 30 milhões de reais para obras de acabamento tanto de estádios quanto dos overlays.
Elogios a Fifa só tem para o Maracanã, Castelão (Fortaleza) e Arena Pernambuco.
Por Lauro Jardim

‘O governo acabou’, de Marco Antonio Villa

Publicado no Globo desta terça-feira
MARCO ANTONIO VILLA
O governo Dilma definha a olhos vistos. Caminha para um fim melancólico. Os agentes econômicos têm plena consciência de que não podem esperar nada de novo. Cada declaração do ministro da Fazenda é recebida com desdém. As previsões são desmentidas semanas depois. Os planos não passam de ideias ao vento. O governo caiu no descrédito. Os ministérios estão paralisados. O que se mantém é a rotina administrativa. O governo se arrasta como um jogador de futebol, em fim de carreira, aos 40 minutos do segundo tempo, em uma tarde ensolarada.
Apesar do fracasso — e as pífias taxas de crescimento do PIB estão aí para que não haja nenhum desmentido —, Dilma é candidata à reeleição. São aquelas coisas que só acontecem no Brasil. Em qualquer lugar do mundo, após uma pálida gestão, o presidente abdicaria de concorrer. Não aqui. E, principalmente, tendo no governo a máquina petista que, hoje, só sobrevive como parasita do Estado.

A permanência no poder é a essência do projeto petista. Todo o resto é absolutamente secundário. O partido necessita da estrutura estatal para financeiramente se manter e o mesmo se aplica às suas lideranças — além dos milhares de assessores.
É nesta conjuntura que o partido tenta a todo custo manter o mesmo bloco que elegeu Dilma em 2010. E tem fracassado. Muitos dos companheiros de viagem já sentiram que os ventos estão soprando em sentido contrário. Estão procurando a oposição para manter o naco de poder que tiveram nos últimos 12 anos. O desafio para a oposição é como aproveitar esta divisão sem reproduzir a mesma forma de aliança que sempre condenou.
Como o cenário político foi ficando desfavorável à permanência do petismo, era mais que esperada a constante presença de Lula como elemento motivador e agregador para as alianças. Sabe, como criador, que o fracasso eleitoral da criatura será também o seu. Mas o sentimento popular de enfado, de cansaço, também o atingiu. O encanto está sendo quebrado, tanto no Brasil como no exterior. Hoje suas viagens internacionais não têm mais o apelo do período presidencial. Viaja como lobista utilizando descaradamente a estrutura governamental e intermediando negócios nebulosos à custa do Erário.
Se na campanha de 2010 era um presidente que pretendia eleger o sucessor, quatro anos depois a sua participação soa estranha, postiça. A tentativa de transferência do carisma fracassou. Isto explica por que Lula tem de trabalhar ativamente na campanha. Dilma deve ficar em um plano secundário quando o processo eleitoral efetivamente começar. Ela não tem o que apresentar. O figurino de faxineira, combatente da corrupção, foi esquecido. Na história da República, não houve um quadriênio com tantas acusações de “malfeitos” e desvios bilionários, como o dela. O figurino de gerentona foi abandonado com a sucessão de “pibinhos”. O que restou? Nada.
Lula está como gosta. É o centro das atenções. Acredita que pode novamente encarnar o personagem de Dom Sebastião. Em um país com uma pobre cultura democrática, não deve ser desprezada a sua participação nas eleições.
A paralisia política tem reflexos diretos na gestão governamental. As principais obras públicas estão atrasadas. Boa parte delas, além do atraso, teve majorados seus custos. Em três anos e meio, Dilma não conseguiu entregar nenhuma obra importante de infraestrutura. Isto em um país com os conhecidos problemas nesta área e que trazem sérios prejuízos à economia. Mas quando a ideologia se sobrepõe aos interesses nacionais não causa estranheza o investimento de US$ 1 bilhão na modernização e ampliação do porto de Mariel. Ou seja, a ironia da história é que a maior ação administrativa do governo Dilma não foi no Brasil, mas em Cuba.
Os investimentos de longo prazo foram caindo, os gastos para o desenvolvimento de educação, ciência e tecnologia são inferiores às necessidades de um país com as nossas carências. Não há uma área no governo que tenha cumprido suas metas, se destacado pela eficiência e que o ministro — alguém lembra o nome de ao menos cinco deles? — tenha se transformado em referência, positiva, claro, pois negativa não faltam candidatos.
O irresponsável namoro com o populismo econômico levou ao abandono das contas públicas, das metas de inflação e ao desequilíbrio das tarifas públicas. Basta ver o rombo produzido no setor elétrico. A ação governamental ficou pautada exclusivamente pela manutenção do PT no poder. As intervenções estatais impuseram uma lógica voluntarista e um estatismo fora de época. Basta citar as fabulosas injeções de capital — via Tesouro — para o BNDES e os generosos empréstimos (alguns, quase doações) ao grande capital. E a dívida pública, que está próxima dos R$ 2,5 trilhões?
No campo externo as opções escolhidas pelo governo foram as piores possíveis. Mais uma vez foi a ideologia que deu o tom. Basta citar um exemplo: a opção preferencial pelo Mercosul. Enquanto isso, o eixo dinâmico da economia mundial está se transferindo para a região Ásia-Pacífico.
Ainda não sabemos plenamente o significado para o país desta gestão. Mas quando comparamos os nossos índices de crescimento do PIB com os dos países emergentes ou nossos vizinhos da América Latina, o resultado é assustador. É possível estimar que no quadriênio Dilma a média sequer chegue a 2%. A média dos emergentes é de 5,2%, e da América Latina, de 3,2%. E o governo Dilma ainda tem mais sete meses pela frente. Meses de paralisia econômica. Haja agonia.

