sexta-feira, 6 de junho de 2014

Leitores, corram para comprar este ótimo livro — antes que Roberto Carlos consiga censurá-lo

Ricardo Setti-VEJA


Sem perdão nem raiva: Paulo Cesar de Araújo, com o livro proibido, e Roberto Carlos: o historiador não poupa o censor, mas valoriza a obra do cantor e compositor (Foto: Lu Teixeira/CPDoc JB)
Sem perdão nem raiva: Paulo Cesar de Araújo, com o livro proibido, e Roberto Carlos: o historiador não poupa o censor, mas valoriza a obra do cantor e compositor (Foto: Lu Teixeira/CPDoc JB)
NECESSÁRIO E DELICIOSO
O novo livro do biógrafo censurado de Roberto Carlos é uma contundente defesa da liberdade de expressão. E um envolvente ensaio histórico e afetivo sobre música popular
Reportagem de Jerônimo Teixeira publicada em edição impressa de VEJA
Era o primeiro show que Roberto Carlos fazia em Vitória da Conquista, na Bahia, em 1973, e Paulo Cesar de Araújo, então com 11 anos, vestiu sua roupa domingueira para ir ao estádio onde a apresentação teria lugar. Garoto pobre que já completara o apertado orçamento da família engraxando sapatos, ele não tinha os 10 cruzeiros do ingresso. Ficou rondando o lugar, na esperança de conseguir uma brecha.
Pouco antes do início do show, um porteiro simpático deixou entrar os moleques negros e sem camisa que andavam por ali. Araújo, porém, foi barrado: branco e bem vestido, tinha cara de quem poderia pagar.
Essa história de infância já estava relatada em Roberto Carlos em Detalhes, a biografia que Araújo, hoje um respeitado historiador da música popular brasileira, lançou em 2006, e volta a aparecer no recém-lançado O Réu e o Rei (Companhia das Letras; 528 páginas; 45 reais). A anedota atesta a paixão antiga do pesquisador por seu objeto de estudo.
o réu e o rei
A biografia não autorizada de Roberto Carlos: se depender dos advogados do rei, o livro não será vendido por muito tempo

No novo livro, porém, ela serve ainda para dimensionar a estupidez autoritária de Roberto Carlos – que, por meio judicial, conseguiu proibir e recolher das livrarias uma obra que era o tributo de um grande fã.
O réu do título, claro, é o próprio Araújo, cuja rigorosa biografia não contava com a autorização do chamado rei da música brasileira, e por isso acabou censurada.
Este é, para o momento, um livro necessário: a Câmara dos Deputados acaba de aprovar, com emendas, o projeto de lei do deputado Newton Lima, do PT de São Paulo, que permite a publicação de biografias sem autorização do biografado, e a matéria agora vai para votação no Senado.
O Réu e o Rei é uma defesa incisiva da liberdade dos biógrafos e, por extensão, do público leitor, que ganha em conhecimento da história quando pode encontrar, em livrarias e bibliotecas, obras que não se deixam cercear pelos transtornos e obsessões das celebridades biografadas.
Araújo relembra os duros anos de pesquisa que o levaram à redação deRoberto Carlos em Detalhes – trabalhava, cursava duas faculdades no Rio de Janeiro e marcava entrevistas com músicos como Tom Jobim e Caetano Veloso de um orelhão próximo a sua casa em Niterói, pois não tinha telefone próprio.
O autor esmiúça os autos dos processos montados contra ele, demonstrando imprecisões e distorções. E, no capítulo mais dramático do livro, reconstitui a tarde que passou frente a frente com Roberto Carlos, em um fórum de São Paulo, quando, abandonado por seus editores da Planeta e pressionado pelos advogados, aceitou assinar um acordo que bania Roberto Carlos em Detalhes das livrarias.
Não foi o único episódio de censura a biografias no Brasil, mas é com certeza o mais emblemático, o caso exemplar que demonstra o absurdo das limitações legais que, no país, ainda tutelam a liberdade de expressão.
(Foto: Felipe Assumpção)
Roberto Carlos já conseguiu tirar das prateleiras um livro sobre sua vida antes (Foto: Felipe Assumpção)