Comércio embaraçado

JOSÉ PAULO KUPFER-O ESTADO DE SÃO PAULO
A balança comercial continuou a apresentar, em maio, resultados insatisfatórios. O superávit no mês, de US$ 712 milhões, o mais baixo para meses de maio em uma dúzia de anos, reafirma as dificuldades competitivas do comércio exterior brasileiro.
Não faz tanto tempo, os saldos comerciais chegavam a até 15 vezes os US$ 3 bilhões projetados pelos analistas. Em meados da década passada, quando o comércio internacional ainda era impulsionado por uma China sedenta de commodities agrícolas e metálicas, o País chegou a registrar superávits anuais acima de US$ 45 bilhões. Mesmo depois da crise de 2008, com os países desenvolvidos às voltas com o baixo crescimento, o comércio exterior brasileiro manteve saldos positivos acima de US$ 20 bilhões.
A vertiginosa virada negativa no ano passado e a crescente perspectiva de repetição de um desempenho fraco em 2014 sinalizam um período mais longo de dificuldades na área. A fatura do isolamento brasileiro das cadeias de produção globais está começando a ser cobrada. O País entrou num círculo vicioso de ineficiências competitivas e comerciais que exigirá empenho redobrado para ser superado.
É sabido que a economia brasileira se encontra isolada do grande e cada vez mais disseminado circuito global das cadeias de valor. Mas nenhum esforço de inserção internacional será bem-sucedido sem a superação preliminar de diversos entraves operacionais ao fluxo de comércio. É sabido também que a situação da infraestrutura logística é ruim, mas a realidade pode ainda ser pior do que se imagina.
Um estudo comparativo, realizado sob coordenação do economista Lucas Ferraz, pelo Centro de Comércio Global e Investimento (CCGI), da Escola de Economia de São Paulo (EESP-FGV), mostra que, independentemente de razões políticas, ideológicas ou mesmo de processo de produção, problemas de eficiência logística dificultam - se não impedem - a integração brasileira às cadeias de valor.
Em comparação com os mercados mais eficientes, o frete ferroviário no Brasil, por exemplo, custa 15 vezes mais. No caso do frete rodoviário, a diferença cai, mas ainda assim o custo aqui é 3,5 vezes maior. A mesma distância separa o valor da operação de contêineres aqui e lá fora.
Com a difusão das cadeias globais de valor, o transporte por via área vem ganhando importância e seu crescimento tem sido duas vezes e meia maior do que o marítimo. Faz sentido, uma vez que, nesses casos, o tempo é fator crítico, com a montagem mais eficiente de peças e partes trazidas de várias partes do mundo exigindo a adoção de processos de produção "just in time".
É aí, quando se comparam os procedimentos no Brasil e nos lugares de maior eficiência logística, que o tempo de desembaraço de mercadorias fica dramático: o que é liberado lá fora em menos de cinco horas e meia, aqui pode levar mais de dois dias e meio. "Em relação às melhores práticas internacionais", diz Lucas Ferraz, "a defasagem da infraestrutura logística brasileira é de 70%".
É possível medir em números essas perdas. Considerando que cada dia de trânsito custa entre 0,6% e 2,1% do valor da carga, o estudo do CCGI simulou o que aconteceria se fosse possível reduzir pela metade os custos brasileiros de desembaraço aduaneiro. Apenas com essa redução, os volumes anuais de exportação e importação poderiam crescer, cada um, cerca de 2,5% e o PIB poderia experimentar, a cada ano, uma expansão adicional de 0,2%.
A nova Lei dos Portos, aprovada depois de tantas idas e vindas, tem potencial para mitigar essas desvantagens. Mas, depois da decisão de acelerar a desburocratização do comércio internacional - parte do acordo de Bali, assinado em dezembro, no âmbito da Organização Mundial de Comércio (OMC), para encurtar distâncias -, se correr bastante, o Brasil ainda estará indo devagar.