O caso foi muito lembrado quando o debate sobre biografias não autorizadas ganhou relevo, no ano passado, depois da desastrada intervenção do grupo Procure Saber, formado por medalhões da MPB que ora pediam respeito absoluto à privacidade, ora insinuavam que o biografado deveria ganhar um troco em cima do trabalho dos biógrafos (o imbróglio, aliás, está bem resumido no último capítulo de O Réu e o Rei).
Além de oportuno, este é um grande livro. Merecerá ser lido mesmo quando o país afinal abraçar a liberdade de expressão como valor básico e inegociável.
Hábil mistura de memória afetiva com história cultural, a obra, sem traço de ressentimento contra o cantor-censor, examina o significado profundo que a música de Roberto teve para o público de menor poder aquisitivo nos anos 60 e 70 – e ataca o desprezo que a crítica musical intelectualizada dedicava ao artista que então vendia milhões de discos.
Há ainda bastidores saborosos das entrevistas que o autor fez com os maiores nomes da MPB: Tim Maia ofereceu maconha ao pesquisador (ele jura que não fumou nem tragou), e Araújo certa vez ajudou a comprar os sapatos que João Gilberto usou em um show.
Atenção, leitor: os advogados de Roberto Carlos estão lendo o livro. Por via das dúvidas, é melhor correr para garantir seu exemplar.

Caio Blinder- O dia D e uma nova hora H para o Ocidente

Eu sou viciado na grandeza e no triunfo do longuíssimo filme O Mais Longo dos Dias (1962, 178 minutos), com seu elenco multinacional estrelado, entre outros, por John Wayne, Richard Burton, Bourvil e Curd Jurgens. É verdade que as cenas iniciais de O Resgate do Soldado Ryan (1998) foram mais fundo no inferno do desembarque em si.
E esta sexta-feira, 6 de junho, é dia de reencenar o mais longo dos dias. Ainda bem que que na hora H, Vladimir Putin não foi desconvidado da cerimônia para lembrar os 70 anos do Dia D, o desembarque dos aliados na Normandia na Segunda Guerra Fria. Nosso homem em Moscou faz coisas terríveis, como invadir a Ucrânia, mas história é história. Como disse o presidente francês François Hollande, “podemos ter nossas diferenças com Vladimir Putin, mas eu nunca esquecerei que o povo russo perdeu milhões de vidas na Segunda Guerra Mundial”.
Desconvidar o presidente russo seria uma desfeita e ele cultiva a mesma mistura de patriotismo e vitimização de Joseph Stálin, o líder soviético na “Grande Guerra Patriótica”, com quem Winston Churchill e Franklin Roosevelt cerraram fileiras contra Adolf Hitler. Sim, foi a guerra daquela que os americanos qualificam de “a maior geração”, mas não foi meramente o duelo entre liberdade e tirania. Era preciso ser aliado de Stálin, que enterrou gerações de seres humanos com sua barbárie.
Foto tirada por Robert Capa na praia Omaha
Foto tirada por Robert Capa na praia Omaha
Em junho de 1943, Stálin escreveu a Churchill que os soldados soviéticos estavam fazendo “sacrifícios colossais” em comparação ao fardo “modesto” dos aliados ocidentais. E o apelo do líder soviético por uma segunda frente foi respondido com o desembarque um ano mais tarde na Normandia, a maior operação anfíbia da história. A presença de Putin na praia Espada nesta sexta-feira é mais um reconhecimento da imensa e devastadora contribuição soviética na derrota do nazismo (ele já esteve lá pela primeira vez há dez anos).
No entanto, não devemos diminuir ou marginalizar a importância estratégica e política da segunda frente. E eu fico comovido, muito comovido, com as imagens de veteranos marchando em suas cadeiras de rodas ou com suas bengalas. Sem uma invasão bem sucedida na Normandia, Hitler poderia deslocar mais divisões para enfrentar o Exército Vermelho (a Wehrmacht já estava na sua longa retirada da frente leste em junho de 1944). Os nazistas também teriam mais tempo para construir suas modernas armas de terror, o V-2. A guerra poderia se arrastar por muitos anos.
O veterano britânico Pat Churchill de volta à praia Juno
O veterano britânico Pat Churchill de volta à praia Juno
A presença de Putin na Normandia, portanto, nos faz relembrar que a Segunda Guerra não foi travada apenas para defender a democracia. Porém, com a segunda frente no Atlântico e outras frentes no Mediterrâneo foi também possível demarcar o território e conter o avanço soviético na Europa. Os festejos na Normandia, que contam também com a presença da primeira-ministra Angela Merkel e de veteranos alemães realçam o espírito de reconciliação na Europa, que gente como a líder da extrema direita francesa Marine Le Pen faz o possível para estragar.
Estas datas redondas sobre guerra são choques de narrativas. Na televisão russa, controlada pelo Kremlin, Putin será mostrado como o líder patriótico do país que realizou os maiores sacrifícios na Segunda Guerra, mas existem outras narrativas: o Dia D foi o triunfo militar ocidental para a criação de um mundo em que países belicosos não podem engolir territórios dos seus vizinhos.
E a Europa 70 anos DDDD (depois do Dia D) é isso desde que Putin não estrague o cenário. No entanto, os aliados ocidentais não estão tão aliados para enfrentar Moscou em 2014.  A banda mais oriental cobra medidas mais duras (países como Polônia). Na Europa Ocidental, há vacilos e o líder do mundo livre, Barack Obama, realmente não vive sua “finest hour” churchilliana. Espero que quando chegar a hora H e se Putin aprontar coisas ainda mais pesadas na nova frente russa o Ocidente reencontre sua “finest hour”.
A conversa está muito solene. Vamos terminar com a diatribe no Twitter de Garry Kasparov, o campeão de xadrez e dissidente russo: “Putin foi convidado para o aniversário do Dia D na França com líderes ocidentais? Será que eles precisavam de um especialista em invasões?”
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Fernando Gabeira-Dilma e as uvas