Dora Kramer- À FRANCESA

Dora Kramer
Há emissão de sinais sobre os negócios da Petrobrás, notadamente os dois de mais fácil compreensão - a compra da refinaria de Pasadena, no Texas, e a construção de Abreu e Lima, em Pernambuco -, que indicam a preparação de uma saída à francesa para a confusão criada pelo ímpeto da presidente Dilma Rousseff de afastar de si um problema por meio de emenda desastrosa para o conjunto do soneto.
Os personagens envolvidos na história até um tempo atrás apresentavam versões contraditórias, pareciam trocar mensagens cifradas e até algumas alfinetadas. Instaladas as duas CPIs no Congresso, porque o governo não teve força para impedir, as falas de cada um foram sendo adaptadas de forma a convergirem para um ponto: quaisquer que tenham sido os problemas - sim, pois que existem não há como negar -, eles foram todos produtos de mera negligência.
No início de maio, a presidente Dilma, que em março havia sido tão veemente ao atribuir a informações "técnica e juridicamente falhas" a compra da refinaria que em 2005 valia US$ 42,5 milhões e em 2012 custou US$ 1,18 bilhão à Petrobrás, amenizou o tom. Passou a dizer que "pode ter havido equívoco" no negócio, mas jamais "má-fé".
Domingo, o ex-diretor de Abastecimento e Refino da estatal Paulo Roberto Costa deu à Folha de S. Paulo sua primeira entrevista depois de dois meses preso sob a suspeita de participar de um esquema de coleta de propinas entre empresas interessadas em contratos com a Petrobrás para dividir o butim com políticos.
Em resumo, negou quaisquer irregularidades de ordem criminal, rejeitou a hipótese de superfaturamento na refinaria de Abreu e Lima e disse que a previsão inicial de US$ 2,5 bilhões contra o custo final da construção de US$ 18,5 bilhões deveu-se à falta de planejamento. "Conta de padeiro", desleixo. Desmazelo, sabe como é? Um aumento de 620%. Mas, tudo na maior inocência.
Ainda que tenha sido uma questão de incúria, sem resquício de "má-fé". Nem por isso deixa de ser malfeito. Ou em português claro: malversação de dinheiro público.
Efeito especial. Embora componham bem a cena da retirada, as ameaças ao ministro Joaquim Barbosa não convencem como motivação real para a decisão dele de antecipar a aposentadoria, depois de afirmar que ficaria ao menos até novembro quando terminaria seu período na presidência do Supremo Tribunal Federal.
Em primeiro lugar porque, em matéria de segurança, ele está muito mais protegido como integrante da Corte do que fora dele. Em segundo, expõe absoluta descrença (desconfiança?) na capacidade do Estado de preservar sua integridade física.
De qualquer modo, o ministro não confirmou essas versões nem tampouco as desmentiu.
Lé com cré. As situações esdrúxulas vão se reproduzir nas alianças País afora. No caso do Rio de Janeiro a bagunça é assim organizada: o ex-presidente Lula faz campanha para o candidato do PT ao governo, Lindbergh Farias; a presidente Dilma Rousseff fecha com o governador Pezão, do PMDB, que por sua vez declara apoio da seção regional a Aécio Neves na eleição presidencial.
Na mosca. De tão precisa, a frase do publicitário Renato Meirelles (Instituto de pesquisas Data Popular) em entrevista à coluna Direto da Fonte merece um bis: "A política brasileira é analógica, e os jovens eleitores são digitais".
Acrescento: no sentido figurado não apenas os jovens, mas a maior parte do eleitorado é "digital" em relação aos meios e modos da política ainda referidos na era pré-redemocratização.