Estadão
Num de seus recentes discursos, Dilma Rousseff afirmou que as obras para a Copa terão padrão brasileiro, não padrão Fifa. Com essa frase queria dizer também que nossos padrões são mais democráticos, naturalmente referindo-se aos altos preços dos ingressos. Dilma fez tal declaração no fim de um período em que a Copa do Mundo foi perdida fora do campo e todos esperamos, ela com ansiedade singular, que seja ganha dentro do campo.
Essa frase de Dilma marca uma inflexão do governo nas suas relações com a Fifa, cujos dirigentes afirmam que o Brasil propunha a Copa em 17, e não 12 cidades. Foi preciso conter a megalomania de Lula e a própria Fifa foi otimista quando considerou 12 um bom número, levando em conta o tamanho do Pais, não suas reais possibilidades.
O Estádio Mané Garrincha, beirando o R$ 1,5 bilhão, custou mais caro que um estádio do Qatar - país com a maior renda per capita do mundo - para 2022. Se os cálculos forem comprovados, o padrão brasileiro foi mais caro, no Mané Garrincha, do que o padrão Fifa sonharia. O estádio de Brasília é um monumento. Não sabemos ainda se é um monumento à incompetência ou à roubalheira, embora no padrão brasileiro os dois joguem no mesmo time, bem perto do gol.
Três estádios foram plantados em cidades cujo futebol não atrai multidões. O velho estádio de Natal só conseguiu lotação plena quando o papa visitou a cidade. Para o novo estádio teremos de combinar com o papa Francisco algumas visitas regulares, algo difícil porque um papa não faz visitas apenas para cumprir tabela.
Em Cuiabá presenciamos um fato inédito na história: no dia da visita de inspeção da Fifa, o governador e o presidente da Assembleia estavam presos. É a Copa das Copas, ou o mico dos micos, como quiserem.
Em Manaus, na imensidão um estádio vazio, uma arena amazônica que me deixa perplexo, sobretudo quando vejo o que vi na Vila de Boim, a seis horas de barco de Santarém: o esforço das comunidades para jogarem a sua própria Copa, numa região da floresta para a qual não existe política de esporte.
Lula quis dar salto maior que as pernas e agora que o fracasso se revela resta apenas ironizar o padrão Fifa que se comprometeu a adotar.
A esquerda não tem o monopólio da duplicidade e da dissimulação. Mas num partido como o PT e, sobretudo, num governo ditatorial como o cubano, são os dois elementos vitais para sobreviver e crescer. Em O Homem que Amava os Cachorros, Leonardo Padura fala de uma família cubana, possivelmente a do próprio escritor, que ensinou aos filhos exatamente o oposto dessa regra da sobrevivência: falar a verdade, ser fiel a si próprio.
O discurso do governo brasileiro em relação à Copa é de um zigue-zague acrobático, uma tentativa desesperada de abordar os fatos de frente e cair na realidade. Não foi uma ideia feliz trazer a Copa para o Brasil e assumir os compromissos que assumiu com a Fifa.
Isso não significa que a Copa não deva ocorrer, muito menos que deixamos de torcer pela vitória dentro do campo. Significa apenas que a linguagem cínica do governo é uma fonte permanente de degradação da vida política. Reflete uma lei interna segundo a qual não é preciso dizer o que pensa, regra válida para todos os que aderem. Basta que façam o jogo, dancem de acordo com a música.
Até que ponto o cinismo triunfará amplamente numa sociedade democrática é o enigma que envolve o futuro próximo do Brasil. Controlar o aparato estatal, o Parlamento e até o Supremo Tribunal ainda é um cobertor curto. Restam a sociedade, a imprensa, a internet.
Os militares compreenderam que não tinham resposta para o futuro e organizaram a retirada para não baterem em fuga desordenada, arriscando a instituição. O PT não acumulou forças para encarar a verdade, arriscar o poder e preservar-se para o futuro.
O discurso de Dilma não é voltado para a frente. Apenas adverte que a vitória da oposição significará um ajuste que vai reduzir salários, aumentar o desemprego e cortar verbas sociais. Embora não reconheça, ela deve saber que é necessário um ajuste, que pode ser moderado, no sentido que lhe dá Amartya Sen. Quer dizer, não precisa reduzir salários nem cortar verbas sociais. Um ajuste desse tipo seria voltado para os gastos irracionais do governo. Mas bateria de frente com o mundo político e burocrático, toda essa gente agarrada a cargos, verbas, negociatas. Às vezes, quando falamos em defender o salário do povo, estamos defendendo os nossos próprios salários. E reaparecem aí a duplicidade e a dissimulação.
Dotar o Brasil de um governo inteligente, aberto e conectado, transformar um sistema político que se tornou uma gigantesca sanguessuga não figuram no seu horizonte. O único caminho é usar os interesses populares como escudo para os seus próprios interesses e agarrar-se ao poder.
Na classificação de presidentes de toda a República no quesito crescimento, Dilma está em penúltimo e Fernando Collor em antepenúltimo lugar, atrás de Floriano Peixoto, portanto, entre os quatro de baixo que vão para a Segundona. Ao afirmar que as dificuldades econômicas foram conjunturais, ela pede uma segunda chance. Mas pede como se estivesse no grupo de cima, preparando-se para a Libertadores.
Como dizia Cazuza, suas palavras não correspondem aos fatos, sua piscina está cheia de ratos. Aceitar que suas palavras não correspondem aos fatos e limpar a piscina política e administrativa dos seus ratos é uma tarefa gigantesca. O caminho mais fácil é controlar o Estado, o Parlamento o Supremo, mobilizar uma artilharia eletrônica.
Que venham todos, porque, independentemente de resultados eleitorais, há um imenso número de brasileiros sabendo o que há por trás dessa duplicidade e dissimulação. Gente que gostaria de falar sério sobre nossos problemas, e não perder a energia desmontando as bravatas de Lula, como essa da Copa. Perdemos tempo, dinheiro, operários, moradias, irresponsabilidade que nem a vitória no campo conseguirá apagar.
Jornalista