Caio Blinder- Na Síria de Assad, a escolha de Sofia, entre o bad e o mad

Existe o argumento de que Bashar Assad venceria até eleições livres e transparentes na Síria. O argumento é acadêmico. Assad é um ditador genocida e as eleições que se realizam nesta terça-feira são uma farsa grotesca. A Síria é uma nação destruída pela guerra civil, um estado falido. Teve lugar a profecia auto-realizável de Assad de sectarismo e selvageria. Com sua repressão genocida a protestos que irromperam há três anos, ele gerou uma resistência igualmente desumana encabeçada por jihadistas.
A eleição desta terça-feira é um exercício político para Assad tentar criar um fato consumado: eu estou aqui e não vou embora. Desta forma, Assad fecha as portas para uma solução negociada e foi a sua decisão de convocar estas eleições que enterrou a diplomacia em Genebra, entre o regime e a oposição moderada, que, aliás, nunca fora promissora. O ditador filho de ditador quer colocar os sírios diante de uma escolha de Sofia: ele ou os jihadistas. E para muitos sírios, existe o caminho relutante de volta ao seio do regime, não por apoio a Assad, mas pela sensação de que ele representa uma aparência de normalidade.
Claro que tudo isto é surrealista. Não podemos, é verdade, negar que Assad desafiou as expectativas (e pela enésima vez, eu reconheço que inclusive as minhas) ao não cair como mais um dominó na Primavera Árabe. Aliás, o velho tabuleiro está se recompondo, como no Egito do presidente eleito Sisi, que triunfou com apenas 93% dos votos, em meio a um comparecimento sofrível às urnas.
No caso da Síria, não existem sequer condições logísticas para o comparecimento às urnas. Na tradição familiar, Assad irá  fabricar a legitimidade. Em 1999, Hafez, seu papai ditador, teve 99.98% dos votos (o filho pegou o trono no ano seguinte com a morte do ditador que reinara por 30 anos). Bashar foi reeleito para o segundo mandato de sete anos em 2007, sem competição, com 97.6% dos votos. Desta vez, o regime inventou dois oponentes simbólicos.
Além de crimes de guerra e contra a humanidade cometidos para ficar no poder, como usar a arma da fome contra a população civil, Assad tem uma maciça m áquina de agitação e propaganda para destacar as barbaridades (são verdadeiras) praticadas por jihadistas. O movimento Estado Islâmico do Iraque e do Levante foi renegado até pela rede Al Qaeda. E uma oposição caótica não ajuda muito na resistência. Países ocidentais vacilam em dar ajuda aos rebeldes, temerosos que as armas caiam nas mãos de decepadores e crucificadores. Há sinais, no entanto, de que virá ajuda mais substancial a alguns setores dos rebeldes, pois os EUA também temem que a guerra penda demais para o lado do regime.
A oposição armada, embora dividida, não foi derrotada. E a fantasia política da eleição não vai alterar o impasse militar Ademais, o principal fator para a preservação de Bashar Assad no poder é o apoio do Irã, Hezbollah e Rússia (nos dois primeiros casos inclusive com tropas). O jornalFinancial Times lembra que um dia o ditador poderá ser vítima da aproximação entre Irã e EUA. Uma transição para uma genuína normalidade na Síria mais adiante vai exigir o enxotamento do clã Assad.
E existe outro aspecto inquietante (o que não é na Síria?): o espetáculo eleitoral irá enfurecer ainda mais a Arábia Saudita, disposta a prolongar a política de terra arrasada na Síria, com seu apoio a rebeldes, para se livrar de Assad. Diante da escolha de Sofia, os sírios podem terminar, para variar, no pior dos mundos: com mais Assad e mais jihadistas.
Por ora, hoje, é esta farsa eleitoral. Aryn Baker tem uma ampla reportagem esta semana na revista Time com o título “Será que Assad ganhou? O final da reportagem tem uma frase lapidar e eu vou deixar parte em inglês para não estragar: muitos sírios estão desesperados para tudo acabar o mais cedo possível, na medida em que eles foram pegos entre uma “revolution gone bad and a regime gone mad”.

Mais dois cubanos abandonam programa Mais Médicos, afirma associação

Fabiana Cambricoli - O Estado de S.Paulo
02 Junho 2014 | 20h 39

Profissionais trabalhavam no Pará e procuraram Associação Médica Brasileira para denunciar irregularidades

Mais dois cubanos desistiram do programa federal Mais Médicos, segundo informações da Associação Médica Brasileira (AMB). Eles deixaram a cidade em que trabalhavam, no Estado do Pará, e procuraram a entidade nesta segunda-feira, 2, para denunciar “condições de trabalho análogas à escravidão”.
Os dois profissionais deverão detalhar nesta terça-feira, 3, em entrevista para jornalistas, as más condições de trabalho pelas quais passavam nas unidades de saúde onde trabalhavam.
Com as duas novas desistências, são nove cubanos que abandonaram o programa. O Ministério da Saúde informou que não comentaria as desistências antes de ter mais detalhes sobre o caso. Disse apenas que a parceria com o governo cubano prevê a reposição do profissional em todos os casos de abandono ou desistência.
Desde fevereiro, a AMB mantém o Programa de Apoio ao Médico Estrangeiro, criado para dar suporte aos profissionais que queiram deixar o programa ou denunciar irregularidades.  Primeira médica a abandonar o Mais Médicos, em fevereiro, a cubana Ramona Rodriguez tornou-se funcionária da entidade, mas decidiu mudar-se para os Estados Unidos no início de abril.

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