'Eles é que bebem e nós ficamos tontos'

José Neumanne
Relator da comissão parlamentar mista de inquérito (CPMI) aberta (pelo menos em teoria) para investigar escândalos protagonizados pela maior empresa brasileira, a Petrobrás, o deputado Marco Maia (PT-RS) fez questão de avisar que a convocação do ex-diretor de Abastecimento da estatal Paulo Roberto Costa para nela depor não tardará.
Como é público e notório, Paulo Roberto Costa foi preso pela Polícia Federal quando tentava destruir provas que o comprometiam - no âmbito das investigações da Operação Lava Jato - na condição de parceiro do doleiro Alberto Youssef, acusado de ter “lavado” R$ 10 bilhões. O doleiro continua preso, mas o ex-diretor da Petrobrás foi solto por obra e graça de despacho do ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki: este interrompeu sua depressão de 59 dias na cela, mas manteve presos os outros 11 que o juiz Sérgio Moro, do Paraná, mandara prender.
Chegaram até a definir como “troco de pinga” a eventual perda de US$ 1 bilhão (R$ 2,3 bilhões) na compra da refinaria da Astra Oil belga em Pasadena (Texas), pela qual a presidente da estatal, Graça Foster, reconhece pelo menos um prejuízo de US$ 530 milhões (R$ 1,2 bilhão). Mas a conta da refinaria de Abreu e Lima, em Pernambuco, uma associação em que os brasileiros entraram com a grana e os venezuelanos com saliva, é muito mais pesada. Há duas semanas, o jornal Valor Econômico teve acesso a atas de reuniões do Conselho de Administração da Petrobrás e de sua leitura concluiu que o plano básico de organização da refinaria foi aprovado pelos conselheiros em 30 de outubro de 2008, mas só em 14 de janeiro de 2010 eles conheceram o estudo de viabilidade da refinaria, cuja construção já tinha sido iniciada. E no ano anterior, lembrou o jornal, a estatal havia captado R$ 10,5 bilhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para o projeto, que, por esta e outras, viria a se tornar a obra mais onerosa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Pelos cálculos do jornal, a aventura teria elevado o valor a ser gasto na benemerência ao compadre Hugo Chávez à bagatela de R$ 40 bilhões, dez vezes mais do que se previa no início do projeto (R$ 4 bilhões). A algum crítico renitente, como o autor destas linhas, ocorreria até concluir que a diferença não poderia caracterizar sequer um troco de vinho do Porto Taylor’s de mais de 150 anos, vendido a 2.500 (R$ 8 mil) a garrafa. Nenhuma definição, porém, será tão precisa quanto a dada pelo alto funcionário da Petrobrás encarregado da obra, Paulo Roberto Costa, que chamou o embrulho de “conta de padeiro” em entrevista à Folha de S.Paulo. Será a estatal gerida como se fosse uma padaria?
“Conta de padeiro” é um jargão que ainda não consta de dicionários e que significa cálculo feito às pressas, sem os devidos cuidados nem embasamento - neste caso específico, sem projeto algum que justificasse despesas de tal monta. Mas é provável que em próximas edições a expressão venha a ser incorporada ao “pai dos burros”. Ildo Sauer, um dos principais colaboradores na área energética do programa de governo de Lula e ex-diretor de Gás e Energia da Petrobrás, declarou-se perplexo com o uso da expressão, embora concorde com a evidência de que jamais o investimento na refinaria poderia ter passado de US$ 8 bilhões (R$ 19 bilhões), menos da metade do gasto ora previsto. A expressão, de acordo com Sauer, ofende “a história da Petrobrás, que sempre teve uma gestão profissional e técnica” e “é uma desculpa grosseira para justificar o injustificável”.
A oposição decidiu centrar fogo na investigação sobre Abreu e Lima e reclamou da comparação. “Padeiro não erra nem conta. Se errasse, as padarias quebravam”, disse o líder do DEM na Câmara dos Deputados, Mendonça Filho (PE), que insiste na abertura da “caixa de Pandora” da Petrobrás, mas não desiste do meio menos adequado para fazê-lo.
Seria a oposição deficiente em inteligência ou estaria interessada apenas nos holofotes postos no debate nos plenários do Congresso, controlados pelo governo, para compensar o triplo de tempo da aliança governista na propaganda eleitoral no rádio e na TV, aparecendo no noticiário de todo dia da CPMI? Há, contudo, coisas mais importantes a cuidar do que defender a sabedoria contábil dos donos de padaria ou a honra ameaçada da equipe técnica da estatal. Mais grave do que o tom zombeteiro da definição do suspeito-mor, preso para não destruir provas e solto por magnificência do julgador supremo, ou do que a afronta aos funcionários, que até agora não de nada reclamaram pela voz de seus líderes corporativos, é a declaração de Graça Foster. Questionada pelos repórteres ao sair da sede da Fundação Getúlio Vargas, no Rio, a presidente da Petrobrás parodiou o enigma da esfinge de Édipo Rei com uma sentença perturbadora e comprometedora: “Não é que eu não queira, eu não posso falar”.
Quando o Valor Econômico revelou que a empresa que ela preside autorizou despesas de milhões de reais sem embasamento técnico, a estatal negou, em nota oficial, que seu conselho tenha aprovado em apenas 14 dias contratos sem licitação com as construtoras Galvão Engenharia e Queiroz Galvão. Sim, e daí? Agora a sra. Foster diz que não “pode” falar sobre graves acusações que pesam sobre suas costas, feitas publicamente por seu ex-companheiro de diretoria, acusado de corrupção. Em vez de participar da inútil sabatina do ex-diretor ex-preso na CPMI, a oposição serviria melhor ao País se lembrasse à presidente da Petrobrás que ela tem satisfações a dar ao contribuinte, que sustenta sua empresa e paga seu salário, a respeito das estapafúrdias diferenças entre gastos previstos e despesas feitas, que não podem ser tidas como meros erros contábeis. A presidente da Petrobrás não deve agir como se estivesse servindo pinga no balcão de um boteco cujos clientes cantam A Turma do Funil ao contrário.
Jornalista, poeta e escritor

Por outra via

aloizio mercadante
Mercadante: nem sim, nem não
Henrique Alves bateu no Palácio do Planalto para tentar uma saída do beco em que está, apertado entre os interesses do governo e a pressão da oposição (Leia mais aqui).
O tema: a exigência de DEM, PPS e PSDB em pautar o decreto apresentado por Mendonça Filho que susta a decisão de Dilma Rousseff sobre a participação de conselhos populares em assuntos do Executivo.
Henrique Alves sugeriu a Aloizio Mercadante que o governo revogue o decreto de Dilma e envie a mesma proposta num projeto de lei, que teria de passar pelo Congresso para entrar em vigor.
Mercadante só ouviu, não disse se aceitou ou não a ideia. Henrique Alves agora não poupa Dilma:
- A oposição radicalizou, apresenta argumentos que não existem, mas o governo errou na condução disso. Não deveria ter sido feito por decreto, deveria ter dado voz ao Parlamento.
Por Lauro Jardim

Conselho de quem sabe

“Ame o feio se o bonito não te dá bola.” (Limão)

Perguntinha

No Brasil há mais farmácias, corruptos ou automóveis?

O dilema de Jesus Crush

“Ser filho de homem não é fácil, exigem perfeição. Até tento ser certinho, mas a tentação do putedo acaba comigo.” (Jesus Crush)

Como abrir portas

“A melhor coisa para abrir portas ainda é ter a chave certa.” (Filosofeno, o filósofo que dorme sobre o capim)

Caio Blinder-República Popular da Amnésia (II)




Não podemos esquecer Liu Xiaobo, Prêmio Nobel da Paz na prisão
E a repressão se agravou na China desde o massacre de junho de 1989. Quem puder, leia o texto curto de Andrew Nathan, professor da Columbia University, em Nova York, e do ativista Hua Ze, craques infatigáveis para revelar o que acontece além da grande muralha de silêncio da ditadura chinesa.
Ambos enfatizam que a necessidade de manter e intensificar a repressão é sinal de que a brutalidade do 4 de junho não resolveu os problemas chineses. Pelo contrário, eles foram exacerbados. Está aí a barbaridade da sentença de 11 anos de prisão, decretada há cinco anos, para Liu Xiaobo, ativista da Praça da Paz Celestial e Prêmio Nobel da Paz.
O partidão chegou a uma encruzilhada em 1989 (havia horror do caminho reformista escolhido pelo líder soviético Mikhail Gorbachev, que, por sinal, estava em visita a Pequim, naquelas semanas turbulentas). O partidão poderia dialogar com os estudantes, conforme advogava o líder reformista Zhao Ziyang, formando uma frente ampla contra a corrupção. No entanto, o primeiro-ministro Li Peng argumentou que o diálogo representaria o fim do monopólio do poder do partidão. O líder supremo Deng Xiaoping se alinhou com Li Peng e o resto é a historia.
Pode-se se dizer que o massacre dos estudantes e o expurgo de Zhao Ziyang eram inevitáveis. Deng Xiaoping, a mola propulsora das reformas econômicas, queria dar o recado (e deu mesmo). Ele era consistentemente contrário a qualquer dissidência política.
Como escrevem Nathan e Ze, a recusa ao diálogo com a cidadania é o modus operandi do regime. Não sei se ambos estão muito otimistas quando arrematam que o regime está cada vez mais desacreditado e o resultado são “graduais e relutantes” atos de resistência. A resposta de Pequim é intensificar a repressão na medida em que o diálogo é visto com um contrato de altíssimo risco.
Nathan e Ze perguntam e respondem: “Será que a China vai se democratizar? Provavelmente sim, eventualmente; o modo presente de governar não é sustentável. Porém, a cada ano o risco de abertura é maior porque as demandas sociais que têm sido reprimidas estão crescendo”.

Caio Blinder- República Popular da Amnésia

O título desta coluna é o título do livro de Louisa Lim, a veterana correspondente na China da indispensável National Public Radio (dos EUA). Falar do livro é meu presente aos leitores no vigésimo quinto aniversário do massacre dos manifestantes pró-democracia na Praça da Paz Celestial, em Pequim, para que jamais esqueçamos o que aconteceu, ao contrário do que acontece com os chineses (pelo menos em Hong-Kong foi possível lembrar, com dezenas de mihares de pessoas presentes a uma vigília, a destacar estudantes que nem tinham nascido em 1989).
No ano passado, Louisa Lim realizou um experimento sobre o que ela qualifica de “grande esquecimento”. A jornalista confrontou estudantes de quatro importantes universidades de Pequim com uma das fotos icônicas da história da humanidade: o homem solitário e anônimo que confronta uma coluna de tanques no dia seguinte ao massacre dos manifestantes. Apenas 15 dos 100 estudantes souberam identificar a foto. Um estudante de doutorado em marketing perguntou se era na Coreia do Sul. Outro, um estudante de astronomia, se era em Kosovo. Dezenove estudantes especularam que se tratava de uma parada militar.
Suprimir o protesto foi apenas um ato da ditadura chinesa. Um outro foi e ainda é tentar suprimir a memória coletiva como parte de um pacto do regime com a população: sinal verde para buscar a fortuna econômica, mas não a fortuna política da liberdade. A repressão é vista como imprescindível para a fórmula de decolagem econômica.
Um proeminente novo-rico, Jack Ma, fundador do gigante do comércio eletrônico Alibaba, disse que a decisão de Deng Xiaoping de soltar os soldados contra os manifestantes foi “cruel, mas necessária”. Um líder estudantil na Universidade de Pequim que se alinhou com o regime, contra as manifestações, foi recompensado. Xiao Jianhua ganhou as devidas conexões com o aparelho partidário (passaporte para a riqueza) e hoje é empresário bilionário (em dólares).
Louisa Lim escreve que esquecer o que aconteceu em 1989 é um mecanismo de sobrevivência do regime e anda de mãos dadas com o revisionismo histórico de aceitar que o declínio chinês entre 1840 e 1949 (ano da revolução comunista) foi culpa do imperialismo estrangeiro, que os comunistas lutaram sozinhos contra os japoneses, que uma borracha deve ser passada na fome que matou 40 milhões de chineses no Grande Salto para Frente e que Mao foi “70% bom e 30% ruim”.
Esquecer é preciso, assim como novas formas de mobilização diante da falência do projeto ideológico comunista. Não é à toa que os maiores protestos na China desde 1989 aconteceram em 2012 nas marchas antijaponesas que tiveram lugar em 80 cidades com o aval das autoridades. Como diz Louisa Lim, melhor canalizar a fúria para fora do país, não para dentro.
A própria Praça da Paz Celestial foi reabilitada de um local de vergonha nacional para um de orgulho, de celebração da identidade nacional. Milhares de pessoas se congregam diariamente na praça e tiram fotos dos guardas que adentram com passo de ganso.
Até hoje não existem cifras oficiais sobre o número de vítimas. Morreram centenas, talvez milhares, de manifestantes há 25 anos. A Argentina da ditadura militar teve as Mães da Pra ça de Maio. A China tem as M ães da Praça da Paz Celestial. Seus filhos morreram em 3 e 4 de junho de 1989. Elas esperam os meros fatos, justiça e a abolição da república popular da amnésia.
E quem sabe, daqui a 25 anos, no cinquentenário do massacre, possamos escrever sobre o momento em que a coluna de tanques não resistiu ao avanço de pedestres anônimos, porém não solitários.

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